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O futebol nos trilhos

O Jornal Minuano, de Bagé, através do jornalista Higino Gonçalves, resgata uma história cheia de peculiridade sobre o comportamento de algumas torcidas antigamente. Nos idos dos anos cinqüenta, era bastante comum entre as torcidas do interior do Rio Grande do Sul, viagens de trem para dar seu apoio às equipes da cidade. Eu não sei em que época isto foi diminuindo, mas possivelmente tenha sido simultaneamente com o desmantelamento da RFFSA. Já o número de torcedores que acompanhavam estas tradicionais equipes do interior gaúcho também diminuiu e não só pelo fato do transporte ferroviário ter virado sucata (ou teria relação? Gostaria de pensar que sim, mas ocorreram outros problemas como já escrevemos aqui mesmo).
Eu imagino se hoje houvesse este tipo de costume entre os torcedores do interior, com passagens de trens baratas (em relação ao aluguel de vans e ônibus) e vagões inteiros ocupados por torcedores dos clubes do interior do Estado, dirigindo-se para acompanhar os jogos fora da cidade. O futebol do interior estaria em que patamar? O pior é pensar que esta época já existiu e que havia muita gente que apoiava incondicionalmente o clube da cidade, a despeito da raridade de títulos, desde a década de 40.

Mas era assim no interior gaúcho, principalmente na Metade Sul, naquela época e me pergunto se alguém possui ou tem conhecimento de alguma foto com essa gente, nestas viagens lendárias. Se alguém souber, que entre em contato, seria um belo resgate.

Mas nem tudo eram flores, mesmo naquela época dourada. Às vezes eram pedras.
O Dr. Jesus Ollé Vives, ardoroso torcedor do Bagé e que já ocupou cargos na diretoria jalde-negra inúmeras vezes, guarda um curioso impresso, que circulou nas mãos dos moradores de Livramento e Rivera, à época:

“Ao povo de Santana e Rivera:

A torcida rubro-negra convida a população das duas cidades a recepcionar ao famigerado quadro do Grêmio Esportivo Bagé à altura da maneira com que foram tratados os valorosos quartorzeanos quando excursionaram à cidade de Bagé.
Repugna aos nossos foros de cidade civilizada hospedar a horda de bárbaros bajeenses que, num atestado de incultura e vandalismo, traíram as tradições de hospitalidade dos rio-grandenses e, por isso, merecem o desprezo de todos os desportistas desta fronteira.
A torcida rubro-negra previne que assumirá atitudes de represália contra todos aqueles que, de uma forma ou de outra, facilitarem a estadia dos bajeenses em nossa cidade, quer hospedando, dando condição ou tratando com elementos da sua caravana.
Exige o bom nome das nossas cidades que os bajeenses sejam tratados como bárbaros e covardes que são.
Como será um dia de luto aquele em que o barbarismo chegar a nossa cidade, Santana estará vivendo um de seus dias mais tristes quando pisarem em terra santanense os representantes do Grêmio Esportivo Bagé.”


Os grifos no texto acima são meus, obviamente. Ocorre que na época era comum, junto com as excursões de trens, o apedrejamento dos vagões que traziam a torcida visitante, não só em Bagé. Contam também os mais antigos, que as sessões de pedras e brigas, podiam ocorrer em várias estações pelos arredores da cidade, antes do trem estar definitivamente a uma distância segura ou desestimulante.

Não sei o que houve com a torcida no jogo da volta, na matéria que conta sobre esta história não há relatos sobre, mas os jogos foram em 1951, 2 x 2 em Bagé, e 3 x 3 em Livramento, apesar do clima de guerra o Bagé não se intimidou. Pode-se notar que este artifício já é utilizado há bastante tempo no futebol e, assim também como hoje, nem sempre dá resultado em campo. O Bagé acabou eliminado da competição mais tarde, em Rio Grande, perdendo para o “vovô” por 6 x 0. E mesmo abaixo de pedradas e brigas, o futebol do interior era bem mais pujante no Rio Grande do Sul dos anos 40, e hoje sem pedras mas (perdoem o trocadilho óbvio) sob escombros.





Matéria via
Jornal Minuano (Bagé-RS).
Fotos:
http://www.estacoesferroviarias.com.br/ (na primeira, a Estação Central de Bagé nos anos 30 e na segunda nos dias atuais, agora funcionando como sede da Prefeitura Municipal).

