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Futebol por todas as estações

Neste final de 2007 fui passar o Natal em Jaguarão, cidade gaúcha que faz divisa com Rio Branco no Uruguay. As cidades são ligadas por uma ponte (Ponte Mauá), e são peculiares e belíssimas.

No lado uruguayo, bem na margem do Rio Jaguarão, encontram-se vários free-shops, para deleite de vários brasileiros que vão para lá abastecerem-se de especiarias e produtos, principalmente eletrônicos. Vi carros com placas de várias cidades gaúchas (algumas bem distantes, como Venâncio Aires e Palmeira das Missões) e o comércio é bastante intenso, principalmente nos finais de semana.

Junto com meu irmão, invadimos o lado uruguayo, uma vez a pé e outra de carro. Quando de carro, fomos até o balneário uruguayo da Lagoa Mirim. Achei até que seria mais acanhado, mas já conta com uma estrutura razoável. Nesta ida até lá, fui procurando algo sobre futebol para depois postar por aqui.

Em termos de camisas de clubes nas ruas, vi várias de Inter e Grêmio, mas possivelmente fossem pessoas de Jaguarão (muitos têm moradia no lado castelhano ou no próprio balneário). Lá também tem o fenômeno dos camelôs, e nestas “tiendas” também tinham várias camisas de times brasileiros (de procedência pirata, óbvio). A maioria era da dupla Gre-Nal, mas também observei algumas de clubes argentinos, Peñarol e Nacional, claro, e de brasileiros vi as de São Paulo, Santos, Palmeiras (sim, a verde-limão) e Flamengo. Creio que sejam os uruguayos que comprem as camisetas da dupla Gre-Nal, pois não tenho motivos para acreditar que alguém vá do outro lado da fronteira para comprar uma camisa pirata...do time de sua própria cidade. Mas não sei ao certo, para falar a verdade.

As impressões sobre a pequena e simpática Rio Branco foram as melhores. Como aqui não é um blog de turismo, vou resumir em algumas frases:
Rio Branco é uma cidade bastante limpa (excetuando-se a zona dos free-shop, que fica mais afastada do centro, mais perto da margem do rio).
Os motoristas respeitam a faixa de segurança, incrível.
E sim, existe futebol na cidade, ainda que não seja profissional.


Vejam o futebol presente no dia-a-dia, neste muro abaixo. Fui obrigado a tirar uma foto. Sensacional, uma pena que está tão descascado, mas este muro fica na "avenida principal" de Rio Branco:


Um adendo na parte gastronômica: bem na entrada do centro de Rio Branco, há o restaurante “La Punta”. Não sei se é o melhor ou o mais barato, pois foi o único que fui, além do “El Turista” (o "el turista" não é ruim, fica junto com os free-shop, mas como o nome sugere, é mais caro). No "La Punta" eles servem o “chivito” (foto abaixo), mas tens que adentrar um pouco mais na cidade de Rio Branco.


Neste amontoado que vocês podem observar na foto do delicioso chivito, escondem-se dois filés e dois nacos de bacon. Belleza muchacho, como já disse Jorge Ramos. 18 reais e teoricamente serve duas pessoas (tudo é duplo), mas aí depende do freguês, é claro. Patrícia de litro a 4 pila, e gelada. Mas não é em todos os lugares que a cerveja é “gelada” para os padrões daqui. Em alguns locais eles não se preocupam muito com a temperatura da cerveja, e existem explicações teóricas sobre a cerveja não ser tão gelada, mas não vêm ao caso.
E o “chivito” pode ser encontrado também em lanches de rua, como na praça central, mas não sei o preço e a qualidade. O do “La Punta” é muito bom. Os de “bicão” não quisemos experimentar porque no chivito vai salada de maionese, mais perigosa que atacante ruim, mas veloz, de time pequeno jogando no contra-ataque, ainda mais no calor que estava.

Na estrada que leva de Rio Branco para o balneário, achamos o estádio da cidade. A foto não está boa, mas o estádio é melhor do que as fotos: possui iluminação, cabines de imprensa e arquibancada.



É um estádio acanhado, mas muito bem cuidado. No momento em que chegamos acontecia um treino. Como o clube é semi-profissional (ou semi-amador, conforme a ótica), cada um trajava material de treino exclusivo (em relação aos demais da própria equipe). Impressionante a variedade. Um dos jogadores trajava uma listrada amarela e preta de mangas longas, a despeito do calor de quase 40º. Tenho certeza que era a camisa do Bagé, já que só olhei de longe e nem estar no país do Penãrol me demoveu da idéia de que ele estava envergando a camisa jalde-negra do GEB.
Só um jalde-negro para estar de manga longa naquele calor, e ele era o único.

