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Daison Pontes atualmente, aguantando

Recebemos e-mail de Ricardo Attolini, atual treinador do Gaúcho de Passo Fundo, sobre Daison Pontes. Attolini conta que Daison está residindo em Passo Fundo.

Neste ano, retornaram Gaúcho e Passo Fundo ao futebol profissional, e consequentemente retornou o clássico Ga-Pas na cidade. Num destes clássicos, Daison Pontes se fez presente no reservado do Gaúcho, apoiando seu clube, e o técnico Ricardo Attolini nos enviou três fotos deste acontecimento, publicadas abaixo. Para quem ainda não conhece Daison Pontes, clique na terceira foto ao lado, fixa aqui no blog. Além de ser uma alegria ver Daison Pontes prestigiando o futebol do interior gaúcho, as fotos comprovam a falta que fazia o tradicional futebol de Passo Fundo no cenário gaudério. Agradecimentos a Ricardo Attolini, que nos enviou algumas imagens do acontecimento.

Off-topic - Fica a sugestão pra o Froner e o Maurício, que estão com um belo projeto musical. Que façam a versão "Se yo fuera Daison Pontes" (para os que não lembram, assistam o vídeo do tópico anterior a este). O pessoal que gosta de boa música pode conhecer a música do Froner no vídeo que aparece depois das fotos do Daison Pontes, vídeo postado aqui no blog em fevereiro de 2008, quando de uma visita minha a Jaguarão. Uma de minhas músicas preferidas.






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Svanat - L'alba - R. Froner:

La Doble Visera

Em novembro de 2006, foi publicado aqui no PF uma nota sobre o fim das atividades futeboleras na “Doble Visera”, estádio do Independiente de Avellaneda, até o final da sua remodelação. Depois de quase 3 anos, os rojos voltam a jogar em casa, com o estádio “Libertadores da América” reformulado. Ainda existem etapas a serem cumpridas, mas na noite de hoje o Independiente se reencontrou com a torcida, em sua casa.

É interessante observar que em muitos casos, o estádio de determinado time, por sua história, se torna coadjuvante , no mínimo, quando contada a saga do clube. Apesar dos apelos da modernidade, mesmo que alguns destes sejam justos, um estádio com história nunca deve ser desprezado. Não raro, um estádio é o time.

A famosa cancha do Independiente começou a ser elaborada nos anos 20, já que o clube precisava de um novo local para seus jogos. Seria a terceira sede do clube, fundado em 1905. Pensaram num grande estádio porque já nos anos 20, o Independiente colocava dez mil expectadores em clássicos locais. O projeto, portanto, deveria ter também isto em vista.

A compra do atual terreno não foi fácil (foi pago em 72 prestações), incluindo negociações com proprietários de famílias “racinguistas”, torcedores do rival.


Uma curiosidade, é que o projeto vencedor, do engenheiro Federico Garófalo, previa um pavilhão igual ao da tribuna do hipódromo do Rio de Janeiro, recém inaugurado na época. Segundo o Olé, através do historiador Claudio Keblaitis:
“La intención era construir una estructura de 157 metros de largo, 35 escalones y 28° de inclinación. Totalmente techada. Una construcción novedosa: una visera curva, doble... De cemento...”

Ainda como hoje, os abnegados do Independiente sofriam problemas com os rivais do Racing: enquanto a torcida do rojo colaborava durante o dia com materiais para a empreitada, à noite torcedores do Racing os subtraiam. A coisa acabava em tiros, inclusive, o que obrigou o Independiente a construir muros e contratar um ronda:
“La gente de Independiente llegaba con carros de tierra para rellenar el terreno. Y por la noche, aparecían los de Racing, con chatas, para robárselos. Terminaban a los tiros. Hubo que alambrar el predio y pagarle a un sereno".

Esta terra era necessária para nivelar o terreno, e também para aterrar, já que era uma área de charco (de apelido ‘’El Pantano de Ohaco’’). Somado a isto, a intenção era contruir um estádio de cimento, o que naquele local, era mais difícil ainda. Mas a chuva colaborou para que os depósitos de terra fossem nivelados. Estava aterrado “el Pantano”.

Depois destes e outros percalços, o Independiente inaugurava sua cancha, em 4 de março de 1928, num 2 x 2, contra o Peñarol, frente a 35000 torcedores. O terceiro estádio “de cimento” da América do Sul e um dos maiores.






Passado os anos, “La Doble Visera” presenciou o Independiente finalista em sete títulos da Libertadores, 2 vezes conquistar o Mundial Interclubes, e inumeráveis partidas lendárias. Casualmente ou não, estas vitórias vieram após a remodelação que ocorreu em 1960. Da mesma maneira que a “modernidade” pode ser nefasta a um clube, muitos são os exemplos de clubes que atingem outros patamares mais altos, após investir no seu estádio. Temos exemplos aqui mesmo, no Rio Grande do Sul.




Hoje o Independiente, depois de quase três anos, retornou para sua casa, com vitória: 3 x 2, diante do Colon. Como nos anos 20, a empreitada foi alvo de dúvidas e piadas, não infundadas, porque as dificuldades eram muitas. Mas pela segunda vez, a Avellaneda não tem exatamente uma nova cancha, mas um novo estádio. Se pode perder algo de sua história, com o novo “Libertadores da América”, por outro lado cria uma expectativa em seus torcedores, inclusive olhando para 1960: é de se perguntar o que poderá ocorrer nesta nova fase do Independiente, numa “Doble Visera” remodelada, mas que sempre carregará a história desta legendária cancha.

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Fotos: Deportivo Olé e Claudio Keblaitis


Fonte: Deportivo Olé, Wikipédia Hispânica e Site Oficial do Independiente.

Clássico Eterno

Nasci alguns meses antes da Argentina ser campeã mundial pela primeira vez. O Brasil empatou em 0 x 0 num confronto também em Rosário, como o do próximo sábado. Depois a Argentina seguiu em frente goleando o Peru, o que até hoje rende polêmica pelo placar, e saiu campeã contra a Holanda.

A primeira Copa do Mundo que quase assisti foi em 82. Como tinha apenas 4 anos, não lembro de nada, a não ser que minha família assistia os jogos, e que sofreram com a eliminação frente à Itália. Alguns anos depois a imagem do Falcão comemorando o gol que marcou naquele jogo entrou num clipe de final de ano da RBS TV (aquele repetido à exaustão nos finais de outros anos, da música “Vida”) e meus pais ao verem a cena da comemoração no clipe ainda lamentavam, comentando que todo aquele esforço, infelizmente, não rendeu a classificação. Mas nesta Copa, eu não lembro do jogo, possivelmente nem assisti, enfrentamos a Argentina de novo. 3 x 1 para o Brasil, com expulsão de Maradona por uma solada em Batista.
Li na coluna do Falcão estes dias, que Maradona declarou que aquela solada era na verdade para Falcão, que estaria debochando dos derrotados (Falcão negou, dizendo que isso nunca foi seu estilo).

Já em 86 eu lembro de muito mais lances dos jogos e dos sentimentos. Havia ganhado uma camisa oficial do Brasil, uma linda camisa da Topper, na época em que dentro
do escudo estava a Jules Rimet, e um detalhe com um ramo de café.
Foi com ela que assisti aquele golaço do Josimar no 3 x 0 contra a improvável Irlanda do Norte e eliminação nos pênaltis (quartas-de-final, contra a França), sendo que durante o jogo, quando ainda estava empate, Zico, que havia entrado alguns minutos antes, perdeu um pênalti sofrido por Branco. Desde este jogo que detesto comemorações por pênaltis marcados, antes de serem concluídos.


Depois da partida fui para a casa do meu vizinho para jogar botão e encontrei o pai dele, que na época parecia ter mais de 2 metros de altura, debruçado numa estante, chorando a eliminação. Na final, Alemanha e Argentina. Jogávamos bola na frente de nossas casas, já sem o menor interesse pela Copa, mas na rua estreita ouvíamos os gols narrados na TV. Ia 2 x 0 para a Argentina, até que deduzimos que a Alemanha havia empatado pelos berros daquele vizinho que havia chorado a eliminação do Brasil dias antes: - Era disso que “precisávamos”! Era disso!
Não, ele não era descendente de alemães ou algo do tipo.
Mas no final não houve jeito, Burrochaga, num gol clássico, fez o 3º e definitivo tento platino, decretando a segunda e dolorosa eliminação do meu vizinho naquela copa.

http://www.youtube.com/watch?v=UeleVz86uKI

Desta copa também lembro das tradicionais figurinhas do chiclete Ping Pong. Hoje em dia acho que nem o chiclete existe mais.

Na Copa de 90, a seleção de Lazaroni encontraria a Argentina nas quartas-de-final. Mais sofrimento (por isso sempre digo que a geração pós-90 não está nem aí pra “selenike” muito em virtude da fartura de finais e títulos...antes era dureza). A história não conta, mas o Brasil foi muito melhor durante o jogo. Mas numa jogada genial, Maradona coloca Caniggia frente a frente com Taffarel (lembra do gol do Burrochaga?), e gol da Argentina. Aqui no Brasil falavam que Alemão, companheiro de Maradona no Nápoli, deveria ter entrado rachando e que não fez por ser amigo do argentino. Um golaço, além de tudo. Aquele gol eu senti mais que a eliminação nos pênaltis para França. Além de estar mais velho, a disputa por pênaltis meio que vai fortalecendo o couro em caso de derrota.
Mas aquele gol de Caniggia, não. Nos deixou atônitos. O replay, com a câmera de trás do gol, era como um soco na boca do estômago quando a bola batia na rede.

http://www.youtube.com/watch?v=2zENs7iALyg


Terminado o jogo, fomos jogar bola, meio sem vontade, comentando do jogo. Mas no começo dos 90 era assim que curávamos as tristezas futeboleras. Jogando futebol.