Paulo Roberto Rocha - Eterno Capitão do Bagé

Como alguns sabem, sou torcedor do Bagé. Também por isto, junto com a torcida jalde-negra, criei o site do Bagé (link acima). E para o site entrevistei o Capitão Rocha, que foi capitão da equipe do Bagé que conquistou um dos títulos mais importantes da história do Bagé: a Copa Governador do Estado de 1974.
As respostas do Capitão são belíssimas e mesmo para os que não são torcedores do Bagé, é uma ótima oportunidade para conferir como nascem as paixões futebolísticas, ainda que por times que não comparecem tanto na mídia.
Além disto, Rocha conta um pouco como era o futebol gaúcho nos anos 70. Recomendo fortemente a leitura, pra torcedores de todos os times, mas que acima de tudo gostam de futebol.
Puríssimo.

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O site jalde-negro entrou em contato com o Capitão Paulo Roberto Rocha para a realização desta entrevista que os torcedores jalde-negros poderão conferir abaixo.Paulo Roberto Rocha é um dos maiores ídolos da história do Grêmio Esportivo Bagé e foi capitão da equipe que conquistou o inesquecível título da Copa Governador do Estado de 1974.
Nesta entrevista, Rocha conta alguns fatos bastante interessantes ,fala daquela época, do Bagé e sobre futebol de maneira geral.
Fica aqui nosso agradecimento ao capitão Paulo Roberto pelas excelentes respostas na entrevista e por tudo que realizou defendendo a camisa amarela e preta. Nosso sincero “muito obrigado”, de toda a torcida jalde-negra.
Dados Pessoais:Paulo Roberto Rocha
Nascimento: em Porto Alegre, no dia 27 de junho de 1951.
Carreira 1967 - infantil do Grêmio Porto-alegrense
1968/1969 - juvenil do Grêmio Porto-alegrense
1970 - profissionalização
1970 - Náutico de Rio Pardo
1971 a 1979 - Bagé
Posição: Ala (atuava tanto na esquerda como direita)
Formado em Educação Física pela Urcamp e professor estadual em atividade, atualmente leciona na Escola Waldemar Amoretty Machado, em Bagé. _________________________________________________________
Sobre seus dados pessoais, Paulo Roberto Rocha acrescenta:
"Apenas um reparo quanto á minha posição em campo.Nos meus tempos de guri, em times de várzea, comecei como lateral esquerdo. Quando fui para o Grêmio nas categorias de base, atuei na zaga, o mesmo ocorrendo no Náutico de Rio Pardo.Quando cheguei em Bagé, era zagueiro, com a chegada do Galego, fui deslocado para lateral direita.Naquele tempo éramos laterais, ala é coisa mais moderna, apesar de fazermos a mesma função, e ainda voltarmos para marcar".


Como ocorreu sua vinda para o Bagé?
Lá em Rio Pardo jogavam vários jogadores que eram, ou haviam jogado aqui.(Nilson goleiro, Walter, Osmar irmão do Carlinhos, Casemiro, Celmar, Baiano, Danúbio, Amarante).Quase vim para o Guarani, junto com o Claudionor, desisti na ultima hora (não queria me afastar de perto de Porto Alegre) Mas o Náutico estava fechando e aceitei o convite do Bagé, através do Jacob Sued e do Dr. Roberto Garrastazú, e vim junto com o Amarante.


Observando algumas imagens da conquista da Copa Governador, nota-se que já à época o título foi extrema e justamente valorizado pela torcida - inclusive com invasão de campo -. Os jogadores daquela grande equipe tinham a real dimensão do título conquistado e da importância que ele viria a ter a partir dali na história jalde-negra?
Sempre coloco o Campeonato Gaúcho de 1925, como o maior titulo conquistado pelo Bagé. Mas a Taça Governador do Estado em 1974 vem logo em seguida. Foi um título muito suado com dois turnos e na virada do 1º para o 2º estávamos em 14º lugar. Fomos recuperando posições e chegamos na rodada final, para decidir tudo num Baguá. Só a vitória interessava, e ela chegou com 1x0 gol do Derli (ponta esquerda).O estádio do Guarani veio abaixo... E no final do jogo nunca tinha visto coisa igual, foi a maior comemoração feita ate hoje. A torcida invadiu literalmente o campo, fomos fazer desfile de “carro” pela ”sete “de setembro... Eu subi e desci a sete umas quatro ou cinco vezes, com uma câimbra infernal na barriga... Na Pedra Moura a festa seguia... Estendeu-se até o meio da noite. Não deu como não ficarmos sabendo do quanto nossa torcida estava feliz (e tudo em cima do tradicional adversário) e que aquele título estava para sempre marcando um feito na historia do GRÊMIO ESPORTIVO BAGÉ.Aquela equipe era unida, mas muito unida mesmo. A maioria dos jogadores morava na concentração (inclusive o Galego) éramos como irmãos.Uns ajudavam os outros dentro e fora de campo. Tudo passava pela mão do Galego, que exigia de nós o máximo, tanto dentro do campo, quanto em atitudes fora de campo. Era quase um pai. Suas exigências e ajuda, também era para os jogadores casados, que moravam fora da Pedra Moura. Com certeza, não seriamos vencedores por tanto tempo sem a presença dele.Ele sempre nos fazia ver que ficaríamos marcados na história do clube, se ganhássemos títulos, se nossas campanhas nos campeonatos fossem boas. Mas para isso teria que trabalhar duro, no nosso máximo.Então sabíamos que de nossos esforços, viriam as glorias. E é muito bom saber que o Bagé daquele tempo, através das suas conquistas, serve de exemplo até hoje.
[Na foto acima, Rocha ergue a Taça Governador do Estado]