O nome deste clube é como vários aqui no Brasil: “Ferroviário”. As cores são o azul e amarelo, a julgar pelas cores do estádio, pois não vi camisetas (abaixo a bilheteria do clube).



O motivo: a sede se localiza quase na linha férrea, que passa atrás do estádio. Assim como aqui, a linda estação ferroviária está abandonada (foto abaixo), e sua arquitetura guarda alguma pujança econômica que ficou no passado. Uma pena.

Mas o Ferroviário segue firme e treinando. Eu não pude descobrir como é o sistema do campeonato deles, mas no Uruguay a “divisão amadora” disputa jogos contra outras equipes do “departamento”, podendo chegar a ser campeão nacional nesta categoria. Tenho que descobrir o nome e sistema de disputa... Imagino que seja uma competição interessante.

Finalizo a postagem dando boas-vindas ao nosso novo colaborador, o Froner. Froner além de escrever sobre futebol, tem um projeto musical (solo) denominado “Svanat”. Como gostei bastante das músicas, especialmente da “D’alba”, utilizei ela para ilustrar algumas imagens de Jaguarão e Rio Branco (ou as fotos ilustram a música). Dêem uma conferida aí em baixo, no “vídeo”, e podem achar mais músicas do projeto do Froner em
Svanat . Tem tudo a ver com o pampa. Parabéns, Froner.
Cabe avisar que das fotos que coloquei neste vídeo, apenas 4 são de minha autoria, retirei as outras do Flickr, e são vários os autores, espero que me desculpem por não nomear um por um.

Amanhã tem postagem do Maurício e estamos inseridos no Prêmio Ibest, se alguém tiver paciência para votar, chegue de carrinho:

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Das canchas retas às 4 linhas

Existe no município de Pinheiro Machado (RS), um distrito chamado Torrinhas.Belíssimo lugar, onde pode ser visto ainda os últimos remanescentes dos mais xucros costumes gaudérios. Eu conheço o lugar porque um amigo meu, o Luciano, possuía uma estância por lá, e algumas vezes visitei o lugar. O avô deste meu amigo possuía também uma “cancha reta” (local destinado à corrida de cavalos) na localidade, talvez único local de diversão da galera nos finais de semana. Semana passada este meu amigo me visitou e relembrou algumas histórias que presenciou no estabelecimento de seu avô, histórias insólitas e muito engraçadas, e os personagens, figuras que ainda guardam o que de mais autêntico há na cultura gaúcha.
Os relatos são incríveis, e vão desde dos hábitos etílicos dos freqüentadores, até peleias lendárias em virtude dos jogos que por lá ocorriam (jogo de osso, carteado, cancha reta, etc).


Nada envolvia futebol, para que eu relatasse aqui, até que ele lembrou de um jogo, um pequeno fato, mas que demonstra bem como a cultura local invade o futebol. Ocorre em todos os setores, mas o futebol é prodigioso no que diz respeito a incorporar a “localidade” na prática de um esporte que é internacional.

O jogo corria normalmente para os padrões deste rincão, muita pechada, canelada, berros dos jogadores e da assistência, futebol cru, a essência do que hoje chamamos de “futebol força” – futebol à força. Com os exageros das divididas, a coisa foi ficando mais ríspida que o normal, e os jogadores de ambas as equipes já deixavam a bola e a marcação do gol para o plano secundário: virou caça ao adversário. Nada que preocupasse platéia e “comissões técnicas”, era normal que os jogos terminassem assim. Mas em alguns casos, até o mais rude zagueiro pode ficar preocupado com o parceiro de equipe.

Lá pelas tantas, numa dessas “divididas”, um zagueirão que só dava bico pra longe, jogando sem camisa, com o cigarro apertado entre os dentes, ao ser driblado por um atacante, não vacila: em velocidade, acerta um chute potente, mirando apenas a perna do “driblador”, que já ia disparar em velocidade (o segredo dos atacantes destas bandas é a velocidade, muito mais que a técnica... dá pra entender).
A câmera é lenta. O grunhido é de ambos. Um solavanco e o vôo. E o que assustou a todos, inclusive os que estavam acostumados com estes jogos domingueiros de futebol: um “CRAC”!
Um barulho horrendo para sair da perna de alguém. Um som de osso estilhaçado, mas muito estilhaçado. Já pensavam em rumar pro hospital mais próximo.
O atacante, rola, a pancada fora realmente muito forte, uma, duas, três vezes...cai inerte por uns bons 5 segundos de apreensão e levanta, mexendo na meia atingida.
A platéia está atônita, e fica mais surpresa ainda quando o jogador saca de dentro da meia, rindo, pedaços de uma telha Brasilit. Era a “caneleira” do sagaz atacante que havia espatifado. A canela, “intacta”, considerando a violência da pancada.
Primeiro, gargalhadas, depois aplausos efusivos da claque.