Brasil e Argentina são de tal forma envolvidos em termos de futebol, que até nas Copas que não se enfrentam, um acompanha o outro. Lamento por aqueles que hoje em dia acham Brasil e Argentina somente mais jogo, por causa do dinheiro, da falta de respeito de alguns jogadores, etc. Não deixam de ter razão, mas prefiro a nostalgia dos 80, revivida em lampejos como na Copa América de 2004.

http://www.youtube.com/watch?v=8txyy_PXQM8

P.S: tentei por várias vezes colocar os vídeos diretos aqui, mas o Blogger está dando problema, pra variar.

Fotos: do Google Imagens, em blogs que não citavam os autores.

Um verdadeiro amistoso

Escrevo esta postagem, principalmente, como uma maneira de prestar um serviço à memória do futebol, ao menos no que tange a internet, já que na época do ocorrido, as publicações bageenses não eram “upadas” para a rede. Então, a partir de agora, espero que quem procure pelo jogo abaixo relatado na internet, chegue pelo menos a este texto, que apesar das falhas da memória, já é alguma coisa.

O ano é 1994, e o local é o estádio da Pedra Moura.
Os dirigentes de Bagé e Guarany organizaram uma rodada dupla, na qual as equipes locais enfrentariam duas equipes de Montevidéu. Ao Guarany tocou enfrentar o Sud América, naranja, e o jogo de fundo seria Bagé x Miramar Misiones, la zebrita.

O primeiro jogo começou às 15h30min, e transcorreu dentro da normalidade. A partida entre Bagé e Miramar Misiones começou quando já caia a noite. Era uma noite muito fria, com o vento ajudando a aumentar o frio e uma garoa miúda de congelar ossos.
Neste cenário começou o prélio amistoso internacional.

O frio era tão intenso que desestimulou a torcida do Guarany a apoiar os adversários do Bagé e se retirou em sua maioria, numa atitude sensata.
Para quem não conhece a Pedra Moura e nem as rodadas duplas, uma breve explicação: em algumas situações, como nestes dois amistosos, ou quando Bagé e Guarany reformaram seus gramados, ocorreram a rodada dupla: o rival fazia a preliminar e o dono da casa fazia a partida de fundo. Neste tipo de rodada, quem era beneficiado também eram os times visitantes, que passavam a contar com inesperada e ardorosa torcida, ocasionando um verdadeiro Ba-Gua, ao menos nas arquibancadas.
Ocorre que na Pedra Moura, a torcida adversária fica na lateral oposta ao “pavilhão social”, sem nenhuma cobertura. E este pavilhão é a única área coberta do estádio.

Voltando ao jogo, começada a partida, eu e meu irmão (na época eu com 16 anos e ele com 11) estávamos no lugar que costumávamos assistir sempre os jogos: atrás da casamata adversária (hoje em dia não existem mais as casamatas, que foram destruídas na reforma de 2004, mas na foto abaixo vocês podem observar como era antigamente):

Neste local do estádio podíamos externar toda a nossa paixão jalde-negra, estranhamente contra os adversários que ficavam por ali, a poucos metros do primeiro degrau da arquibancada. Mas como contei no começo do texto, caía uma chuva miúda, que era quase neve, mas quando apertava virava chuva mesmo. Pensando nisto, “subimos” para o pavilhão, como a maioria que estava lá naquela noite.

O jogo ia bonito, apesar de ser um amistoso internacional, estava com toda a cara de Gauchão. O campo estava virado numa mangueira, e os jogadores não tratavam o jogo como amistoso. Muita correria, chegadas ríspidas, carrinhos e toda a sorte de golpes lícitos e ilícitos.

E a coisa ia assim, acirrando os ânimos, esquentando os torcedores naquele gelado inverno e tornando a partida uma decisão Rio Grande do Sul x Uruguai.

Até que lá pelas tantas, já no segundo round, uma falta para o Bagé, uns 35 metros da goleira, mas frontal.

Um jogador do Bagé, de apodo Capincho, pega a bola para cobrar a falta. Arruma o balão no chão, e se levanta, com aquele jeito de quem ainda vai decidir se cobra direto ou se cruza na área. Mas neste momento, dá de cara com um jogador do Misiones muito perto do rosto dele. Não trocam, aparentemente, uma palavra sequer. Encaram-se. O jalde-negro empurra o “zebrita” forte, na altura do pescoço, e o desequilibra, como que arrumando espaço para cobrar a falta. Na volta do “desequilíbrio”, o jogador do Misiones já vem com o punho na frente, desferindo um soco no atleta jalde-negro.

O jogador do Bagé devolve o cumprimento, mas por cordialidade, adiciona um pontapé lateral. Ato contínuo, o jogador do Miramar “se bota”, e os dois continuam nessa troca de socos e pontapés. Claro que escrever sobre isto é lento, mas na hora foi rápido, e no momento que começou a ‘’trocação’’, ambas as equipes correram em direção à pugna que ali se instalara. A partir daí, é difícil relatar com precisão, porque além dos anos para embaçar minha memória, criaram-se muitos os focos pelo campo...e aí a briga começou.

Nesta altura, eu e meu irmão, comodamente instalados nas cadeiras da Pedra Moura, nos sentimos como traidores, enquanto a peleia ia solta, nós ali, longe da casamata dos “visita”, sem nem ao menos xingar. A resolução foi rápida: vamos para a tela. Para isto pulamos o muro que faz a divisa das sociais com a arquibancada, que se encontrava quase vazia naquele local, e outros torcedores, empolgados com o nosso gesto (quero crer), fizeram o mesmo. A Brigada, que estava em pouco número junto à tela, se assustou com a movimentação repentina, e partiu pra cima de nós, subindo os degraus em direção à pequena turba (em número e idade) com cacetetes em punho e com a intenção clara de liquidar com o nosso “aguante”. De qualquer maneira, das humilhações a menor, não tivemos que pular de volta para as sociais fugindo, mas ficou claro que não poderíamos sequer tocar na tela do gramado.

Em campo, o que havia começado com apenas dois jogadores, agora envolvia os 22 atletas e mais as duas comissões técnicas. Lembro de pequenos grupos de jogadores brigando quase isoladamente, como por exemplo, dois atletas do Bagé, segurando e dando socos em dois jogadores do Miramar, colocando-os contra a tela (bem no trecho em que a Brigada não deixava a torcida chegar perto).

Para não me perder em pequenos relatos de tantas brigas que ocorreram naquela verdadeira luta campal, relato um fato curioso, mas que mostra bem o tamanho da briga, e provo que esta sim, pode ser chamada de generalizada.

Nesta época, o Bagé possuía um massagista que pesava muito além dos 100 quilos. Ele foi um dos que tornaram a labuta “generalizada”.
Quando vemos, adentra ao gramado, correndo em direção ao grande círculo, o massagista, numa corrida desajeitada por causa do peso e do barro.
O alvo: um jogador do Misiones, obviamente.
A arma: um soco poderoso, capaz de botar a dormir um javali.
O fail : o castelhano se esquivou e o massagista, desequilibrado, girou sobre o próprio eixo, uns 180º. A consagração: sem intenção, o massagista quando já estava de costas para o oponente, não sustentou mais o equilíbrio, e acabou caindo em cima do uruguayo. Festa nas arquibancadas: o jogador adversário estava espremido entre o generoso peso do massagista e o gramado embarrado e o principal,fora de combate.
Sinceramente não lembro em que altura conseguiram, os mais calmos dentro de campo e a brigada, acabar com a contenda. Mas acabou.

Outro fato engraçado foi que, ao acabar a briga, um dirigente do Bagé “invade” o túnel do Misiones, mas com a intenção de pedir desculpas pelo ocorrido. Já estava indo em direção a um dirigente, que não sabia do final da briga, e ouve do uruguaio: “Não me dê! Não me dê!”. Teve que explicar a razão da visita.

Já estava programado que ao final da partida, o Bagé ofereceria um jantar ao Miramar Misiones, na AABB de Bagé. E o jantar ocorreu, e por incrível que possa parecer, com a presença de vários jogadores e dirigentes jalde-negros.

Meu pai sempre havia falado, que nas andanças como técnico já tinha enfrentado algumas vezes uruguayos, e de um comportamento particular deles. E isto se comprovou neste jantar: a briga foi dentro do campo, e por mais violenta que tenha sido, no jantar todos riam e celebravam. O tema predominante, claro, foi a briga de mais cedo, cada um contando seu ponto de vista, no mais autêntico portunhol. Ali sim, foi onde ocorreu o amistoso.

Bem, eu não fui nesse jantar, soube disso por quem lá esteve. Saí da Pedra Moura direto para casa (morava cerca de oito quarteirões do estádio, bons tempos). Ligo a TV, Jornal Nacional* no final e qual minha surpresa: revejo o giro matador do massagista do Bagé, em cadeia nacional. Só o Bagé...

O resultado do jogo, realmente não lembro (não foi o mais importante), mas perguntarei pra outras pessoas e faço a edição aqui. Mas que foi um baita jogo, foi.

* Tentei, há dois anos atrás recuperar esta filmagem através de e-mails para a Globo. Não consegui, por enquanto.

Triste aniversário

Lá em Santana do Livramento, até há alguns anos atrás, existia um tradicional clube do interior do RS, e que contra o 14 de Julho, faziam o também tradicional clássico Gre-Qua. Mês passado, mais precisamente no dia 11 de junho, o Grêmio Santanense completou 96 anos de fundação. Mas um “cumple” meio estranho, para não dizer que não completou 96 anos. Sem festas, sem mobilização, e principalmente sem futebol, o que é muito para um clube nascido com o nome de Grêmio Foot-Ball Santanense.

Como maior feito de sua história, o Grêmio Santanense tem o título de Campeão Gaúcho de 1937 (equipe campeã na foto abaixo).

Mas acho feito ainda maior, um detalhe do uniforme do Santanense, mas que graças a muitos de seus jogadores e diretores, conseguiram através de campanhas dignas, fixar esta marca inconfundível: apesar de ter “Grêmio” no nome, e possuir as cores alvi-rubras (o que no RS poderia mais confundir ao “grande público” do que qualquer outra coisa), o clube possuia forte identidade, e bastava olhar aquele time de camisa vermelha, mas com mangas brancas entrar em campo, que ninguém tinha dúvida: era o Grêmio Santanense, e com esse detalhe se diferenciava de todos os tantos times alvi-rubros do Estado.