O Bagé sempre impôs muitas dificuldades aos adversários, principalmente na Pedra Moura, e nos anos 70 inclusive contra a dupla Gre-Nal. Qual era a maior virtude da equipe Campeã de 1974 (e da base que seguiu nos outros anos) e dos jogadores que por ela atuaram?
Minha resposta de cima, ajuda a responder esta. A era Galego no Bagé, se caracteriza por essa persistência e teimosia de estar sempre exigindo o nosso limite máximo. Lembro que suas preleções sempre iniciavam assim: ”Hoje é um jogo” chave ““.Se contra os outros...Era jogo chave... Contra a dupla Gre-nal (jogo que estaríamos na vitrine de toda imprensa gaúcha) era o jogo de nossas vidas.


A famosa garra das equipes do Bagé, de maneira geral, e particularmente do grupo que o senhor participou nos anos 70, juntamente com a técnica, é sempre lembrada. Era um grupo diferenciado em termos de aplicação e luta?
Sempre foi estilo Galego, essa determinação em buscar o melhor resultado. Diziam que ele como jogador corria o campo todo, motivando e mostrando aos seus companheiros que deveriam fazer o mesmo. Acho que ele teve a sorte e competência de juntar os jogadores certos aqui no Bagé. Eu perdia em média de 2 a 4 kg por partida, mas muitas vezes era poupado nos treinamentos. Sem um preparador físico formado...Era ele o responsável.Juntam-se ao Galego...O trabalho de toda direção...Presidentes como Luis Carlos Alcalde, Julio Machado, Pedro Dirceu, Liader Previtali, diretor de futebol como José Pedro de Melo Fuchs, não se encontram a toda hora.


Entre as fotos dos anos 70 (publicada recentemente no Jornal Minuano) há uma (inclusive muito apreciada pelos jovens torcedores do Bagé), em que o senhor aparece erguendo o braço direito com o punho cerrado. Foi algum tipo de manifestação? Fale um pouco sobre esta foto.
Não recordo em que momento é aquela foto. Mas pode ser na hora de um gol...Ou em um final de partida ganha.

Sobre os clássicos Ba-Guá nos anos 70: algum marcou mais na memória? Como era este confronto para o senhor?
Meu 1º Baguá foi o mais importante. Fazia 4 anos que o Bagé perdia pro Guarani,e ganhamos de 1x0 gol meu .Fui escolhido o melhor em campo, e recebi muitos presentes. Sempre dei muita sorte nos clássicos.

Algum fato pitoresco ou engraçado que o senhor lembre nestes anos como jogador? (ou alguma "fria" enfrentada neste interior gaúcho)
Vários... Logo que cheguei no Bagé (antes do Galego vir) passei por alguns fatos interessantes...Minha chuteira quebrara o solado, e fiz muitas partidas com ela me “beliscando” a sola do pé. Não tinha dinheiro para outra.Nossa alimentação era: de segunda á quinta arroz com repolho refogado, na sexta ao se aproximar do jogo do fim de semana...Arroz, feijão e um bife á milanesa, sábado e domingo...Comida de jogo da época: arroz, bife purê e salada de tomates.Nas viagens, íamos em duas Kombi, jogadores,roupeiro e massagista...Quem já viajou de Kombi sabe que os bancos não têm encosto para cabeça...Já pensou ir e voltar á Passo Fundo? De engraçado não tem nada, mas serve para medir as mordomias de hoje.