Eu apenas lamento não haver imagens destas pérolas que ocorriam nos campos do sul.

Guerra em Mataderos

Ontem decidiam uma vaga na Primeira Divisão argentina, Nueva Chicago e Tigres. O Nueva Chicago lutava por sua manutenção na primeira divisão e o Tigre pelo acesso (faz 27 anos desde a última participação do Tigre na primeira divisão).

Em campo, o jogo caminhava para o final, com 2 x 1 para o Tigre, que lhe dava a vaga e rebaixava o Nueva Chicago, quando é marcado um pênalti para o Tigre, que sacramentaria o desfecho da partida.

A partir daí, torcedores do Nueva Chicago (mandante da partida) invadem o campo e começam a agredir os cerca de 3.500 torcedores do Tigre, que não tiveram tempo de comemorar o desejado acesso à primeira divisão. A violência se mostrou com arremessos de paus, pedras, placas publicitárias e qualquer objeto mais contundente.

Se observarem o vídeo postado logo aí abaixo, verão cenas lamentáveis, pois além da briga entre torcidas, a torcida do Tigre ficou encurralada num canto do estádio, enquanto era alvejada por paus e pedras, arremessados por torcedores do Nueva Chicago que se encontravam dentro do campo. Entre a torcida do Tigre nota-se que há mulheres e crianças, que nada podem fazer para se proteger e fugir das pedradas, a não ser levantar o casaco e tentar cobrir a cabeça.
Os policiais pouco fazem (segundo reportagem do Clarín eram 350, mas pareciam menos, pelo menos no foco da confusão), e se observarem no vídeo, em certo momento parte da torcida do N. Chicago que invadiu o campo sai em disparada para o sentido inverso da confusão, e começa a sair do campo. Infelizmente saiam não por terem sido expulsos pelos policiais, mas sim porque observavam que os torcedores do Tigres começavam a conseguir abandonar as arquibancadas, e o objetivo dos que correram de dentro do campo, ao que parece, era continuar a briga fora do estádio, o que acabou ocorrendo.

O saldo futebolístico foi a queda do Nueva Chicago para a B e o acesso do Tigre para a A no argentino.

O saldo da violência, além de demonstrar despreparo da polícia lá presente, foi de 14 feridos e 78 detidos.
A nota mais trágica do ocorrido foi a morte de um torcedor do Tigre, de 41 anos, por traumatismo craniano, por causa de uma pedrada.
Mas pelas imagens da batalha campal de ontem e que se seguiu pelas ruas, pode-se dizer que poderia ter muito pior, como em outras tragédias.

O jornal Olé descreve no trecho final de sua reportagem:

"Desde la platea se escuchaban estallar los vidrios de de los autos; las narices y ojos picaban cuando el viento arrimaba los resabios del gas lacrimógeno disperso afuera, y un humo negro se veía a lo lejos: en Corrales y Cárdenas uno de los micros ardía en llamas. El resto de la caravana de Tigre era apedreada en Gral. Paz y Corrales, donde la batalla fue feroz. Tanto que el tránsito de la avenida se frenó por completo cuando la gente cruzaba, con cascotes en sus manos.
Sangre y muerte.
Todo está en manos del Juzgado de Instrucción Nº 2, a cargo del juez Omar Aníbal Peralta. Quedó la tragedia..."

Fontes:
http://www.clarin.com/diario/2007/06/25/um/m-01445126.htm
http://www.ole.com.ar/notas/2007/06/26/01445435.html


Estádios Singulares

Nas duas postagens mais recentes do Puro Futebol, Túlio e Maurício falavam um pouco sobre estádios. Aproveito o mote desta semana.