Os anos passaram para o Grêmio Santanense, assim como passaram-se os anos para a maioria dos clubes do interior do RS, especialmente os da metade sul do RS: ficou a tradição, foram-se os grandes times e o pior, vão-se os torcedores também. O massacre via sucursais da RBS TV pelo interior, como já foi comentado antes aqui no PF,é um dos maiores responsáveis, junto com o bom marketing de Inter e Grêmio nas cidades do interior. Não sei de números, mas aposto alguns reais que tanto Grêmio como Inter, separadamente, possuem mais sócios em Livramento, do que Grêmio Santanense e 14 de Julho somados, nas suas melhores épocas. E isto ocorre por todo o interior. Ainda não decifrei o que passa na cabeça de uma pessoa, para gastar tempo e dinheiro com um time de fora da cidade, que além disso é muito bem financiado por seus milhões de torcedores, enquanto os times de sua terra não recebem nada, vão à falência e acabam fechando suas portas em muitos casos. Isto só tem um nome: traição, deixar vendido, ser um “noveleiro do futebol”, que só acompanha a fantasia da TV, enquanto a realidade bate à porta, ali na arquibancada ao lado, clamando por torcedores, mas permanece vazia.

Na foto abaixo vemos ao fundo a torcida comparecendo em um Gre-Qua. Eram assim os campos do interior gaúcho. Hoje em dia, nem clássico tem mais. Crime hediondo contra o futebol.


O Grêmio Santanense, depois de algumas boas campanhas nos anos 90 na primeira divisão gaúcha, caiu para a Segundona em 1997, permanencedo por ali até o ano de 2003, quando desistiu da Série B e se licenciou, estando fechado até hoje.

Como não moro em Santana do Livramento, e nem tenho informações de lá, não tenho como saber os exatos motivos que levaram ao fechamento do Grêmio Santanense, mas mesmo não tendo conhecimento disso, dá para perceber que a manutenção desta situação é inacreditável. Não existirá um grupo de torcedores do Grêmio santanense disposto a encarar esta briga? Montar um time ao menos de juniores para ir aos poucos formando uma base seria uma solução viável financeiramente. Ir negociar com a prefeitura o combustível das viagens (a gente sabe como são onerosas as viagens para os clubes do interior) e batalhar algumas empresas que se comprometam com o clube. É muito fácil para estas empresas irem pro interior, de lá retirar seu justo lucro, mas não se comprometer em nada com as coisas da cidade. E na hora de patrocinar o esporte local, nada, é tudo para os mesmos de sempre.

Um triste aniversário este do Grêmio Santanense. Mais um ano fechado, chegando próximo o seu centenário. Em Livramento, o 14 de Julho ainda luta, na raça, para se manter em atividade, pois sofre de todas estas dificuldades também. Torço para que se mantenha sempre em atividade, e que um dia possa enfrentar o velho rival, num Gre-Qua em que a cidade pare, dentro de um dos estádios, e não na frente de uma TV.



Para finalizar, deixo um texto que encontrei na pesquisa para esta postagem, de alguém com muito mais propriedade, porque além de ser jornalista e escritor, é filho da terra, ainda que ardoroso torcedor do colorado da Capital: (publicado no

jornal A Platéia)

"
Emoção e Saudade *
Há poucos dias, conversando com um conterrâneo residente em Porto Alegre, perguntei-lhe se poderia ajudar na localização de fotos de época do time do Grêmio Santanense. Ele prometeu ajudar, sem muito entusiasmo.Meu interesse em relação a tarefa que me impus segue inalterado, embora os resultados tenham sido modestos. A razão do meu interesse não é a do colecionar de revistas antigas nem a do filatelista obsessivo na localização de selos. Ou do historiador acadêmico que se abraça com os livros para aumentar os títulos de sua obra e obter mais prestígio junto ao seus pares.Meu interesse na localização das fotos de época do Grêmio Santanense tem a vibração energizante do sentimento amoroso..É compreensível. Mesmo que eu me entregasse ao exercício masoquista de ocultação do passado, para me jogar por inteiro na caudal do presente, parte da minha adolescência vivida no espaço mágico da Vila Honório Nunes continuaria preservada. Não sou louco para matar a lembrança do guri espigado que sempre dava um jeito para se misturar com os freqüentadores mais ilustres do pavilhão de madeira do estádio e aplaudir as jogadas dos meus ídolos. Não sou idiota para jogar fora a foto em que apareço no meio de outros adolescentes que dividiam comigo o gramado de Honório Nunes, vestindo as camisas das divisões de base. Eu ficaria com o sentimento dilacerado por imenso prejuízo. Mas, voltando a obsessão pelas fotos de época do Grêmio Santanense. No fundo, o que desejo, se Deus me der forças para tanto, é escrever um livro, fartamente ilustrado, com a bela história do Grêmio Santanense, campeão estadual de 1937. Este, aliás, seria um capítulo escrito com especial esmero. Eu tentaria informar, na medida do possível, quem foram aqueles heróis do título, comandados por Ricardo Diez, mais tarde técnico do famoso Rolo Compressor, do Internacional, nos anos 40. As novas gerações de santanenses e amantes do futebol tem obrigação de ter estes nomes na ponta da língua: Brandão;Alfeu e Seringa;Gabriel, Mascarenhas e Pepe Garcia (Pasqualito); Sorro , Bido , Hortêncio Souza e Tom Mix. Até que o livro saia, ou não, dependendo das colaborações indispensáveis para a sua realização, lamento profundamente que o Grêmio Santanense viva na mais triste e desanimadora inatividade. O que terá acontecido com o Luiz Paulo Dutra, tão guerreiro, tão abnegado combatente do principal grupo de dirigentes do Grêmio Santanense de todos os tempos? O que aconteceu com outros torcedores do clube, que se conformam em ver por anos e anos o estádio fechado, sem que haja no seu interior nem mesmo a atividade risonha dos meninos das categorias de base? Tenho certeza de que na minha próxima viagem a Sant´Ana do Livramento a situação já será diferente. Se todos os torcedores mais velhos do Grêmio Santanense já se entregaram à corrosão do tempo, se já não vêem nenhum encanto no engajamento das atividades cotidianas, se já desistiram de ver o time entrando em campo com suas camisas vermelhas, que ao menos contem para seus filhos o que sabem a respeito da grande história do clube.Os jovens torcedores do Grêmio Santanense não vão me decepcionar. A eles cabe a tarefa urgente de erguer bem alto o pavilhão vermelho. O Grêmio Santanense não pode integrar o elenco de instituições que existiram e desapareceram na paisagem da cidade. O general José Antonio Flores da Cunha, que convenceu o Alfeu a atuar no Grêmio Santanense em 1937, está acenando lá de cima para dizer que concorda comigo. Ele gostaria de assinar seu nome nesta crônica calcada na emoção e na saudade
.”
* Kenny Braga
Fotos: do site Filhos de Santana, via blog Relíquias do Futebol.

Mais um dia em que o futebol morreu

Um dos clássicos de maior rivalidade do mundo acontece entre Celtics e Rangers, os dois maiores times da Escócia. Além da rivalidade citadina (Glasgow), o clássico envolve a rivalidade religiosa entre católicos e protestantes (calvinistas), que desde o século passado parecem resolver suas diferenças dentro da cancha.

O mesmo não ocorreu na menor Irlanda do Norte. Acontece que na Irlanda do Norte, após a independência da Irlanda (começo do século XX), ficaram por lá os chamados "unionistas" (protestantes de origem inglesa que defendiam a manutenção da dependência política frente à Inglaterra) e também os católicos, estes republicanos pró-independência, que exigiam o fim do eterno mando de campo inglês.

Desta celeuma toda nasceu o IRA (Irish Republican Army) e suas dissidências, além do Sinn Féin, chamado de "braço político" IRA.

Mas assim como na "pacífica" Glasgow, a pequena Belfast tinha o seu Celtic, o "Celtic Belfast".
O Celtic escocês tinha sido fundado em 1887 e o co-irmão da Irlanda do Norte em 1891. Além de homônimo, não coincidentemente usava o mesmo uniforme do time católico de Glasgow, listras horizontais em verde e branco na camisa.

O Celtic Belfast fazia frente nos campeonatos da Irlanda do Norte. Foi campeão da Liga do país 19 vezes (a primeira em 1899 e a última em 47/48) e da Copa outras oito vezes.

O jogo era contra o Linfield FC , clube que existe até hoje e é o maior ganhador de títulos por lá. A seleção do Ulster também manda seus jogos no estádio do clube, o Windsor Park, atualmente.

Já nos anos 20, o Belfast Celtic havia se retirado das competições esportivas, em virtude das turbulências políticas, ficando sem jogar de 1920 até 1924.

Muitos anos depois, mais exatamente em 27 de dezembro de 1949, ocorria uma decisão da Liga, na cancha do Linfield.
O fundamentalismo religioso estava em campo também. 27 mil expectadores acompanhavam a partida, na maioria protestantes torcedores do Linfield. Era o jogo do ano. Ânimos exaltados. Atmosfera tensa.





Entra em cena agora o maior personagem e a maior vítima deste confronto: Jimmy Jones. Num choque casual com o jogador Bob Bryson, do Linfield, resultou em fratura do tornozelo de Bryson, aos 35 minutos. E, além disso, nesta época jogador contundido era jogador a menos, não existiam substituições. Chuva torrencial e mais o cinza normal da Irlanda do Norte, tornam a partida disputada na penumbra do começo do rigoroso inverno das ilhas.

Durante todo o segundo tempo, os auto-falantes anunciavam a contusão para todo o estádio do Linfield, inflamando a torcida. Os torcedores do Linfield exigiam a cabeça de Jones. Nesta altura o Linfield já contava com apenas 9 jogadores: havia outro contundido.

O jogo seguia equilibrado, e no meio do segundo tempo, após choque, um a menos de cada lado, saem contundidos. Neste momento já havia focos de brigas nas arquibancadas, que após alguns minutos foram contornados.