Qual a fato mais marcante vivenciado pelo senhor nestes anos como jogador do Grêmio Esportivo Bagé?
Muitos...Foram 8 anos como jogador do Bagé.Lembro quando realmente me tornei jalde-negro de verdade. Foi no meu 1º Baguá (aquele que fiz o gol da vitória). Não lembro que jogador do Guarani veio me gozar, retruquei, e ouvi dele, que nem distintivo nos tínhamos na camiseta (era verdade). Lembro que entrei no vestiário no intervalo do jogo, irritado com aquilo, comentei e quase exigi do “seu Paulo” (Galego) uma camiseta decente para o próximo jogo.No 2º tempo e tendo feito o gol da vitória passei por esse jogador e falei que nosso distintivo tava no nosso peito...Por baixo da nossa pele...Nosso distintivo era nosso coração.Ali nascia mais um jalde-negro.[grifo meu]



Um gol e/ou partida inesquecível:
Gols...Além de dois em baguá...Tem dois pitorescos: Baile de Debutantes no Clube Comercial, o Galego deixa-me ir, sem beber (só guaraná), sem fumar (eu fumava) e sem dançar...Assim que terminassem os desfiles eu viria para concentração. Isso aconteceu às 5 da madrugada. Às 8 horas viagem para Pelotas e jogo às 3 da tarde. Final do jogo Bagé 1 x 0 Farroupilha ,gol meu. Lembro que o Paulo Sergio Brasil que tbm tinha ido ao baile, quando me viu indo para área em um escanteio, me gozou: ”fica lá atrás te poupando, capitão...” Na volta, com meu gol de cabeça, retruquei: “tá faltando o teu agora...Senão o “homem” não te deixa ir mais aos bailes... Eu vou ir...”Sábado, jogo contra o Pelotas, o Galego diz que volta conosco para Bagé, pois não teremos folga para ir ao carnaval. Faço uma aposta com ele, se fizesse um gol, ele nos daria folga e ficaria em Pelotas após o jogo (ele morava lá). Fizemos 2x1 e eu o gol da vitória. Ele nunca mais quis apostar comigo outras folgas.Partida...Em Passo Fundo. Para classificarmos para o Gauchão precisávamos empatar com o Gaúcho.O Gaúcho um baita time...Os irmãos Pontes, Bebeto (canhão da serra) Leivinha (mais tarde veio para o Guarani e nos formamos juntos em educação física) Luis Freire, Raul Matte, Roberto (pai do Juca do Botafogo e cunhado do P.C.Carpeggiani, (treinador do Corinthians) jogou no Guarani tbm).O 1º tempo terminou 2 x 0 para o Gaúcho. Começa o 2º tempo o Mariotti desconta 2 x 1 , mas aos 15 min. O Bebeto faz 3 x 0. Aos 40 minutos eu cruzo uma bola e o Walter de meia bicicleta faz 3 x 2 , e aos 45 min. O Derli chuta de fora da área...A bola bate no travessão e no chão...E saí. O bandeirinha corre p/ o centro do campo...O juiz confirma o gol, 3 x 3.Os Pontes queriam matar o Mario Severo (bandeirinha conhecido por ser “caseiro”), termina o jogo,alegria total.”Seu Fuchs” (diretor de futebol) entra de roupa e tudo nos chuveiros junto conosco, e avisa que a gratificação estava dobrada...O L.C.Alcalde (Michidinha) prevê que vai ter que sair para rua conseguir o dinheiro que o “Fuchs” prometera.Chegamos em Bagé às 7 da manhã, sol alto (o Derli havia levado toda a delegação do ônibus para um passeio pelas ruas da “zona” lá em Sta Cruz, como tudo era festa... com o aval do Presidente, e isso nos atrasou).A torcida nos esperava na entrada da cidade, fomos até a Pedra Moura depois de comemorar pela “sete”.
Qual a diferença que o senhor observa entre a época do titulo da Copa Governador do Estado e os últimos anos no futebol profissional de Bagé, em termos de torcida, mobilização da comunidade e entusiasmo?
Eu posso dizer que no meu tempo, nossa torcida era mais tradicional, pois era mais velha, e não menos apaixonada como é hoje. Noto que hoje os torcedores mais entusiasmados são mais jovens, que torcem pelos resultados obtidos em campo, e não pela história do clube ou pela rivalidade com os adversários. Esta mesma torcida de hoje, que são na maioria jovens e, portanto mais efusivos, terão com certeza o mesmo perfil daqueles do meu tempo, com o passar dos anos. Quando presente nos jogos de hoje, noto que a “corneta” é bem mais pesada, inclusive saindo do nosso próprio pavilhão. E isso chega aos jogadores dentro do campo, sempre de forma negativa. A torcida deve apoiar mais, nos piores momentos, pois isso além de fortalecer a equipe dentro do campo, mostra ao adversário, que eles estão em minoria. Lembro de muitas vezes sermos aplaudidos, mesmo nas derrotas. Era só notarem que havíamos demonstrado luta.Tudo são seqüências...Com um bom time virão as conquistas... Com as conquistas, o respeito e admiração do torcedor...Com o torcedor as boas rendas...Com as rendas, melhores condições de ter time competitivo...Com um time competitivo, ajuda e entusiasma a comunidade. Um depende do outro.