Sou de uma cidade que tem como particularidade um futebol de várzea muito pujante. Historicamente em Bagé, o futebol de várzea atrai muitos times e jogadores. Para terem uma idéia, em Bagé há a Taça de Ouro, Taça de Prata e Taça de Bronze. Todas as 3 com 20 times. E tudo levado muito a sério. Há contratação de jogadores e treinadores, com várias moedas de troca, e inclusive torcida, além dos familiares dos jogadores. Uma das demonstrações de força do público destas equipes, é que quando há jogos profissionais importantes em Bagé, negociam com a Prefeitura e clubes amadores, a transferência da rodada do amador, para que mais gente compareça ao estádio.

No que tange ao pitoresco (poderia dizer folclórico, mas é realidade) muita coisa já aconteceu nos gramados de Bagé, e eu não seria o melhor relator dos eventos, já que pouco acompanhei o futebol amador da cidade, a despeito de meu pai ter sido treinador de algumas equipes tradicionais dos certames varzeanos. Mas há histórias sensacionais. Se algum dia recuperar alguma delas, escreverei por aqui.

E a maioria destes times, representa bairros e vilas. Em Bagé há o segundo maior ginásio do Estado, o "Militão", e ao redor do estádio existe um complexo de campos de futebol (6 ou 7 campos com medidas oficiais), administrado pela prefeitura. A infra-estrutura é boa e lá são realizados muitos dos jogos amadores. Mas vários destes times também tem seu próprio "campo". E alguns têm peculiaridades incríveis. Cito apenas dois porque são os que estão mais vivos na memória: o do Unidos (meu pai treinou este time) e um na Vila Ipiranga, que não lembro que time (ou times) o utiliza.

No campo do Unidos, há uma "caída" para uma das metas. Melhor explicando, o campo tem uma inclinação de uns 30 graus...espero não estar exagerando para menos. Imaginem as inúmeras alternativas de estratégia que este fato oferece. Se atacares "na subida" no primeiro tempo, melhor deixar os jogadores mais desgastados entrar na segunda etapa.... Ou numa cobrança de falta: o jogador que bate com qualidade, mas tem menos força, bate as faltas quando forem contra a goleira da "baixada", por exemplo.

No campo da Vila Ipiranga, não precisa explicar muito: uma linha de trem era praticamente a demarcação da linha de meio campo. Imaginem o esforço dos jogadores para transpor o obstáculo, e as estratégias que a partir desta presença no gramado eram definidas.

Apesar destas dificuldades, os times amadores sobrevivem, e em todos finais de semana estão nas canchas espalhadas pela cidade, trazendo entretenimento e uma alternativa barata de diversão, que inclusive o participante pode ser protagonista. Este é um dos segredos do sucesso do futebol: tirando extremos, um campo é um campo em qualquer lugar do mundo (as medidas são flexíveis, inclusive), uma trave é fácil de fazer, as linhas são demarcadas com cal, etc. Na verdade, o maior problema mesmo, e que difere um campo de outro é o que está na volta, o que chamamos de estádio. Mas a grosso modo, futebol se joga em praticamente qualquer lugar, e o melhor: dentro das regras oficiais. Por isso a FIFA é tão relutante a certas mudanças (que incluiriam a necessidade de equipamentos eletrônicos, principalmente).

Pois a Federação Gaúcha de Futebol, a partir de 2009, vai exigir dos clubes participantes da Série A do Gauchão, estádios com iluminação artificial e capacidade mínima de 5000 torcedores.
Por um lado (o racional) entendo e apoio a medida. Porque se num primeiro momento isto impede alguns times de participarem, logo adiante todos estarão cumprindo esta exigência, as comunidades se mobilizarão ,tenho certeza e teremos melhores estádios.
Por outro lado, estarão mudando para sempre certas características do futebol do interior e do futebol gaúcho. Além do futebol enérgico, o interior com seus campos singulares sempre foram motivo de dificuldades, e neste sentido fazem parte da estética do Gauchão. Não que mudarão muito, mas já serão diferentes.

Futuramente a medida será saudável para todos os times, é claro, mas já registro a nostalgia dos velhos campos de guerra do interior.

Na foto, o estádio do Rampla Juniors (Montevidéu, Uruguai) que tem como peculiaridade ser contornado pelo Rio da Prata. Então quando a bola é chutada para fora dos domínios do estádio em direção ao rio, já há um bote com a missão de "pescar" a bola. Sensacional.

É pênalti!

De: Maurício Kehrwald

A manhã estava ensolarada e tranqüila naquele domingo. Nem poderia ser diferente, afinal, em uma cidadezinha interiorana com tão poucos habitantes (menos de dez milhares, com certeza) não há grandes agitações e percalços, principalmente no dia estipulado para o descanso.