Gol do Belfast Celtic. A atmosfera ficou mais pesada e muitos dos torcedores, antevendo o pior, abandonaram o estádio.
Quatro minutos depois o Linfield empata. Os torcedores invadem o campo na comemoração, mas para agredir os jogadores do Belfast Celtic. Jones era o mais visado. A polícia, em pouco número e com certa má vontade, depois de algum tempo conseguiu liberar o campo para o recomeço da partida. Mas já era tarde.

Quando o juiz terminou a partida, novamente a torcida do Linfield invadiu o campo. Muitos para comemorar junto aos jogadores, mas vários para tentar agredir os jogadores do Celtic Belfast. Jones, isolado no ataque do Belfast Celtic, muito perto da linha de fundo ao apito final, onde estava parte da torcida do Linfield. O ódio contra ele era triplo: havia marcado mais de 20 gols na temporada, estava envolvido no incidente da fratura do zagueiro do Linfield e, talvez o pior, era considerado traidor, porque Jones era um protestante.

Tentava sair pela lateral do campo, quando foi arrastado pela turba adversária. Na platéia, os pais dele, que haviam ido ao jogo para assistir o filho artilheiro. Jones tentava ir ao encontro do seu time, mas foi impedido e arrastado pelas arquibancadas. Teve a cabeça perfurada. Os agressores, com ódio religioso, não esqueceram que ele era um artilheiro: pulavam sobre seus joelhos e tornozelos. Apenas um policial tentou intervir e também foi espancado.

No meio a tudo isso, o time do Belfast Celtic lutava contra a multidão, a socos, para tentar sair dali. Mas deram-se conta que Jones não estava entre eles, e jogadores e funcionários, foram resgatar o jogador.

Conseguiram, inclusive, levar ele ao hospital, mas o estrago já estava feito: a perna direita de Jones, após a cirurgia, ficou quase 4 centímetros menor que a esquerda.

No mesmo dia reuniram-se os diretores do Belfast Celtic para definir que medidas tomar, entretanto a federação imprimiu uma pena extremamente branda: decidiu que Windsor Park ficaria sem jogos por um mês, ou apenas dois jogos mandados fora de casa.

Diante disto, os dirigentes do Belfast Celtic enviaram uma carta aos dirigentes, desistindo do futebol e retirando o clube do futebol irlandês.





Aos 58 anos de idade, morria o Belfast Celtic.
Jimmy Jones tinha apenas 20 anos de idade.

Como não "ser" Celtic?

Editado - P.S: não foi intencional publicar este texto justamente hoje, mas ao ler o blog ADHD Controlado, do Germano, soube que 17 de março, é o dia dedicado a São Patrício, chamado de St. Patrick's Day pelos irlandeses, padroeiro católico da Irlanda.
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As brigas por lá continuaram acontecendo e recrudesceram. Só como exemplo, em 1972, uma passeata de católicos terminou em massacre: 13 mortos e dezenas de feridos, após a polícia inglesa resolver abrir fogo indiscriminadamente. O episódio foi retratado pelo filme “
Bloody Sunday”, de 2002, além da música da banda irlandesa U2. Trechos do filme abaixo:






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Fotos:
1. Escudo do Celtic Belfast
2. Elenco do Celtic Belfast em 1949 (http://www.groundtastic.co.uk/archives/belfast_celtic.htm)
3. Campo do Celtic Belfast (não foi onde ocorreu o jogo relatado acima), com capacidade para 50000 pessoas (hoje demolido e transformado em centro comercial).

Bagé x Peñarol, em 1981

Bagé e Peñarol possuem coisas em comum que vão além da camisa listrada jalde e negra. Além das cores e disposição das mesmas, os dois clubes, principalmente nos anos 20, 30 e 40, negociavam jogadores e muitos uruguaios que residiam em Bagé, tornaram-se torcedores do Bagé por causa destas coisas em comum, assim como muitos bageenses jalde-negros residentes tanto em Bagé como em Montevidéu, nutriam simpatia pelo "auri-negro" uruguayo. Como por exemplo, em 1954 (28 de setembro), o Penharol comemorou seus 63 anos, num amistoso contra o Bagé, em Montevidéu, partida vencida pelo Peñarol por 3 x 2.

E em 1981, Bagé e Peñarol enfrentaram-se amistosamente na Pedra Moura, estádio do Bagé. Eu já sabia desta partida amistosa, mas o jalde-negro Grégory Ricardo, conseguiu o recorte com a notícia desta partida, veiculada pelo centenário jornal Correio do Sul em Bagé.

Além do final esperado de tal embate entre jalde-negros, é curioso observar a linguagem empregada pelo jornal na época. Transcrevo por aqui, porque a leitura se torna mais fácil que no original, mas abaixo mostro a foto da notícia, com créditos para o Grégory, que aparece no Orkut como "Grégory Ricardo Jalde-Negro". Ao Grégory, meus agradecimentos pelo resgate desta notícia do princípio dos anos 80.


Bagé e Penharol: o empate e a briga no final*
"Terminou em grossa pancadaria o jogo amistoso entre Bagé e Penharol de Montividéu, disputado ontem à tarde no "Pedra Moura", diante de um grande público, que rendeu 424.150 cruzeiros (a preço único de 100 cruzeiros).


Faltavam dois minutos para terminar o jogo quando Orion Sather de Melo suspendeu a partida. Era o segundo sururu, surgido após a agressão de Rodrigues ao jogador Julinho (bageense que jogava na Argentina e que, treinando no Bagé, participou do jogo de ontem).


Formou-se a confusão envolvendo os jogadores. Antes, uma briga entre Rubilar e Pereirano (que havia agredido a Mandarino) resultara na expulsão de ambos. Rubilar (que após a expulsão ficara no túnel) entrou em campo e também envolveu-se na briga generalizada.


Empate em 1 x 1

O jogo terminou empatado em 1 x 1. O Penharol dominou nos primeiros vinte minutos, impondo um futebol rápido e objetivo, mas o Bagé, muito bem postado defensivemente, com o estreante Pedro Caetano entendendo-se bem com Rubilar, não dava maiores chances aos uruguaios.

E quando o Bagé soltou-se mais em campo, tendo Suca como a maior figura, marcou o seu gol aos 45 minutos por Jaci, após defesa parcial do goleiro Carrera, em lance pessoal de Jadir.


No segundo tempo o Bagé dominou amplamente o jogo, principalmente porque começou a marcar melhor na meia-cancha e teve boas alternativas ofensivas, por Jadir e o lateral Xavier.

Leco criou uma situação difícil para o goleiro Carrera mandar a córner. Suca cobrou bem uma falta e o goleiro defendeu.

Tinha ainda o Bagé o controle do jogo quando Zé Carlos cometeu pênalti em Cáceres, aos 42 minutos do segundo tempo. O jogador Silva cobrou forte, de pé esquerdo, empatando o jogo. Aí Silva, de forma anti-profissional, foi provocar a torcida jalde-negra, correndo junto as sociais, o que, sem dúvida, serviu para acirrar os ânimos e dar margem ao segundo sururu, envolvendo os jogadores e até os dois túneis.


Os times
O Bagé teve Mandarino, Xavier, Rubilar, Pedro Caetano (muito boa estréia) e Zé Carlos; Suca, Leco e Denner; Preguinho (discreta atuação, substituído por Julinho), Jaci e Jadir.

O Penharol com Carrera, Bueno (a maior figura do time), Oliveira, Gutierres e Moraes (Fernandez); Bóssios, Rodrigues e Silva; Marcenaro (Cáceres), Peirano e Peres (Carrero).

Arbitragem de Orion Sather de Melo, deixando muito a desejar. técnica e disciplinarmente. Bem os bandeirinhas locais Adélio Barros e Egídio Duarte."
*Jornal Correio do Sul



Abaixo a foto da página do Correio do Sul, tirada pelo Grégory Jalde-Negro:


Este relato me lembrou um outro amistoso que eu presenciei, também entre o Bagé e outro time uruguayo, já em meados dos anos 90. O time era o Miramar Missiones (la "zebrita" - por causa do uniforme de finas listras pretas e brancas - também de Montevidéu, como 90% dos times profissionais do Uruguay) e acabou sendo interrompido em virtude da maior luta campal que eu já vi até hoje, incluso o que já vi pela TV. Foi notícia no Jornal Nacional (rede Globo) na mesma noite (como sempre, só falam dos times do interior do RS se for por briga ou coisas muito pitorescas), e portanto estas imagens devem existir e se eu conseguir achar será tema de outra postagem por aqui.

Hoje os tempos mudaram mas ainda existe a identificação, e o Cônsul uruguayo em Bagé, no aniversário do clube (este ano), declarou-se torcedor do Peñarol no Uruguay e do Bagé, no Brasil, e os dois clubes guardam certas coisas em comum, ainda que com algumas pequenas rusgas, como a da notícia acima.

O futebol nos trilhos

O Jornal Minuano, de Bagé, através do jornalista Higino Gonçalves, resgata uma história cheia de peculiridade sobre o comportamento de algumas torcidas antigamente. Nos idos dos anos cinqüenta, era bastante comum entre as torcidas do interior do Rio Grande do Sul, viagens de trem para dar seu apoio às equipes da cidade. Eu não sei em que época isto foi diminuindo, mas possivelmente tenha sido simultaneamente com o desmantelamento da RFFSA. Já o número de torcedores que acompanhavam estas tradicionais equipes do interior gaúcho também diminuiu e não só pelo fato do transporte ferroviário ter virado sucata (ou teria relação? Gostaria de pensar que sim, mas ocorreram outros problemas como já escrevemos aqui mesmo).
Eu imagino se hoje houvesse este tipo de costume entre os torcedores do interior, com passagens de trens baratas (em relação ao aluguel de vans e ônibus) e vagões inteiros ocupados por torcedores dos clubes do interior do Estado, dirigindo-se para acompanhar os jogos fora da cidade. O futebol do interior estaria em que patamar? O pior é pensar que esta época já existiu e que havia muita gente que apoiava incondicionalmente o clube da cidade, a despeito da raridade de títulos, desde a década de 40.

