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O Uruguai classificou pra copa?**

O Uruguai classificou pra Copa? No mais puro copeirismo atávico? Só estou esperando caírem em uma chave bem bacana, do tipo França, Portugal, Uruguay e Nigéria. Não que eu queira, mas é que...

A Centúria Celeste
Após ir dormir com a cabeça inchada por mais uma aviltante goleada sofrida pelo seu time do coração no semi-clássico regional, Cesinha acordou possuindo a Verdade Absoluta.Acordou num sobressalto, é bom que se diga.
Consciente do impacto que tal revelação causaria ao mundo, ao sentimento de paixão incondicional de cada torcedor, de cada time do globo terrestre pelo futebol em si, Cesinha cogitou omitir. Além do mais, a Verdade Absoluta era por demais grandiosa (afinal era a Verdade Absoluta) e, como toda a nova revelação revolucionária, haveria de ser desacreditada. É.
O melhor mesmo era calar-se para sempre.
O mais ajuizado, o mais sensato, o mais inteligente. E, por isso mesmo, Cesinha decidiu fazer a grande revelação.

Para isso, chamou seus dois comparsas e futuros difusores da Verdade Absoluta: Alex e Alemão. Sexta-feira, oito da noite, Mesa Magna da sala de reuniões (Snooker do Patinho, mesa de plástico da Polar) Alemão: Ó, Cesinha, espero que desta vez valha a pena, hein...

Alex: É! Da última vez em que falamos, tu vieste com aquela história de complô da Federação Gaúcha de Futebol pra beneficiar você sabe quem, e, quando perderam, ficou aí inventando mil desculpas...

Cesinha: É que eu tinha um bom informante... conheço um cara que é filho de um conselheiro do clube, e...

Alemão: (levantando) Eu vou embora!
Cesinha: Tô pagando a cerveja
Alemão: (senta-se rapidamente) Vou ficar só pra não dizerem que sou mau amigo.
Alex: Qual é o caso desta vez? Quem está armando contra teu time desta feita? O Talibã, a máfia soviética? (risos)
Cesinha: Russa! É máfia russa. Mas não, não tem ninguém querendo prejudicar o meu time, a não ser, é claro, os de sempre. Hoje vim revelar-lhes A Verdade.
Alemão: A verdade?
Cesinha: Não. A Verdade. Com maiúscula. A Verdade Absoluta.
Alex: Bom, então neste caso, que venha a primeira rodada!
Alemão: É!
Cesinha: Certo, certo (esfregando as mãos) ...Patinhô, uma Polar grande e três copos. Limpos, desta vez.

Sexta-feita, oito horas da noite mais quatro minutos, mesmo lugar mas agora com cerveja.

Cesinha: seguinte, eu fui dormir na noite passada um pouco chateado, devido aos acontecimentos...
Alemão (interrompendo) O sacolaço de 6x0 que vocês tomaram, de novo, do...
Cesinha: (cortando aos gritos) Cala a boca! Eu tô pagando a cerveja e vocês vão me ouvir!
Alex: Fala aí!
Cesinha: Hunpf...
Alemão: Deixa de frescura. Fala!
Cesinha: Todas as Copas do Mundo foram arranjadas!

É preciso dizer que Alex e Alemão levantaram ao mesmo tempo e foi preciso que o Cesinha, além de implorar para que ficassem, prometesse cerveja ilimitada para ambos, a noite toda, até às seis da madrugada.Caso alguém estivesse consciente até lá, é claro.
Reinício da palestra, oito da noite mais treze minutos, o lugar não muda nem sequer mudará. Mais uma cerveja na mesa.