Nos fale um pouco sobre a emoção de ver seu filho vestindo a camisa jalde-negra e também carregando a braçadeira de capitão. Há nervosismo? E se há, é mais difícil apenas torcer do que estar em campo?
Sempre foi melhor estar em campo, pois as coisas poderiam depender do teu esforço...na torcida, dependemos dos esforços dos outros. E isso nos faz sofrer demais.E com o Tiago em campo, aumentava mais essa agonia. Mas ele sempre soube representar muita bem a garra jalde-negra, aliada a uma grande capacidade de visão coletiva e habilidade individual, e isso me enche de muito orgulho. Por isso galgou a capitania em campo (outro motivo de satisfação).
[na foto ao lado, Tiago Rocha]


Qual sua impressão sobre o futebol atualmente? O senhor costuma ir a estádios, assiste pela TV, ou se mantém mais distante?
Tudo ajuda hoje para que se jogue melhor o futebol, a bola, os gramados, os salários (dos grandes clubes) os uniformes, as concentrações, os melhores hotéis, as chuteiras, as viagens, tudo. Até a variedade de jogos transmitidos pela tv ajudam no aprendizado, nas informações que chegam de todos cantos do mundo.Claro que tem muitas coisas para serem aperfeiçoadas...Mas não dá para fazer comparações com antigamente nestes itens que enumerei.Estive presente no estádio todos estes anos que o Tiago jogou pelo Bagé. Agora estou um pouco afastado, mas acompanho pelo rádio sempre.

Qual sua opinião sobre o futuro do futebol do interior? Existem coisas que podem ser melhoradas na sua opinião para o crescimento dos clubes e torcidas?
É uma pena ver o interior enfraquecido. Pra mim, tudo começou, quando a dupla Grenal se desinteressou do Gauchão. Muitas vezes comparecem com times reservas, pra eles é muito mais vantajoso financeiramente outro campeonato. O interior sempre dependeu deles para vender bem seus jogadores, para terem boas rendas. Um jogo contra a dupla, muitas vezes colocava os salários em dia, a mídia comparecia e atletas e clubes eram notados. Outra coisa são as trocas constantes de planteis, existe uma perda de identidade clubisticas por parte dos atletas. Parece que antigamente pegava-se mais amor ao clube, torcedores sabiam de cor as escalações do seu time e do adversário (as rendas muitas vezes eram melhores por que queriam também ver os bons jogadores do time visitante).Não tem como recuperar esses pequenos erros, uns foram levando aos outros, e o acúmulo causou esse caos no futebol interiorano. Não saberia apontar a solução, pelo imenso mal causado, a não ser, dizer que as soluções existem, mas interesses maiores, parecem que obstruem esses caminhos. A crise é geral, e o futebol do interior mostra isso a cada ano. Os grandes estádios estão sendo diminuídos em suas capacidades, porque não conseguem mais enchê-los de torcedores. Dói ver um jogo do Bagé, com a geral vazia.Parece-me que uma das maneiras de puxar os torcedores ao estádio é ter em seu time, um craque, que esteja identificado com o clube. O torcedor gosta de ver esta diferença, é ela que vai lhe levar ao estádio.Todo ídolo muitas vezes acaba se tornando automaticamente um líder, e com isso contagia o resto do grupo.Desde que seja uma liderança positiva. Outra coisa que sempre acreditei, são as categorias de base.É lá que está a solução dos clubes. Além de ser mais viável financeiramente, jogador da “terra” parece que é mais cobrado (a família, os vizinhos, o bairro, enfim... a comunidade) Desde que seja muita bem trabalhada essa “responsabilidade”.

O senhor considera a hipótese de voltar ao futebol profissional em outras funções?
Nunca quis mexer com futebol, pois entendo que nunca seria fora, o que fui dentro campo. Já pensou dirigir o Bagé, e não atingir meta nenhuma? Já pensou ser chamado de “burro” por aquele mesmo torcedor que um dia me aplaudiu? Não tenho esse perfil de aturar ofensas e aplausos das mesmas pessoas quieto, poderia me frustrar e com isso me afastar de vez. Parei aos 27 anos, confesso que cansado das viagens e concentrações. Recebi vários convites, mas preferi me manter torcedor a vida toda, do que ter que um dia deixar de ser jalde-negro.Quem sabe... Quando me aposentar, e encontrar pessoas que pensem próximas do que acho seja dirigir futebol, eu não possa colocar meu nome a disposição dos interesses do Bagé. Encanta-me muito, a Direção de futebol...Contratações de jogadores, contato com treinadores,administrar contratos, etc.