Mas era assim no interior gaúcho, principalmente na Metade Sul, naquela época e me pergunto se alguém possui ou tem conhecimento de alguma foto com essa gente, nestas viagens lendárias. Se alguém souber, que entre em contato, seria um belo resgate.

Mas nem tudo eram flores, mesmo naquela época dourada. Às vezes eram pedras.
O Dr. Jesus Ollé Vives, ardoroso torcedor do Bagé e que já ocupou cargos na diretoria jalde-negra inúmeras vezes, guarda um curioso impresso, que circulou nas mãos dos moradores de Livramento e Rivera, à época:

Ao povo de Santana e Rivera:

A torcida rubro-negra convida a população das duas cidades a recepcionar ao famigerado quadro do Grêmio Esportivo Bagé à altura da maneira com que foram tratados os valorosos quartorzeanos quando excursionaram à cidade de Bagé.
Repugna aos nossos foros de cidade civilizada hospedar a horda de bárbaros bajeenses que, num atestado de incultura e vandalismo, traíram as tradições de hospitalidade dos rio-grandenses e, por isso, merecem o desprezo de todos os desportistas desta fronteira.
A torcida rubro-negra previne que assumirá atitudes de represália contra todos aqueles que, de uma forma ou de outra, facilitarem a estadia dos bajeenses em nossa cidade, quer hospedando, dando condição ou tratando com elementos da sua caravana.
Exige o bom nome das nossas cidades que os bajeenses sejam tratados como bárbaros e covardes que são.
Como será um dia de luto aquele em que o barbarismo chegar a nossa cidade, Santana estará vivendo um de seus dias mais tristes quando pisarem em terra santanense os representantes do Grêmio Esportivo Bagé.”


Os grifos no texto acima são meus, obviamente. Ocorre que na época era comum, junto com as excursões de trens, o apedrejamento dos vagões que traziam a torcida visitante, não só em Bagé. Contam também os mais antigos, que as sessões de pedras e brigas, podiam ocorrer em várias estações pelos arredores da cidade, antes do trem estar definitivamente a uma distância segura ou desestimulante.

Não sei o que houve com a torcida no jogo da volta, na matéria que conta sobre esta história não há relatos sobre, mas os jogos foram em 1951, 2 x 2 em Bagé, e 3 x 3 em Livramento, apesar do clima de guerra o Bagé não se intimidou. Pode-se notar que este artifício já é utilizado há bastante tempo no futebol e, assim também como hoje, nem sempre dá resultado em campo. O Bagé acabou eliminado da competição mais tarde, em Rio Grande, perdendo para o “vovô” por 6 x 0. E mesmo abaixo de pedradas e brigas, o futebol do interior era bem mais pujante no Rio Grande do Sul dos anos 40, e hoje sem pedras mas (perdoem o trocadilho óbvio) sob escombros.





Matéria via
Jornal Minuano (Bagé-RS).
Fotos:
http://www.estacoesferroviarias.com.br/ (na primeira, a Estação Central de Bagé nos anos 30 e na segunda nos dias atuais, agora funcionando como sede da Prefeitura Municipal).

Camisa 10 *

* Por Maurício Kehrwald

Sabem como é, aquela coisa de histórias em família.

Só que no caso do Paulo, já não era mais só história: havia tomado o statusde lenda. E, como de praxe nestes casos, ganhava proporções maiores a cada atualização ou novo relato.

Tudo corria dentro da normalidade, até que o Pedrinho, filho do Paulo,começou a crescer.

E a se interessar pelas histórias sobre o pai.


- Teu pai jogava muito, guri...

- Muito?

- Muito!

- Em qual posição ele jogava?

- Camisa 10, meia-atacante!

- Nossa...


Na escola, durante o recreio, resolveu passar adiante uma das histórias queo tio lhe contara. Encostou no Sardinha, seu colega de sala e doente por futebol:

- Ô, Sardinha, sabia que meu pai foi meia-atacante?

- E ele era bom?

- Muito! Camisa 10. Artilheiro...

- É? E em qual time ele jogou?

- Não sei!

- Como não sabe?

Não sabia. Esquecera de perguntar este detalhe para o tio.Decidiu descobrir direto na fonte.

- Paiê, em qual time tu jogavas?

- Vários times, filho! – respondeu enquanto largava o jornal

- Algum time bom?

- Claro, filho! Joguei no São Paulo, no Inter, e...

- No São Paulo?! No Inter?!

- Er... não, filho... no São Paulo de Rio Grande e no Inter de Santa Maria,que são times muito tradicionais e importantes do futebol gaúcho...

- Ah... mas ganhou algum campeonato?

- Alguns, filho... sendo que os mais importantes foram os dois títulos consecutivos do interior...

- Como assim, título do interior? Que campeonato é esse?

- Na verdade é como chamavam na época quem chegava logo atrás de Grêmio e Inter ao final do Campeonato Gaúcho...

- Ah, entendi...

- Entendeu, filhão?

- Entendi. Os teus maiores títulos foram dois terceiros lugares no Gauchão.

- (...)

- Pai?


Nessa hora, o Paulo, que apesar de paciente também tinha limites, estavalouco pra enfiar a mão no guri. Mas teve calma e prosseguiu.

- Eram outros tempos... tu nem eras nascido ainda, e... anh... bem...

Nessa hora a melhor coisa a se fazer é, claro, mudar de assunto. Mas não foi, mais claro ainda, o que o Paulo fez.

- ...eu também fui artilheiro do Carioca em 82, quando o Flamengo comprou o meu passe.

- Flamengo? Verdade, pai?

- Aham...

Afinal, se é pra mentir, que se minta bem!

- Oba! Vou contar isso pro Sardinha.

- Vai lá...

- Demais! Ele é fã de futebol e herdou um montão de revistas do pai dele.Com certeza tem o teu nome lá, em alguma delas...


Foi aí que o Paulo percebeu a bobagem que fizera. Seria desmascarado.Brutalmente desmascarado.Haveria de carregar aquele opróbrio como um pesadíssimo fardo, às costas,até o derradeiro dia de sua passagem por este plano. Precisava consertaraquilo, e ligeiro.

- Ei, filho, espera... tu precisas mesmo contar isso pro teu colega?

- Claro, pai... me orgulho de ti... mas... é verdade isso mesmo, né?

- Claro, claro... só avisa ao Tainha...

- Sardinha, pai.

- Isso. Diga ao Sardinha pra procurar o artilheiro daquele campeonato pelo meu apelido da época. Pelo meu nome ele não vai achar.

- Apelido?

- Isso, filhão! – suando muito, mas muito frio

- Tá, e qual é o apelido, pai? Espero que não seja complicado... eu ainda não conheço quase nada de futebol, sabe...

- Zico!


A mãe do Pedrinho, indignada, teve que trocar o filho de escola. Nosso meia-atacante camisa 10 dormiu no sofá por 5 semanas consecutivas e a criança, passados 10 anos – hoje com 18 – ainda não voltou a falar com o pai sem ser por monossílabos.Ah, sim, o tio do Paulinho é considerado persona non grata na casa.
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Das nomenclaturas

Como torcedor do Bagé, sempre me causa estranheza ler o nome do jalde-negro escrito "Grêmio Bagé". Ou pior ainda, como já vi, “Grêmio de Bagé”. Além das ponderações referentes à Língua Portuguesa, cria-se a falsa impressão de que o Bagé baseou-se no Grêmio Porto Alegrense na hora de batizar o time da fronteira, em virtude do time da capital ser muito mais conhecido e um pouco mais antigo. Mas é um erro achar isso, apesar de ser fácil de entender.


Primeiro vamos esclarecer o significado de “Grêmio”, segundo o dicionário:
do Lat.Gremiu, s.m., comunidade;assembléia;corporação;associação;grupo.
Ou seja, no caso do Bagé, uma associação de futebol, denominada "Bagé".

Para exemplificar, seria o mesmo que chamar o Inter de “Sport Internacional”, o Brasil de Pelotas de “Grêmio Brasil” ou São Paulo de “Futebol Clube”, só para ficar nestes exemplos.
Vamos também nos valer da história.


O Bagé foi fundado em 1920. O Grêmio em 1903. Em 1920, o Grêmio não tinha nenhuma projeção que fomentasse alguma “cópia” pelo interior. Só havia um campeonato gaúcho disputado até aquele ano, o de 1919, e que foi vencido pelo Brasil. Em 1920, o vencedor foi o Guarany de Bagé [aqui é outro exemplo: pra quem acompanha o futebol do interior do RS, apenas grafar “Guarany” com “y”, já subentende-se que é o de Bagé). Além disso, nas décadas de 10, 20 e 30, clubes de Bagé, Pelotas, Rio Grande e Sant’ana do Livramento competiam de igual pra igual com os clubes da capital, inclusive no que diz respeito à contratações de jogadores. Bagé e Guarany, por exemplo, tiveram vários jogadores do Nacional e Penãrol em suas equipes nesta época de “plata” sobrando, já que a economia destas regiões ia muito bem.
Não havia torcedores do Grêmio Porto Alegrense ou do Inter em Bagé, e no interior, de maneira geral.
Outro fator que aponta para a desinformação quando tratam o Bagé por “Grêmio Bagé”, é que em 1906, o embrião do Bagé, também jalde-negro e de fundadores coincidentes do “Bagé de 1920”, foi batizado de “Sport Club Bagé”. Diriam hoje que seria uma cópia do homônimo de Porto Alegre, mesmo sendo o Inter de 1909.
Mas o Bagé, como alguns outros clubes do interior que coincidentemente têm o pré-nome igual à de um dos “famosos”, paga pela sua “falta de fama”.