Cesinha: Como eu ia dizendo, quando vocês de maneira muito desrespeitosa interromperam, todas as Copas do Mundo foram arranjadas.
Alex: Tá bom...
Alemão: Todas?
Cesinha: Todas menos uma! Que foi arranjada, mas uma das partes não colaborou. E por isso paga até hoje.
Alemão: Qual é...
Cesinha: Calma! Esta revelação se dará somente mais tarde.
Alex: Olha, Cesinha... que uma ou outra tenham sofrido influência até vá lá, mas... todas... ou todas menos uma...
Cesinha: Provarei através de evidências irrevogáveis, meu caro. Evidências irrevogáveis. Obviamente devo dizer que as regras do jogo do poder mudaram muito durante os anos. Que medidas preventivas foram tomadas em função de determinadas circunstâncias, mas, hoje, temos padrões muito bem definidos de conduta, possíveis campeões, leis de compensação histórica e, é claro, motivações políticas de toda a ordem.

Alemão: Nossa, isso vai longe... ô, Patinhô... mais uma.
Após alguns protestos, discussões de veto às influências políticas e três cervejas além, já passa das nove da noite e o álcool começa a trabalhar na mente dos convivas. Além do mais, ficou convencionado que, antes do arranca-rabo de 45, a coisa era por demais obscura à luz dos fatos e evidências.
Cesinha sorriu com a simples menção de tal divisão. E assim ficou acordado entre os três.

Alex: Tá como tu nos explica a Itália ter ganhado a Copa da Alemanha, em 2006?
Cesinha: Europeísmo e compensação histórica. Fácil!
Alemão: como assim?
Cesinha: Os europeus, depois de 58 (e mais tarde darei uma explicação adicional que é a alma da teoria), tomaram uma medida de preservação – que eu chamo de europeísmo – para que jamais uma seleção não-européia ganhasse naquele continente.
Alemão: Tá, mas por que não a Alemanha?
Cesinha: Poderia até ser, em caso de acidente, mas foi a compensação histórica por a Alemanha ter conquistado a de 90, na Itália.

Considerando tal uma evidência ao menos considerável, Alex e Alemão começaram a se interessar mais pela teoria do amigo.

Alex: Tá. Resolvido 2006 e 90. Mas e 2002? O que tem a ver o Brasil com o Japão e a Coréia?Cesinha: Lembra o que fizeram com a Espanha e a Itália nos jogos contra a Coréia? E o Brasil contra a Turquia! Os brasileiros – sobretudo o Zico – reinventaram o futebol no Japão e como a Copa era fora da Europa, a CBF já havia previamente aceitado perder a Copa de 98 para a França e reconquistar o título quatro anos depois, por predileção nipônica e sob o aval da FIFA.

Novamente Alemão e Alex se entreolham. As coisas começavam a tomar forma. De repente tudo parecia fazer sentido: uma incrível, milionária e mundial manipulação de resultados se mostrava palpável.
Alex queria mais evidências, porém:
Alex: 62?
Cesinha: América do Sul. O Brasil tinha o melhor time. Não tinha como não ganhar!
Alemão: 66?
Cesinha: Inglaterra. Os inventores do futebol nunca tinham conquistado o título-maior do futebol...
Alex: 70...

Cesinha: O time do Brasil era mágico. Talvez o maior de todos os tempos. O Negão tava no auge... mas só ganharam porque era no México. Fosse na europa, teria dado Itália.
Alemão: 54! Final européia! O que tu me diz disso? Hein, hein?
Cesinha: (sorrindo com ares de fidalgo) Bem... primeira Copa do Mundo na Europa pós-guerra... Alemanha em frangalhos... o povo alemão precisava de um alento... de uma nova razão para se orgulhar... de um milagre... um milagre de Berna!

Alemão já estava arrepiado – e bêbado, enquanto Alex não parava de se remexer na cadeira. Tudo fazia sentido. Tudo estava claro! Como haviam sido inocentes! Graças a Deus eram amigos do Cesinha, que tanto subestimavam e que agora mostrava-se, irretorquivelmente, o mais genial de todos deles.