Um abraço jalde-negro,
Rocha

Tequila y Fútbol

O blog Puro Futebol entrevistou (via e-mail) Duda Calvin. Duda (foto ao lado) é vocalista da Tequila Baby, colorado e apaixonado por futebol. Na entrevista abaixo Duda fala um pouco de futebol gaúcho, Inter, rock e sobre um projeto social que a banda está desenvolvendo com uma gurizada de uma vila de Porto Alegre, que envolve futebol e a Tequila Baby.
Nossos agradecimentos ao Duda, que de maneira muito solícita e rápida respondeu aos questionamentos do blog.
Gracias, Duda!






Troca de passe

Time:Inter
Melhor equipe que já viste atuar no teu clube: Vi o Inter ser invicto em 79 (mas adoraria ter Figueroa naquela zaga)
Maior ídolo no Inter: Pra mim, Figueroa
Título inesquecível: Campeão do Mundo
Jogo inesquecível: Inter e SP pela final da Libertadores

Cadeira ou arquibancada? Arquibancada sempre, mas sei que o projeto é colocar cadeira no Beira-rio, acho isso ótimo, quando falo arquibancada falo daqueles setores que o ingresso é mais barato, e não da arquibancada de cimento em si.

Maior virtude num jogador: Inteligência futibolística, não confuda com a inteligência comum, a futibolística é exclusiva daquelas 4 linhas, exemplo: Mané Garrincha, era um gênio com a bola nos pés, brincava com ela, era até displicente ás vezes, o que gerava muitas críticas,uma vez perguntaram se ele gostava mais de driblar ou de fazer gols, ele disse: _Driblar ué!
Quando um jogador de inteligência futibolística sai das 4 linhas, ás vezes não consegue nem falar direito, construir uma frase que seja, mas ponha a bola nos pés dele e tu verá a genialidade brotando a cada passo.

Pior defeito num jogador: Fingir que é bom de bola, tem uma cambada aí fingindo.

Futebol força ou futebol arte?
Aí eu vou citar Gregório de Matos Guerra, que num poema escreveu: “O Todo sem a parte não é todo, a parte sem o todo não é parte”. Café com leite, queijo e goiabada, tem a medida exata para ser perfeito, e historicamente,todos os times vencedores alinharam muito bem estes duas teses.

Alguma loucura já feita pelo teu clube?
Sim, digamos que tenho o dom de converter Gremistas e torcedores de outros estados para o Inter, arrisco meu pescoço, mas é divertido. E já passei de 100 almas nesta conversão.

Quem sobe este ano na Série B do Gauchão?
Puxa queria os clássicos, o futebol só existe como paixão pelos clássicos, queria um Ba-Gua na primeira divisão, Um Bra-Pel Um Rio – Paulo (Rio Grande e São Paulo de Rio Grande).
O clássico mexe com todos, ele tem a função de tirar a teia de aranha da mente dos mais desligados por futebol, e faz você lavar aquela camisa velha e esquecida no fundo do Armário, e se preparar para o Jogo.

Programa esportivo e Coluna de futebol que mais gostas: Gosto de assistir o ESPN Brasil, em Jornal acho tudo muito sensacionalista demais, os colunistas de Jornal aqui de POA entram em contradições toda a semana, não curto muito isso.

Site de futebol: Gosto de sites sobre camisas de futebol, tenho uma coleção muito grande mesmo, mais de 350 peças.

Algum time do exterior que admira: Como sou colecionador tenho vários, quase uma centena que admiro, por suas histórias, por suas camisas, afinal sou professor de história, e pesquisei muito sobre futebol, mas digamos, tem um time na Alemanha, que é mundialmente famoso por ser o Time dos Roqueiros, se chama Saint Paulí, de Hamburgo, é da segunda divisão, vai um público imenso nos seus jogos, e quando o time entra em campo toca AC/DC no som do estádio, muito legal.