Vejamos um exemplo emblemático do que estou escrevendo, que ocorreu num programa da TV Com (televisão de Porto Alegre do grupo RBS - pra quem é de fora do RS). O programa era apresentado pela Tânia Carvalho, coincidentemente bageense e torcedora do Guarany. O tema era futebol, estava lá inclusive o Ruy Carlos Ostermann, e lá pelas tantas falaram que um dos primeiros uniformes do Internacional tinha sido um listrado, vermelho e branco, e a Tânia Carvalho observou que era igual ao Guarany, mas todos concordaram que o Guarany é que havia se inspirado no alvi-rubro da capital.

Mesmo sendo jalde-negro, não resisti e liguei para a produção do programa para informar que o Guarany havia sido fundado em 1907 ! Não tinha culpa de ser menos famoso, o que é uma coisa, mas ter se inspirado no uniforme é outra. A não ser que os fundadores do Guarany fossem profetas e tivessem previsto tanto a fundação do Inter em 1909, como seu sucesso no futuro. Assim como os fundadores do Bagé, deveriam estar pensado: “vamos copiar o primeiro nome deste tal time de Porto Alegre, pois terão sucesso no futuro”, já que até 1920, ano de fundação do Bagé, Grêmio e Internacional eram apenas clubes incipientes, e que perdiam, títulos inclusive, para Bagé e Guarany.

Então este tipo de erro se repete, e vai se solidificando, por mais que se tente o contrário. Já enviei alguns e-mails à redações de esportes dos jornais de Porto Alegre cada vez que publicavam o “Grêmio Bagé”, mas algumas vezes as pessoas preferem se manter desinformadas, já que o assunto é “irrelevante” (no dos outros é talco) e dá muito trabalho retificar.

Outro que paga o preço do homônimo ser mais famoso é o Grêmio de Foot-Ball Santanense. Desse eu não posso afirmar categoricamente a intenção dos fundadores, já que não conheço a história do clube, mas parece ser o mesmo caso, já que foi fundado em 1913, e ainda por cima tem as cores vermelha e branca.

Então, o Bagé é BAGÉ, ou seu nome completo, Grêmio Esportivo Bagé, assim como o Internacional é “Internacional”, ou Sport Club Internacional.

E que eu pare de ler em Orkut e fóruns esta má combinação, não pelo nome, que faz parte do nome do Bagé, orgulhosamente para seus torcedores, mas porque leva o leitor desinformado a acreditar que o Bagé é uma espécie de cópia de algum outro time, no que diz respeito ao nome.
E pra esclarecer mais ainda os que não conhecem este clube, as cores são o amarelo e o preto, listrado.


Publique-se e divulgue-se!

Foto: os fundadores do Sport Club Bagé, em 1906, via Jornal Minuano (Bagé-RS).

Das canchas retas às 4 linhas

Existe no município de Pinheiro Machado (RS), um distrito chamado Torrinhas.Belíssimo lugar, onde pode ser visto ainda os últimos remanescentes dos mais xucros costumes gaudérios. Eu conheço o lugar porque um amigo meu, o Luciano, possuía uma estância por lá, e algumas vezes visitei o lugar. O avô deste meu amigo possuía também uma “cancha reta” (local destinado à corrida de cavalos) na localidade, talvez único local de diversão da galera nos finais de semana. Semana passada este meu amigo me visitou e relembrou algumas histórias que presenciou no estabelecimento de seu avô, histórias insólitas e muito engraçadas, e os personagens, figuras que ainda guardam o que de mais autêntico há na cultura gaúcha.
Os relatos são incríveis, e vão desde dos hábitos etílicos dos freqüentadores, até peleias lendárias em virtude dos jogos que por lá ocorriam (jogo de osso, carteado, cancha reta, etc).


Nada envolvia futebol, para que eu relatasse aqui, até que ele lembrou de um jogo, um pequeno fato, mas que demonstra bem como a cultura local invade o futebol. Ocorre em todos os setores, mas o futebol é prodigioso no que diz respeito a incorporar a “localidade” na prática de um esporte que é internacional.

O jogo corria normalmente para os padrões deste rincão, muita pechada, canelada, berros dos jogadores e da assistência, futebol cru, a essência do que hoje chamamos de “futebol força” – futebol à força. Com os exageros das divididas, a coisa foi ficando mais ríspida que o normal, e os jogadores de ambas as equipes já deixavam a bola e a marcação do gol para o plano secundário: virou caça ao adversário. Nada que preocupasse platéia e “comissões técnicas”, era normal que os jogos terminassem assim. Mas em alguns casos, até o mais rude zagueiro pode ficar preocupado com o parceiro de equipe.

Lá pelas tantas, numa dessas “divididas”, um zagueirão que só dava bico pra longe, jogando sem camisa, com o cigarro apertado entre os dentes, ao ser driblado por um atacante, não vacila: em velocidade, acerta um chute potente, mirando apenas a perna do “driblador”, que já ia disparar em velocidade (o segredo dos atacantes destas bandas é a velocidade, muito mais que a técnica... dá pra entender).
A câmera é lenta. O grunhido é de ambos. Um solavanco e o vôo. E o que assustou a todos, inclusive os que estavam acostumados com estes jogos domingueiros de futebol: um “CRAC”!
Um barulho horrendo para sair da perna de alguém. Um som de osso estilhaçado, mas muito estilhaçado. Já pensavam em rumar pro hospital mais próximo.
O atacante, rola, a pancada fora realmente muito forte, uma, duas, três vezes...cai inerte por uns bons 5 segundos de apreensão e levanta, mexendo na meia atingida.
A platéia está atônita, e fica mais surpresa ainda quando o jogador saca de dentro da meia, rindo, pedaços de uma telha Brasilit. Era a “caneleira” do sagaz atacante que havia espatifado. A canela, “intacta”, considerando a violência da pancada.
Primeiro, gargalhadas, depois aplausos efusivos da claque.

Eu apenas lamento não haver imagens destas pérolas que ocorriam nos campos do sul.

Das frases que marcam

Esta postagem é via "Frases Futboleras".
Mas a frase foi quase uma história, ou uma história, realmente. Reproduzo a frase aqui, em espanhol, pois postar ela traduzida seria um crime. Lendo vocês irão entender.

Então, que fale José Luis Calderón*:

"Hace unos años fui con mi pibe a una compra venta de un amigo de la infancia, de la villa. Bueno, llegué, un lío bárbaro, nos fuimos a tomar unos mates. Y ahí, entonces, el tipo me dijo que no tenía sillas.

"Y pasame un cajón, boludo", le tiré.

Al rato mi pibe pidió una gaseosa y mi amigo me dijo que no tenía vaso de vidrio.

"Y que tome del pico", le contesté.

Y así... Cuando nos fuimos mi pibe me dijo: "Papá, son muy pobres".

Paré el auto en seco. Lo miré.

"Escuchame una cosa, pendejo de mierda y la concha de tu madre, qué te pensás que sos, ¿millonario? ¿Sabés dónde vivía yo, pelotudo?", le dije.

Y lo llevé a la villa. Y le mostré mi casa, con el baño [banheiro] a 30 metros. Ahora se adapta a todo".


E o que tem isto com futebol? Tudo.

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* O autor da frase é José Luis Calderón, jogador argentino, e podem saber mais dele na Wikipédia, em:
http://es.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Luis_Calder%C3%B3n

Carrinho na pedra e filosofia futebolístico-campesina*

Para além da Vacaria há uma certeza: quem é capaz de dar carrinho na pedra, é capaz de qualquer coisa.
E esta certeza vem coberta de razão.

- Olha lá, é o oitavo carrinho só no segundo tempo!
- Será que ele não percebeu que estamos jogando no paralelepípedo?
- Acho que ele não se machuca...
- A julgar pelas cicatrizes nas pernas, machuca...

Futebol-arte x Futebol-força
Drible x Marcação
Toque de bola x Chutão

Juramos a mesma bandeira, vivemos sob a mesma constituição.
Somos patrícios e jogamos, teoricamente, o mesmo jogo. Por que o futebol gaúcho é tão diferente do futebol no restante do Brasil?

Temos a vizinhança, que certamente ajuda. Quem já jogou uma pelada contra argentinos sabe que é matar ou morrer. (Já joguei e este texto não é psicografado).
Há a questão da temperatura – muito calor no verão, muito frio no inverno (mudanças assim gritantes obrigam os praticantes a valorizar a força e a condição física).
Há a cultura peleadora ocasionada – creio – pela variedade étnica no Rio Grande: a teimosia teutônica, a grosseria italiana, a força física africana, o sangre caliente espanhol e a raza rioplatense. Isso só pra citar os mais comuns.

Mas o principal, a meu ver, é que todo o gaúcho vê no futebol uma chance de representar o “continente”. O riograndense – cada um – sente-se o embaixador sulino quando fora do âmbito regional.
O brasileiro espera dele futebol-força e ele confirma as expectativas. Geralmente com certo exagero, é claro.

Esta necessidade de ser ultragrosso me fez lembrar de alguns dos antigos heróis do Rio Grande. Jogadores que levaram o pavilhão gaúcho para além-fronteiras. Atletas da mais alta estirpe, cujos grandiosos feitos nos deixam cheios de orgulho e admiração.

Recordo-me do grande Latorre, filho de pai uruguaio e mãe índia. Zagueiro central e cria de Santana do Livramento. Atuou por meia década num time local até ser descoberto por um olheiro – no tempo em que os clubes tinham olheiros – de tradicional time carioca.
Jogou lá por quase dois anos, contabilizando 3 pernas quebradas, 11 expulsões de campo, 1 agressão a gandula e 1 saída algemada do estádio
Acabou seus dias de jogador em famoso time bageense, intercalando expulsões por falta violenta, com expulsões por insulto à arbitragem.
Hoje atua como comentarista de futebol no bolicho do Guedes, em Livramento, mas no momento encontra-se suspenso pois ainda não pagou os 12 martelinhos que deve.