Alemão: Quais Copas faltam... un...
Alex: 74?
Cesinha: Alemanha jogou em casa. Poderia ter dado Holanda. Prevaleceu o fator local...
Alemão: 1978...
Cesinha: A ditadura comprou esta Copa, meus caros. Era na Argentina, eles nunca haviam sido campeões.
Alex: ora, ditadura...
Cesinha: A Argentina ganhou de 6x0 do Peru no último jogo classificatório e foi pra final. O tal do Cruyff se negou a jogar esta copa pois sabia do que a ditatura era capaz.
Alemão: Meu Deus, tudo faz sentido... ô, Patinhôôô, mais uma aqui pra nós!
Alex: 82?
Cesinha: Na Europa. Final entre Itália e Alemanha. Vocês acham que foi por acaso? Com o timaço do Brasil? Precisa ser muito inocente...
Alex: 86?
Cesinha: Copa fora da Europa. Gol de mão. Maradona no auge...
Alemão: 90?
Cesinha: Já falamos de 90, que, além do já dito... bem... foi a revanche de 86, na Europa. Era claro que a Alemanha seria a campeã... ou vocês acreditam que um time que tinha Maradona poderia perder uma partida daquelas e com gol de pênalti ainda por cima...

Houve um longo tempo de silêncio. Todos davam generosos goles em seus copos. Pareciam meditar. Cesinha estava em transe. Alex estava perplexo. Alemão pedia mais uma cerveja. Alex consultou o velho cebola: nove e trinta e três. Respirou fundo e veio-lhe à mente uma idéia que poderia colocar tão maravilhosa trama abaixo. Não teve escolha:

Alex: Mas... Cesinha...
Cesinha: Sim?
Alex: E 50? O mais óbvio era que o Brasil ganhasse, afinal a copa era aqui, o Maracanã estava estourando gente, o Uruguai já havia sido campeão em sua própria casa...
Alemão: Pois é (gole) em 50 (gole duplo) o Brasil (gole longo) deveria ter sido o campeão!

Cesinha atirou os braços para os lados. Sorriso de Mona Lisa no rosto.Os amigos perceberam, aliviados, que ele deveria ter uma justificativa para aquilo.E tinha.

Cesinha: De fato, 1950 foi arranjada para o Brasil ser campeão.
Alemão: Mas como?! E por que o Uruguai ganhou?
Alex: É, pelo visto a sua tese caiu por terra...

Cesinha serviu-se com mais cerveja. Entornou o copo inteiro e produziu um “Ahhh” de satisfação. Prosseguiu.

Cesinha: O Uruguai sabia que deveria perder. Em troca de compensações futuras, como todas as seleções de qualidade e/ou força política. No entanto, alguns homens de muito valor como Schiaffino e Ghiggia simplesmente se negaram a entregar o jogo para o vizinho e rival histórico. Eles sabiam que se perdessem a partida em tais circunstâncias, não perderiam somente um campeonato. Perderiam suas almas. Houve um silêncio de alguns segundos. Nem o Alemão se atreveu a dar um gole neste lapso de tempo. Cesinha não deixou a bola cair.

Cesinha: Tanto é, que quando o jogo acabou, os jogadores do Uruguai não foram comemorar direto. O juíz apita e alguns deles se olham, como que dizendo: “O que foi que nós fizemos?” Os brasileiros não acreditam no que está acontecendo... e, por fim, 58 foi a compensação histórica por 50. E todos os títulos europeus na Europa foram a compensação desta compensação. Hoje, enfim, temos um padrão bem definido de como a coisa toda funciona.

Alemão: (já completamente alcoolizado, mas juntando forças para formar uma frase completa) Mas Cesinha... o Uruguai não deveria ser punido?
Alex: (com olhos arregalados) Meu Deus... o Uruguai... nunca mais ganhou nada... ficou fora de muitas e muitas Copas do Mundo... é eliminado em repescagens contra times de Rugby... Cesinha, meu querido: eis a Verdade Absoluta.
Cesinha: Sim, mas tal punição tem prazo, meus queridos...
Alemão e Alex: Tem?!
Cesinha: Sim, 100 anos.
Alex: 100 anos?! Mas...