Duda, falando da rivalidade Gre-Nal. Na música "Sexo, Algemas e Cinta Liga", tem um trecho que diz: "não importa que seja oriental... mas que torça pro Internacional". Esta mesma música foi o primeiro clipe da banda que tocou inclusive nacionalmente (via MTV). Na hora de compor e de escolher como música para vídeo-clipe, chegaste a recear ter alguma antipatia por parte da torcida do Grêmio? E ao contrário: muitos colorados e fãs da banda comentam contigo sobre a letra?
Hum... Não sei te dizer, tipo, na Tequila sou o único colorado, todos os Gremistas sabem disso, e os colorados também, então os colorados falam: _ “Esta música foi o Duda que fez porque ele é o colorado da Tequila”.
E os Gremistas dizem:“Esta música foi o Duda que fez, mesmo porque ele é o único que não é gremista da Tequila”.
Ainda sobre "Sexo, Algemas e Cinta Liga". Futebol e rock formam uma parceria bem interessante. Mas muitas vezes pode resvalar no artificialismo, músicas "sob encomenda", etc, justamente ao contrário do trecho citado da "Sexo, Algemas” que soa tão espontânea.Não pensas em voltar ao tema em próximas músicas?Não sei mesmo, não fiz a música pensando nisso, foi pela rima mesmo Oriental/internacional.


Na torcida do Grêmio existe uma faixa em alusão ao AC/DC. Na do Inter existe uma do Ramones. A faixa não é tua, é? O que achas desta "tendência" do pessoal levar a paixão roqueira nas cores do clube para dentro do estádio?
Acho o Máximo, parabéns ao Gremista que fez a faixa do AC/DC e ao Colorado que fez a dos Ramones, façammais faixas, no exterior isso é muito comum.


Outro paralelo entre rock e futebol. No Rio Grande do Sul temos várias peculiaridades. Na música praticamente se criou aqui um mercado próprio (no sentido de não depender exclusivamente do centro do país, ainda que seja importante). Várias bandas surgiram da metade dos noventa para cá, e sobreviveram através do "mercado interno gaúcho" (apesar que muitas tenham atingindo o resto do país, como no caso da Tequila). No futebol, de certa maneira, existe uma situação análoga. Os dois maiores clubes daqui tinham tudo para ser clubes periféricos, mas em termos de conquistas não é isto que se apresenta. Creditas esta situação também a peculiaridades gaúchas? Aproveitando a tua formação como historiador, também pergunto: as características do povo do RS foram relevantes para estas conquistas ou isto seria apenas mais uma demonstração do famoso bairrismo gaúcho?
No RS sempre é nítida a bi-polaridade em assuntos que mechem com a paixão. Chimangos e Maragatos, Farroupilhas e Legalistas, e até quando Vargas chegou ao poder, mesmo sendo conterrâneo, aqui no RS não era unanimidade. Acreditas que isto é trazido para dentro dos clubes gaúchos? É a maior rivalidade do país?
Sim, você matou a questão, sem a rivalidade, não teríamos alcançado estes títulos, o Grêmio não é nada sem o Inter, o Inter não é nada sem o Grêmio, não torci pro Grêmio ser rebaixado, nunca vou torcer, senão, não vamos nos superar e tentar ganhar, com o Guarani na primeiro o Bagé vai ter que lutar e subir, eu não admito que o Bagé não tente fazer isso, eu não aceito que eles não queiram fazer isso, pelo bem do futebol ,Suba Bagé![grifo meu: é isto aí!].


No clipe do Ramones da música "Touring", aparecem trechos da banda chegando na Argentina. Em algumas imagens mostram carros ao lado do ônibus da banda, recepcionando-os. Lembra o fanatismo futebolístico, diretamente. Na tua opinião, caso de bandas como Ramones o fanatismo é semelhante ao vivido por clubes de futebol, ou é particularidade de certos países?
É exatamente o mesmo fanatismo, tatuam o símbolo da banda, chamam os filhos com nomes que homenageiam músicos da banda, no futebol é o mesmo.

O Motorhead patrocina um time de guris na Inglaterra. Noel Gallagher está pensando em se tornar acionista do Manchester City. Tens algum projeto relacionado ao futebol, ou mesmo pensas em entrar na vida política do Internacional?
A Tequila está com um projeto já funcionando que é um time de futebol em uma vila de POA, para meninos carentes, damos os uniformes e divulgamos o time que se chama Tequila Baby F.C. no site da Tequila teremos notícias deste projeto em breve, a idéia é de que uma vez por mês, este time faça jogos no interior (com membros da banda e convidados ilustres, de outras bandas, artistas, personalidades, etc...) arrecadando alimentos, um Kg de alimento por torcedor, as rádios iriam apoiar e a Tequila iria junto para jogar (aí que mora o perigo, pois os 4 são perna de pau demais,demais,demais)

Olhando teu perfil no Orkut vemos comunidades de vários clubes do interior gaúcho, inclusive da série B. Teu interesse por futebol do interior gaúcho, em especial, surgiu como? Tens alguma preferência mais forte por algum(s) dele(s)?
Pela história das cidades e de seus clubes clássicos, curto todos mesmo, ganhei este tempo uma camisa do Guarany de Bagé, pra minha coleção, amei, o pessoal do Rio Grande F.C.me mandou outra, é o clube mais antigo do Brasil, e está aqui no RS, a galera do São Paulo de Rio Grande me mandou uma também.O Esportivo de Bento, o Brasil de Farroupilha e o Farroupilha de Pelotas outra, fico Feliz em poder citar estes times e agradecer pelo presente, amo futebol, acho muito legal poder saber um pouco mais sobre nossos times do estado, e amo ver jogos do Gauchão, coisa de torcedor mesmo.