No entanto aquela situação estava para mudar um pouco, e isto era até que esperado, afinal, o glorioso Trevo Verde, no ano anterior, conseguira pela primeira vez em sua cinqüentenária história chegar à primeira divisão do campeonato estadual. E agora, na última rodada, lutava desesperadamente para evitar o descenso ao escalão secundário, de onde possivelmente levaria mais cinqüenta anos pra ascender.

A comunidade prometera mobilização massiva em apoio ao xantorubro, com direito a discurso do prefeito em praça pública e presença dos atletas. Todos numa corrente rumo à vitória e aquela coisa toda...

O dia foi passando, a hora do jogo chegando, a população entrando em polvorosa e lotando o Trevosão, como era chamado o pequeno estádio do município, com capacidade para duas mil pessoas sentadas. A maioria das pessoas levou cadeiras de casa mesmo, e, à hora do embate, sem atrasos, deu-se início à partida.

A equipe da Associação dos Plantadores de Fumo de Coronel Ambrósio – APFCA – como equipe visitante adotou um sistema de jogo visando contra-ataques velozes, mantendo-se postada defensivamente, enquanto o Trevo Verde bombardeava o gol.

Acabou o primeiro tempo, e o segundo foi passando, passando, passando... mas o placar continuava zerado. E não fora por falta de oportunidades. O Ataliba Guerreiro, torcedor-símbolo e ex-atleta da equipe da casa, contabilizara 28 finalizações para o seu time e 12 para “eles”.

Mas o tempo, que é implacável, passou. Aos 38 minutos do segundo tempo o placar continuava do jeito que começara. O desespero começou a tomar conta nas arquibancadas e cadeiras. Badalhoca perdeu um daqueles gols imperdíveis e o atacante da Associação mandou uma bola na trave.

O pânico era evidente, quando, aos 43 minutos, Medeiros paulista adentra a área a tropicões e é erguido pela zagueiro oponente. Pênalti! Pênalti! Pênalti! A torcida delira, o goleiro e artilheiro Palheiras chora. O êxtase é geral.

– É agora ou nunca mais – brada Ataliba Guerreiro.

Os jogadores do Associação cercam o árbitro a gritos beligerantes, trocam empurrões e os 2 policiais presentes, aplicando todo o preparo recebido para dispersar este tipo de aglomeração, dão leves golpes de tonfa (ou cacetete, ou porrete, ou P.R.) nas costelas dos jogadores do APFCA que obviamente se acalmam um pouco.

A torcida do Trevo Verde está radiante, grita, se abraça, chora, esperneia. O técnico da equipe corre pela lateral do campo e grita pro Palheiras – goleiro e artilheiro:

- Ô Palheiras! Vai bater!
- Podexá professor

E corre até o meio de campo, onde para, levando a mão à coxa expressando um semblante realmente sôfrego:

- Professor!
- Quê foi, Palheiras?
- Senti a lesão!
- Aquela?
- Aquela, professor
- Filho da puta!

A lesão em questão curiosamente aparecia toda a vez em que havia um pênalti decisivo a ser cobrado.

- Quem bate? Quem bate?
- (...)
- Medeiros Paulista, bata você!
- Não dá, professor, tô no sacrifício já!
- Câimbra de novo?
- É!
- Medeiros Gaúcho. Você é o capitão! Corre pra bater!
- Não dá!
- Ora, ta lesionado também?
- Não. Eu sou ruim mesmo. O senhor sabe que eu só tô no time porque marco bem.
- Bate bem, você quer dizer! – gritou um adversário que estava já com as canelas inchadas.
- Cala a boca, fresco! – respondeu-lhe o Medeiros Gaúcho
- Ta certo! Ta certo – o treinador estava começando a ficar estressado
- Ô Badalhoca!
- (...)
- Badalhoca! – Gritou mais alto
- (...)
- Cadê aquele corno do Badalhoca
- Ta no boteco comemorando, professor! – gritou o Ataliba Guerreiro, da arquibancada
- Comemorando o que? Não ganhamos é nada ainda!
- Ta lá! Ele sempre ta lá quando não ta aqui. – retorquiu-lhe o Ataliba.
- Ta certo... ta certo...

A torcida começa a ficar impaciente e o árbitro começa a consultar o relógio.