Tem também o inesquecível Rodrigues Ramos, que jogava ali pelo meio, na contenção (de corpos) e na distribuição (de faltas).
Verdadeiro herói em sua cidade natal – Dom Pedrito – este atleta teve destaque em tradicionais equipes riograndeses.
Em 1971, na véspera da final do certame gaúcho (a data é mera alegoria, posto que Rodrigues Ramos jamais disputou uma final de campeonato), este grandioso expoente do futebol-força teve sua carreira interrompida para sempre: teve as duas pernas quebradas por capangas logo após tentar uma abordagem mais incisiva em uma festa de debutantes.
A moçoila era a filha do Delegado da cidade e estava entre as convidadas. Sua festa de 15 anos ainda demoraria mais alguns anos...

E, por fim, não posso deixar de citar o lendário Schneider González.
Centroavante de origem teuto-rioplatense, medindo 1,97 e pesando 110 quilos, logo se destacou em laureada facção esportiva da Fronteira Oeste, na sua cidade natal e de onde jamais saiu.
Agregou durante os mais de 25 anos de carreira as funções de Delegado de Polícia e camisa nove. Durante 25 anos seu time foi campeão municipal. Durante 25 anos nenhum bandeirinha viu impedimento seu.
No último jogo da carreira – contrariado, mas acatando desesperado pedido da família para que parasse – lá pela casa dos 45 anos de idade, desabafou ao repórter que o entrevistara, após marcar o gol do vigésimo quinto título consecutivo, em impedimento:

- Solamente veinte y cinco años... muy lindo el Reich, pero que muy breve...

Este é o futebol gaúcho: sempre unindo todos os povos e destacando o que eles têm de melhor!

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* Por Maurício Kehrwald

Paulo Roberto Rocha - Eterno Capitão do Bagé

Como alguns sabem, sou torcedor do Bagé. Também por isto, junto com a torcida jalde-negra, criei o site do Bagé (link acima). E para o site entrevistei o Capitão Rocha, que foi capitão da equipe do Bagé que conquistou um dos títulos mais importantes da história do Bagé: a Copa Governador do Estado de 1974.
As respostas do Capitão são belíssimas e mesmo para os que não são torcedores do Bagé, é uma ótima oportunidade para conferir como nascem as paixões futebolísticas, ainda que por times que não comparecem tanto na mídia.
Além disto, Rocha conta um pouco como era o futebol gaúcho nos anos 70. Recomendo fortemente a leitura, pra torcedores de todos os times, mas que acima de tudo gostam de futebol.
Puríssimo.

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O site jalde-negro entrou em contato com o Capitão Paulo Roberto Rocha para a realização desta entrevista que os torcedores jalde-negros poderão conferir abaixo.Paulo Roberto Rocha é um dos maiores ídolos da história do Grêmio Esportivo Bagé e foi capitão da equipe que conquistou o inesquecível título da Copa Governador do Estado de 1974.
Nesta entrevista, Rocha conta alguns fatos bastante interessantes ,fala daquela época, do Bagé e sobre futebol de maneira geral.
Fica aqui nosso agradecimento ao capitão Paulo Roberto pelas excelentes respostas na entrevista e por tudo que realizou defendendo a camisa amarela e preta. Nosso sincero “muito obrigado”, de toda a torcida jalde-negra.
Dados Pessoais:Paulo Roberto Rocha
Nascimento: em Porto Alegre, no dia 27 de junho de 1951.
Carreira 1967 - infantil do Grêmio Porto-alegrense
1968/1969 - juvenil do Grêmio Porto-alegrense
1970 - profissionalização
1970 - Náutico de Rio Pardo
1971 a 1979 - Bagé
Posição: Ala (atuava tanto na esquerda como direita)
Formado em Educação Física pela Urcamp e professor estadual em atividade, atualmente leciona na Escola Waldemar Amoretty Machado, em Bagé. _________________________________________________________
Sobre seus dados pessoais, Paulo Roberto Rocha acrescenta:
"Apenas um reparo quanto á minha posição em campo.Nos meus tempos de guri, em times de várzea, comecei como lateral esquerdo. Quando fui para o Grêmio nas categorias de base, atuei na zaga, o mesmo ocorrendo no Náutico de Rio Pardo.Quando cheguei em Bagé, era zagueiro, com a chegada do Galego, fui deslocado para lateral direita.Naquele tempo éramos laterais, ala é coisa mais moderna, apesar de fazermos a mesma função, e ainda voltarmos para marcar".


Como ocorreu sua vinda para o Bagé?
Lá em Rio Pardo jogavam vários jogadores que eram, ou haviam jogado aqui.(Nilson goleiro, Walter, Osmar irmão do Carlinhos, Casemiro, Celmar, Baiano, Danúbio, Amarante).Quase vim para o Guarani, junto com o Claudionor, desisti na ultima hora (não queria me afastar de perto de Porto Alegre) Mas o Náutico estava fechando e aceitei o convite do Bagé, através do Jacob Sued e do Dr. Roberto Garrastazú, e vim junto com o Amarante.


Observando algumas imagens da conquista da Copa Governador, nota-se que já à época o título foi extrema e justamente valorizado pela torcida - inclusive com invasão de campo -. Os jogadores daquela grande equipe tinham a real dimensão do título conquistado e da importância que ele viria a ter a partir dali na história jalde-negra?
Sempre coloco o Campeonato Gaúcho de 1925, como o maior titulo conquistado pelo Bagé. Mas a Taça Governador do Estado em 1974 vem logo em seguida. Foi um título muito suado com dois turnos e na virada do 1º para o 2º estávamos em 14º lugar. Fomos recuperando posições e chegamos na rodada final, para decidir tudo num Baguá. Só a vitória interessava, e ela chegou com 1x0 gol do Derli (ponta esquerda).O estádio do Guarani veio abaixo... E no final do jogo nunca tinha visto coisa igual, foi a maior comemoração feita ate hoje. A torcida invadiu literalmente o campo, fomos fazer desfile de “carro” pela ”sete “de setembro... Eu subi e desci a sete umas quatro ou cinco vezes, com uma câimbra infernal na barriga... Na Pedra Moura a festa seguia... Estendeu-se até o meio da noite. Não deu como não ficarmos sabendo do quanto nossa torcida estava feliz (e tudo em cima do tradicional adversário) e que aquele título estava para sempre marcando um feito na historia do GRÊMIO ESPORTIVO BAGÉ.Aquela equipe era unida, mas muito unida mesmo. A maioria dos jogadores morava na concentração (inclusive o Galego) éramos como irmãos.Uns ajudavam os outros dentro e fora de campo. Tudo passava pela mão do Galego, que exigia de nós o máximo, tanto dentro do campo, quanto em atitudes fora de campo. Era quase um pai. Suas exigências e ajuda, também era para os jogadores casados, que moravam fora da Pedra Moura. Com certeza, não seriamos vencedores por tanto tempo sem a presença dele.Ele sempre nos fazia ver que ficaríamos marcados na história do clube, se ganhássemos títulos, se nossas campanhas nos campeonatos fossem boas. Mas para isso teria que trabalhar duro, no nosso máximo.Então sabíamos que de nossos esforços, viriam as glorias. E é muito bom saber que o Bagé daquele tempo, através das suas conquistas, serve de exemplo até hoje.
[Na foto acima, Rocha ergue a Taça Governador do Estado]

O Bagé sempre impôs muitas dificuldades aos adversários, principalmente na Pedra Moura, e nos anos 70 inclusive contra a dupla Gre-Nal. Qual era a maior virtude da equipe Campeã de 1974 (e da base que seguiu nos outros anos) e dos jogadores que por ela atuaram?
Minha resposta de cima, ajuda a responder esta. A era Galego no Bagé, se caracteriza por essa persistência e teimosia de estar sempre exigindo o nosso limite máximo. Lembro que suas preleções sempre iniciavam assim: ”Hoje é um jogo” chave ““.Se contra os outros...Era jogo chave... Contra a dupla Gre-nal (jogo que estaríamos na vitrine de toda imprensa gaúcha) era o jogo de nossas vidas.


A famosa garra das equipes do Bagé, de maneira geral, e particularmente do grupo que o senhor participou nos anos 70, juntamente com a técnica, é sempre lembrada. Era um grupo diferenciado em termos de aplicação e luta?
Sempre foi estilo Galego, essa determinação em buscar o melhor resultado. Diziam que ele como jogador corria o campo todo, motivando e mostrando aos seus companheiros que deveriam fazer o mesmo. Acho que ele teve a sorte e competência de juntar os jogadores certos aqui no Bagé. Eu perdia em média de 2 a 4 kg por partida, mas muitas vezes era poupado nos treinamentos. Sem um preparador físico formado...Era ele o responsável.Juntam-se ao Galego...O trabalho de toda direção...Presidentes como Luis Carlos Alcalde, Julio Machado, Pedro Dirceu, Liader Previtali, diretor de futebol como José Pedro de Melo Fuchs, não se encontram a toda hora.


Entre as fotos dos anos 70 (publicada recentemente no Jornal Minuano) há uma (inclusive muito apreciada pelos jovens torcedores do Bagé), em que o senhor aparece erguendo o braço direito com o punho cerrado. Foi algum tipo de manifestação? Fale um pouco sobre esta foto.
Não recordo em que momento é aquela foto. Mas pode ser na hora de um gol...Ou em um final de partida ganha.

Sobre os clássicos Ba-Guá nos anos 70: algum marcou mais na memória? Como era este confronto para o senhor?
Meu 1º Baguá foi o mais importante. Fazia 4 anos que o Bagé perdia pro Guarani,e ganhamos de 1x0 gol meu .Fui escolhido o melhor em campo, e recebi muitos presentes. Sempre dei muita sorte nos clássicos.

Algum fato pitoresco ou engraçado que o senhor lembre nestes anos como jogador? (ou alguma "fria" enfrentada neste interior gaúcho)
Vários... Logo que cheguei no Bagé (antes do Galego vir) passei por alguns fatos interessantes...Minha chuteira quebrara o solado, e fiz muitas partidas com ela me “beliscando” a sola do pé. Não tinha dinheiro para outra.Nossa alimentação era: de segunda á quinta arroz com repolho refogado, na sexta ao se aproximar do jogo do fim de semana...Arroz, feijão e um bife á milanesa, sábado e domingo...Comida de jogo da época: arroz, bife purê e salada de tomates.Nas viagens, íamos em duas Kombi, jogadores,roupeiro e massagista...Quem já viajou de Kombi sabe que os bancos não têm encosto para cabeça...Já pensou ir e voltar á Passo Fundo? De engraçado não tem nada, mas serve para medir as mordomias de hoje.