Nos conta um pouco sobre como viveste a final da Libertadores e do Mundial em Yokohama. Era um dos otimistas quanto ao jogo frente ao Barcelona? Ainda sobre jogos decisivos, há algum ritual que pratica?
Era um observador, contra o SP vi em SP o Jogo, ali sabia que tínhamos chance de ganhar, contra o Barcelona pensei, vai ser jogo de Xadrez desde o primeiro minuto, e foi, ali achava que só muita dedicação daria o título ao Inter, foi o que aconteceu, não foi um jogo, foi uma aplicação dos Jogadores, superaram suas dificuldades, e quem se supera surpreende sempre.
Pensei que o Grêmio faria isto contra o Boca Juniors, achava que o Grêmio conseguiria agora nesta libertadores, de verdade, mas levando-se em conta que saíram de uma segunda divisão e chegaram numa final, eles se superaram mesmo não é? É a rivalidade, tu luta para superar o outro sempre, ta dando resultados.

A tradicional mensagem final ou algo que não foi perguntado:
Abração a todos, apareçam nos shows da Tequila e entrem no www.tequilababy.com.br lá você pode escutar nossas músicas, entrar em nossas comunidades e escrever pra gente.
Feitoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo!
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Imagens: todas retiradas do site oficial da Tequila Baby



Chimarrão


Por: Maurício Kehrwald

Hoje é o Dia do Chimarrão. Não tinha como não postar nada sobre o assunto.

Sei. Chimarrão não necessariamente está ligado ao futebolismo em sua essência, mas não poderíamos deixar de prestar esta homenagem a um dos expoentes máximos da cultura de um povo. O povo de Daison Pontes, por supuesto!

Gracias y hasta luego!


O ato de tomar chimarrão é algo complexo.

Não pense você que socar erva mate cuia adentro, fixar a bomba e depois encher d’água pelando é fazer chimarrão. De forma alguma! Não só não é, como conheço gente que pelaria o lombo de quem o dissesse.
Sorver o mate requer um ritual de preparação, que não necessariamente obedece a um padrão e/ou ordem específicos.

Conheço casos de personas que acordam antes do sol exsurgir, enchem a chaleira, colocam-na ao fogo alto e, enquanto esperam a água chiar, cevam o mate com cirúrgico capricho, sem esquecer, claro, de dar a cuspida do primeiro mate frio no chão. Mesmo estando em uma cozinha de apartamento.


Há aqueles, mais campeiros - porém não muito - que acordam cedo, machado em punho, semblante lenhadoril e botina sete léguas. Estes caminham floresta adentro (usualmente é um matagal tosco) e cortam a própria lenha. Carregam-na até em casa, colocam no forno à lenha, para, aí sim, dar-se início ao processo.

E, finalmente, cito aquela casta mais ortodoxa, que considera hortelã no mate coisa de fresco. Para estes, água de chimarrão tem que estar fervendo, pelo menos. E quem passar a cuia com a mão direita toma pranchaço de facão na cara.

Evidentemente, não só de subjetividades no ato de prepará-lo vive a tradição. Inclusive tenho um amigo, colorado doente, que não toma chimarrão em cuia com o símbolo do Grêmio e exige ver o pacote da erva, pois “nunca se sabe”.
Muitos são os hábitos dos que sorvem o mate amargo.

Mas poucos são os que cultuam a prática com tamanho fervor quanto o Cunha o fez.
A história do Cunha é mais ou menos assim: depois de 30 anos trabalhando como funcionário público - deixou de levar o mate somente uma única vez, quando sua mulher faleceu e ele esqueceu a cuia no velório - aposentou-se e comprou uma propriedade rural, onde passava os dias tomando mate fervendo e atirando em qualquer coisa provida de vida que lhe cruzasse a vista. Anos depois, quando acometido de um câncer na garganta, já agonizante em seu derradeiro leito, ainda pediu para um filho seu:

- Tonico, me traga um amargo bem quente.
- Mas e tua garganta, pai?
- Vou matar o bicho escaldado!


foto: www.comqueroupa.blogspot.com


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