- Quarenta e nove minutos! Quarenta e nove minutos!
- Calma, calma! Alguém há de bater essa merda desse pênalti
- Eu bato professor!
- Quem é você?
- Sou o Zezinho, irmão do Badalhoca!
- Você nem do time é! E tem menos de 14 anos!
- Mas eu bato bem na bola, professor!
- Não dá, moleque, vaza! Nem inscrito no campeonato você está!

E seguiu a conclamação aos guerreiros do time:

- Arioswaldo, vai lá! Você pega forte na bola
- Nem.
- Nem o que?
- Nem vou.
- Ta machucado?
- Não
- Ta nervoso?
- Não
- Ta com algum problema mais sério?
- Também não
- Então...?
- Não to afim. Aliás, vou pro boteco que o Badalhoca ta me esperando...

E foi.

- Mas que time de merda que eu fui arrumar pra treinar! Quem bate? Quem bate?
- Eu bato professor!
- Cala a boca Ataliba. Teu médico te proibiu de chegar perto de uma bola de futebol!
- Mas, professor, eu nunca errei pênalti na vida.
- Também nunca acertou. Por que nunca bateu. Te aquieta aí!
- Professor, eu quero bater.
- Cala a boca aleijado dos infernos! Vai bater pênalti na seleção para- olímpica de velhos bêbados!

Ataliba Guerreiro fechou a cara magoado. Não considerava-se merecedor destas palavras grosseiras. Esse treinadorzinho pensava que era quem? Não sabia quem havia sido o grande Ataliba Guerreiro? Também não ia mais oferecer sua ajuda.

- Quem bate? Quem bate?
- Cinqüenta e cinco minutos... vamos logo com isso! – gritou o juiz
- Calma, senhor, calma! – pedia o treinador
- Professor, eu posso bater?
- Você bate, Sergipe Sergipano?
- Bato!
- Então vai lá
- Vou!
- Vai!
- (...)
- (...)
- (...)
- Ta fazendo o que aí parado?
- Tô com medo, professor! Não vai dar...
- Para de chorar homem...
- Não dá... se eu errar nós caímos...
- Ai meu Deus... eu treino um time de frouxos e de ex-atletas... Quem bate? Quem bate?
- Chama o alemão Günter! – gritou um das cadeiras (de praia, claro)
- O alemão! Isso! Cadê o alemão?

Günter chamava-se, na verdade, Heinrich Günter. Era filho de filhos de alemães e motorista do time e também da prefeitura. Além de fazer bicos como taxista. Havia sido inscrito no campeonato pois a federação exigia que ao menos 20 atletas fossem inscritos. E Günter fora um dos 5 atletas não – profissionais “utilizados” pelo Trevo Verde para o certame...

- Cadê o alemão? – repetia, aos gritos, o técnico
- Ta na van – berrou um lá da arquibancada
- Manda trazer! Diz pra ele calçar as chuteiras e chutar essa merda de pênalti logo que eu quero receber o meu e ir embora pra capital!

E foram chamar o Günter

- Professor?
- Fala, Günter, mete uma camisa aí, um par de chuteiras e cobra logo esse pênalti!
- Eu calço 48, professor!
- Puta que o pariu! Quem tem uma chuteira número 48?

Silêncio

- E 47? 46?

Silêncio

- Eu calço 43. Serve? – perguntou ingenuamente o Cidimar Capixaba
- Vou voltar pra van. – limitou-se a dizer o Günter
- Sessenta e dois minutos – gritou o árbitro da partida
- Bate logo que eu quero ir pra casa – bradou o goleiro da Associação
- Eu já disse que posso bater... – falou o Ataliba Guerreiro, a esta altura já dento de campo.
- Te arranca daqui seu pinguço fedorento! Vai lá beber a tua cachaça com o Badalhoca e com o Arioswaldo!
- Quê que tem eu profezssssor?
- Ari! Que bom que você voltou! Bate o pênalti?
- Bato!
- Bate?
- Bato!
- Ta, toma aqui a bola.
- Qual delas?
- Ai meu Deus!! Quem bate? Quem bate?

Nesse momento há uma certa impaciência geral, tanto por parte da torcida, como por parte dos jogadores de ambas as equipes, e, lógico, do juiz de jogo que insurgia verbalmente xingos variados.

- Ta certo! Cadê o repórter da Rádio Popular?
- Estou aqui, professor! – Respondeu prontamente o dito cujo
- Você ta inscrito no campeonato, lembra? Faltava gente e você aceitou ser inscrito.
- Mas eu não achei que fosse jogar...
- Não achou mas vai. Ele pode bater, senhor juiz?
- Tenho de consultar o fiscal de jogo – respondeu-lhe
- Pois consulte, por obséquio, que eu quero resolver isso logo

O árbitro consultou o fiscal que assentiu com a cabeça.