Qual a fato mais marcante vivenciado pelo senhor nestes anos como jogador do Grêmio Esportivo Bagé?
Muitos...Foram 8 anos como jogador do Bagé.Lembro quando realmente me tornei jalde-negro de verdade. Foi no meu 1º Baguá (aquele que fiz o gol da vitória). Não lembro que jogador do Guarani veio me gozar, retruquei, e ouvi dele, que nem distintivo nos tínhamos na camiseta (era verdade). Lembro que entrei no vestiário no intervalo do jogo, irritado com aquilo, comentei e quase exigi do “seu Paulo” (Galego) uma camiseta decente para o próximo jogo.No 2º tempo e tendo feito o gol da vitória passei por esse jogador e falei que nosso distintivo tava no nosso peito...Por baixo da nossa pele...Nosso distintivo era nosso coração.Ali nascia mais um jalde-negro.[grifo meu]



Um gol e/ou partida inesquecível:
Gols...Além de dois em baguá...Tem dois pitorescos: Baile de Debutantes no Clube Comercial, o Galego deixa-me ir, sem beber (só guaraná), sem fumar (eu fumava) e sem dançar...Assim que terminassem os desfiles eu viria para concentração. Isso aconteceu às 5 da madrugada. Às 8 horas viagem para Pelotas e jogo às 3 da tarde. Final do jogo Bagé 1 x 0 Farroupilha ,gol meu. Lembro que o Paulo Sergio Brasil que tbm tinha ido ao baile, quando me viu indo para área em um escanteio, me gozou: ”fica lá atrás te poupando, capitão...” Na volta, com meu gol de cabeça, retruquei: “tá faltando o teu agora...Senão o “homem” não te deixa ir mais aos bailes... Eu vou ir...”Sábado, jogo contra o Pelotas, o Galego diz que volta conosco para Bagé, pois não teremos folga para ir ao carnaval. Faço uma aposta com ele, se fizesse um gol, ele nos daria folga e ficaria em Pelotas após o jogo (ele morava lá). Fizemos 2x1 e eu o gol da vitória. Ele nunca mais quis apostar comigo outras folgas.Partida...Em Passo Fundo. Para classificarmos para o Gauchão precisávamos empatar com o Gaúcho.O Gaúcho um baita time...Os irmãos Pontes, Bebeto (canhão da serra) Leivinha (mais tarde veio para o Guarani e nos formamos juntos em educação física) Luis Freire, Raul Matte, Roberto (pai do Juca do Botafogo e cunhado do P.C.Carpeggiani, (treinador do Corinthians) jogou no Guarani tbm).O 1º tempo terminou 2 x 0 para o Gaúcho. Começa o 2º tempo o Mariotti desconta 2 x 1 , mas aos 15 min. O Bebeto faz 3 x 0. Aos 40 minutos eu cruzo uma bola e o Walter de meia bicicleta faz 3 x 2 , e aos 45 min. O Derli chuta de fora da área...A bola bate no travessão e no chão...E saí. O bandeirinha corre p/ o centro do campo...O juiz confirma o gol, 3 x 3.Os Pontes queriam matar o Mario Severo (bandeirinha conhecido por ser “caseiro”), termina o jogo,alegria total.”Seu Fuchs” (diretor de futebol) entra de roupa e tudo nos chuveiros junto conosco, e avisa que a gratificação estava dobrada...O L.C.Alcalde (Michidinha) prevê que vai ter que sair para rua conseguir o dinheiro que o “Fuchs” prometera.Chegamos em Bagé às 7 da manhã, sol alto (o Derli havia levado toda a delegação do ônibus para um passeio pelas ruas da “zona” lá em Sta Cruz, como tudo era festa... com o aval do Presidente, e isso nos atrasou).A torcida nos esperava na entrada da cidade, fomos até a Pedra Moura depois de comemorar pela “sete”.
Qual a diferença que o senhor observa entre a época do titulo da Copa Governador do Estado e os últimos anos no futebol profissional de Bagé, em termos de torcida, mobilização da comunidade e entusiasmo?
Eu posso dizer que no meu tempo, nossa torcida era mais tradicional, pois era mais velha, e não menos apaixonada como é hoje. Noto que hoje os torcedores mais entusiasmados são mais jovens, que torcem pelos resultados obtidos em campo, e não pela história do clube ou pela rivalidade com os adversários. Esta mesma torcida de hoje, que são na maioria jovens e, portanto mais efusivos, terão com certeza o mesmo perfil daqueles do meu tempo, com o passar dos anos. Quando presente nos jogos de hoje, noto que a “corneta” é bem mais pesada, inclusive saindo do nosso próprio pavilhão. E isso chega aos jogadores dentro do campo, sempre de forma negativa. A torcida deve apoiar mais, nos piores momentos, pois isso além de fortalecer a equipe dentro do campo, mostra ao adversário, que eles estão em minoria. Lembro de muitas vezes sermos aplaudidos, mesmo nas derrotas. Era só notarem que havíamos demonstrado luta.Tudo são seqüências...Com um bom time virão as conquistas... Com as conquistas, o respeito e admiração do torcedor...Com o torcedor as boas rendas...Com as rendas, melhores condições de ter time competitivo...Com um time competitivo, ajuda e entusiasma a comunidade. Um depende do outro.

Nos fale um pouco sobre a emoção de ver seu filho vestindo a camisa jalde-negra e também carregando a braçadeira de capitão. Há nervosismo? E se há, é mais difícil apenas torcer do que estar em campo?
Sempre foi melhor estar em campo, pois as coisas poderiam depender do teu esforço...na torcida, dependemos dos esforços dos outros. E isso nos faz sofrer demais.E com o Tiago em campo, aumentava mais essa agonia. Mas ele sempre soube representar muita bem a garra jalde-negra, aliada a uma grande capacidade de visão coletiva e habilidade individual, e isso me enche de muito orgulho. Por isso galgou a capitania em campo (outro motivo de satisfação).
[na foto ao lado, Tiago Rocha]


Qual sua impressão sobre o futebol atualmente? O senhor costuma ir a estádios, assiste pela TV, ou se mantém mais distante?
Tudo ajuda hoje para que se jogue melhor o futebol, a bola, os gramados, os salários (dos grandes clubes) os uniformes, as concentrações, os melhores hotéis, as chuteiras, as viagens, tudo. Até a variedade de jogos transmitidos pela tv ajudam no aprendizado, nas informações que chegam de todos cantos do mundo.Claro que tem muitas coisas para serem aperfeiçoadas...Mas não dá para fazer comparações com antigamente nestes itens que enumerei.Estive presente no estádio todos estes anos que o Tiago jogou pelo Bagé. Agora estou um pouco afastado, mas acompanho pelo rádio sempre.

Qual sua opinião sobre o futuro do futebol do interior? Existem coisas que podem ser melhoradas na sua opinião para o crescimento dos clubes e torcidas?
É uma pena ver o interior enfraquecido. Pra mim, tudo começou, quando a dupla Grenal se desinteressou do Gauchão. Muitas vezes comparecem com times reservas, pra eles é muito mais vantajoso financeiramente outro campeonato. O interior sempre dependeu deles para vender bem seus jogadores, para terem boas rendas. Um jogo contra a dupla, muitas vezes colocava os salários em dia, a mídia comparecia e atletas e clubes eram notados. Outra coisa são as trocas constantes de planteis, existe uma perda de identidade clubisticas por parte dos atletas. Parece que antigamente pegava-se mais amor ao clube, torcedores sabiam de cor as escalações do seu time e do adversário (as rendas muitas vezes eram melhores por que queriam também ver os bons jogadores do time visitante).Não tem como recuperar esses pequenos erros, uns foram levando aos outros, e o acúmulo causou esse caos no futebol interiorano. Não saberia apontar a solução, pelo imenso mal causado, a não ser, dizer que as soluções existem, mas interesses maiores, parecem que obstruem esses caminhos. A crise é geral, e o futebol do interior mostra isso a cada ano. Os grandes estádios estão sendo diminuídos em suas capacidades, porque não conseguem mais enchê-los de torcedores. Dói ver um jogo do Bagé, com a geral vazia.Parece-me que uma das maneiras de puxar os torcedores ao estádio é ter em seu time, um craque, que esteja identificado com o clube. O torcedor gosta de ver esta diferença, é ela que vai lhe levar ao estádio.Todo ídolo muitas vezes acaba se tornando automaticamente um líder, e com isso contagia o resto do grupo.Desde que seja uma liderança positiva. Outra coisa que sempre acreditei, são as categorias de base.É lá que está a solução dos clubes. Além de ser mais viável financeiramente, jogador da “terra” parece que é mais cobrado (a família, os vizinhos, o bairro, enfim... a comunidade) Desde que seja muita bem trabalhada essa “responsabilidade”.

O senhor considera a hipótese de voltar ao futebol profissional em outras funções?
Nunca quis mexer com futebol, pois entendo que nunca seria fora, o que fui dentro campo. Já pensou dirigir o Bagé, e não atingir meta nenhuma? Já pensou ser chamado de “burro” por aquele mesmo torcedor que um dia me aplaudiu? Não tenho esse perfil de aturar ofensas e aplausos das mesmas pessoas quieto, poderia me frustrar e com isso me afastar de vez. Parei aos 27 anos, confesso que cansado das viagens e concentrações. Recebi vários convites, mas preferi me manter torcedor a vida toda, do que ter que um dia deixar de ser jalde-negro.Quem sabe... Quando me aposentar, e encontrar pessoas que pensem próximas do que acho seja dirigir futebol, eu não possa colocar meu nome a disposição dos interesses do Bagé. Encanta-me muito, a Direção de futebol...Contratações de jogadores, contato com treinadores,administrar contratos, etc.

Um abraço jalde-negro,
Rocha
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