- Veste essa camisa, calça um par de chuteira emprestado e cobra a penalidade.
- Posso cobrar enquanto eu narro? Sempre quis fazer isso
- Não!
- Então eu não bato o pênalti
- Ta, pode narrar – esta frase saiu quase como um suspiro da boca do pobre homem
- Então está bem, espere aí que vou ali calçar umas chuteiras que eu trouxe.
- Você trouxe chuteiras?
- Claro!
- Mas pra quê?
- Ué! Como assim pra quê? Pra cobrar a penalidade, professor!

O “professor” preferiu nem perguntar nada. Queria que aquele pênalti fosse convertido, o jogo acabasse, ele recebesse a pecúnia que lhe concernia e haveria de desaparecer daquela cidade e tentar arrumar um trabalho na capital.

Talvez um cargo como auxiliar em um clube maior ou treinador de alguma categoria de base. Currículo ele possuía: havia trabalhado com a garotada da Portuguesa de Desportos e conseguido resultados edificantes. Passara também pelas categorias de base de algumas equipes do interior do Rio de Janeiro. Até títulos conquistara.

Agora estava ali, pela primeira vez dirigindo uma equipe “profissional” e não precisava de um rebaixamento para laurear sua estréia.

Foi interrompido de seus pensamentos, pelo árbitro:

- Setenta e três minutos do segundo tempo! Vocês estão de palhaçada. Eu vou acabar este jogo é agora! – ameaçou o árbitro
- Acaba o jogo e não sai do estádio – respondeu à ameaça um torcedor.
- Calma lá minha gente, o repórter já vai cobrar isso ai de uma vez por todas. – Disse, por fim, o treinador.

Volta, devidamente fardado, o repórter. Sorrindo e já narrando sua entrada em campo:

- E adentra-se pelo campo o atleta de nome Carlos Camargo... tem a magnífica tarefa de efetuar o tento máximo da história do glorioso e inexorável Trevo Verde...
- Cala a boca filho de um corno com uma jumenta! Bate logo esse pênalti e vamos embora daqui!
- É! Vamos com isso que eu quero comer minha quentinha no ônibus! – Ganiu, soerguendo a voz, o goleiro do time visitante.

A torcida volta a acomodar-se. Reservas entraram nos lugares dos que desertaram rumo ao bar (no caso, o Badalhoca e o Arioswaldo, que, apesar de ter regressado ao campo, re-regressara ao boteco). Nos seus respectivos lugares: Nelsidor e Vítor.

Silêncio sepulcral. O batedor toma posição. Narrando, ainda.

- E Carlos Camargo prepara-se pra cobrança... espera o apito do árbitro.
- Priii!
- Apitou, correu Carlos Camargo pra bola...

Parou.
Silêncio.

Camargo vira-se para a comissão técnica (no caso, o treinador da equipe) e diz, tétrico:

- Professor... não dá! Acabei de lembrar que meu falecido pai trabalhou plantando fumo em Coronel Ambrósio. Inclusive foi membro-fundador da Associação. Não posso fazer isso com ele... sinto muito.
- Era só o que me faltava! Outro frouxo impotente! Pelo amor de Deus, quem bate essa penalidade?

Silêncio

- Nelsidor?
- Sim?
- Bate o pênalti
- Eu sou reserva do Trevo, professor... que qualificação terei eu pra comprometer-me em empreitada de tamanha relevância para a comunidade, no âmbito esportivo-social...
- Fecha a matraca! E volta a dar aula de comunicação, porque pra futebol você não serve!
- (...)
- Vítor!
- Senhor?
- Você é minha esperança. Você é um tetracampeão de Libertadores da América. Já foi campeão do mundo duas vezes. Tem bagagem e experiência... por favor, dê esta alegria à torcida do Trevo Verde.
- Ta certo, professor... só que tem um problema.
- Qual seja?
- Só bato quando pagarem os atrasados.
- Mas, Vítor. A direção pagará assim que o campeonato acabar, ou seja, daqui a, no máximo, 5 minutos!
- Antes quero ver a cor da grana. Se eu não receber, não tenho como comer, e sem comida o peão não vive.
- Mas você não tem guardado o dinheiro da época em que estava no auge?
- (...)
- Quem bate? Quem bate?
- Oitenta e dois minutos... – murmurou o juiz, quase chorando de raiva. – Eu tenho família também. Amanhã cedo trabalho numa escola. Sou professor de Educação Física...
- Ninguém quer saber o que você faz! – Gritou o Ataliba Guerreiro
- Quem bate? Quem bate?
- Palheiras, como ta a lesão?
- Ta dolorida!
- Mas dá pra bater?
- Não dá!
- Ai meu Jesus amado... quem vai bater?
- Eu disse que bato, você é quem não quer. – Vociferou o Ataliba Guerreiro
- Já não te mandei calar esse bico seu indigente, mendigo e fracassado?
- Ta certo, não vou mais tentar ajudar... mas eu sei quem poderia bater...
- Você, né? – Riu ironicamente o coach
- Fora eu.
- Quem?
- Não importa. Eu não era um mendigo, indigente, fracassado, bêbado e ladrão?
- Não te chamei de ladrão.
- Não?
- Não.
- Ah, certo... (visivelmente encabulado)
- Por favor, senhor Ataliba, quem poderia cobrar esta penalidade máxima a nosso favor?
- Você! – respondeu, cuspindo pipoca por entre os dentes, o nosso Guerreiro.
- Eu?
- É! Na falta de atleta eu soube que o senhor se inscreveu no campeonato
- Certo mas... mas... eu... eu não bato pênalti...

E, na falta de uma desculpa bem arranjada, e, sob olhar acusador da massa presente, percebeu que não haveria remédio. Teria de cobrar ele mesmo.

Acontece que ele nunca havia jogado futebol na vida, fora, claro, umas peladas esparsas quando jovem... no entanto era um aficionado pelo esporte. Acabara conseguindo um emprego na escolinha de um colégio em São Paulo assim que saíra da faculdade. E acabara conseguindo certa notoriedade “pagando uma de boleiro”.
Seria desmascarado. Certo. Mas também não podia ser tão difícil assim acertar uma bola longe do alcance do goleiro, e dentro daquela imensidão absurda que é uma trave de futebol de campo.
Amarrava as chuteiras lentamente, esperando que algum fenômeno ocorresse e esta tarefa fosse tirada de suas mãos – na verdade, pés – e transferida a outra sôfrega alma ali presente.

Calção vestido, camisa posta, meião erguido, chuteira amarrada. Como nada mais faltava, caminhou, pois, até a marca da cal.

Já havia tomado a distância e decidido que era canhoto – afinal ,escrevia com a esquerda, pois chutar bola, mesmo, nem lembrava com qual pé chutava, se é que chutava.

Concentrava-se no canto onde chutaria a bola (o meio), e já preparava uma “lesão” para o caso de errar.

O árbitro sorria um sorriso sádico e estava já em vias de apitar quando, como um último lampejo de esperança, o inefável Ataliba Guerreiro interrompe o ato:

- A quem interessar possa, o jogo entre o Palmeirense e o Campo das Pedras acabou empatado.
- Sim, e eu com isso? – berrou irritadíssimo o treinador-batedor-mártir do time xantorubro
- E daí que o empate lá, rebaixa o Palmeirense e salva o glorioso e esse outro timeco aí do rebaixamento

O capitão do Associação quis protestar quanto ao “timeco” mas preferiu ver onde que aquele circo ia dar.

E o Ataliba continuou.

- O Silveira Serrano já estava rebaixado. E com este empate o Palmeirense fica com o mesmo número de pontos dos dois times que estão jogando aqui... basta um empate pra livrar ambos do buraco.

O rosto do batedor alumia-se, apesar de ser já quase noite, e, dirigindo-se ao todo:

-Alguém aqui se importa com o Palmeirense?

Silêncio

- Alguém aqui ta filmando essa merda toda?

Silêncio

Olha reto para o repórter de campo, que lhe responde bruscamente:

- Ninguém ouve essa bosta mesmo.

E, finalmente, para o juiz da partida:

- Vamos embora daqui?
- Sim, e ligeiro.

Pega a bola em mãos, para o cronômetro, que já marcava quase 100 minutos de jogo, levanta o braço e...

- Priiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

Aí foi só alegria. Até os jogadores do Associação participaram da festa, e, mais tarde, as comissões técnicas mais os jogadores de ambas as equipes (exceto o comandante da equipe do Trevo Verde, que saíra às pressas após receber seus atrasados) chegaram ao boteco, pra comemorar, e mais tarde juravam...

...que o Badalhoca ainda estava ali.
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