Cesinha: Sim, a punição tem um nome: Centúria Celeste.Alemão: Centúria Celestre...
Alex: Centúria Celeste...
Cesinha: É. Centúria Celeste. Até 2050, pelo menos, o Uruguai não ganhará uma Copa do Mundo sequer. Este é o preço que pagam por não terem vendido suas almas.

Alemão, mais por bebedeira que por amor à República Oriental, tinha lágrima nos olhos. Alex estava em êxtase. Cesinha sorria, superior.

Cesinha: E saibam que esta é somente a ponta do iceberg. Citei as Copas do Mundo pois trata-se da vitrine do futebol. Até aqui, no nosso certamente gaúcho há manipulações de toda a ordem e que vocês não enxergam porque não o querem...Obviamente a esta altura do campeonato qualquer coisa que o Cesinha dissesse seria lei. O brasileiro (gaúcho ou não) tem verdadeira tara por uma teoria conspiratória. E quanto mais conspiratória e mais inverossímel, mais digna de crédito!

Alemão: (recuperando por alguns segundos a sanidade e a sobriedade) Patinho, vê mais uma... ô, Cesinha, perdão por ter duvidado de ti... mas agora conta, sério, o que o campeonato gaúcho nos reserva? Quem será o campeão?

Cesinha: pois bem, estas derrotas que meu time vem sofrendo são embustes, disfarces para despistar o grande público. O campeonato já está comprado para nós por nosso futuro novo patrocinador. Já tá tudo certo!
Alex: Como é que é?!
Cesinha: Exato. Já tá tudo certo! Uma grande empresa multinacional patrocinará o glorioso. Compraram este campeonato junto à federação e aos times de capital por uma fortuna e alguns favores futuros que, agora, não posso revelar, por favor não insistam (ninguém haviam feito sequer menção de insistir). Ano que vem o patrocinador entra oficialmente no time que é campeão gaúcho e – por favor, é segredo, viu – campeão da Copa do Brasil deste ano também e ganhará muita mídia... como eu disse, já tá tudo certo!

Alex e Alemão estavam perplexos. Beberam muito até o amanhecer. Cesinha sentia-se um deus.Nas semanas que passaram, nosso profeta-futebolístico teve tratamento de Rei pelos dois amigos (e pelos amigos dos amigos que ficaram sabendo dos fatos). Cesinha não pagava mais cerveja nem entrada em lugar que fosse. Celebridade: era isso o que Cesinha se tornara entre os fanáticos da bola naquela cidade e assim era tratado por todos. O clube do coração de nosso filósofo do esporte bretão chegou – como não poderia deixar de ser – à final do Campeonato Gaúcho. Todos em polvorosa. Primeiro jogo da final na casa do glorioso (no interior do estado), segundo jogo na capital. A primeira partida acabou em 1x1. Após o término, numerosa audiência no Snooker do Patinho. Cesinha chegou – com a camisa do clube – e, após ser rapidamente cobrado, respondeu com ares de despreocupado:- Já tá tudo certo!
Querem exposição maior na mídia do que uma vitória épica fora de casa? Todos se calaram, envergonhados.
De fato, Cesinha estava num patamar acima dos demais. Eram todos medíocres nos conhecimentos do futebol. Menos ele, o Escolhido.Todos beberam à saúde do amigo. Cesinha, a essas alturas, tinha copa livre na casa.

Domingo, cinco horas da tarde mais três quartos, finalíssima do Gauchão, Snooker do Patinho, todos os amigos, conhecidos e admiradores do Cesinha presentes. Cesinha estava na capital, vendo o jogo no estádio. O juíz apita o final do jogo. Time da capital 4, time do Cesinha 0.

Apesar de seu time ser o campeão, Alex está revoltado. Quer tirar satisfações.O celular de Cesinha está desligado, mas pouca diferença faz. Ele nunca mais irá ligá-lo. Cesinha sequer voltou para sua cidade. Está morando com uns primos e – dizem – até já arrumou emprego.
Patinho está revoltado: quer cobrar todas as cervejas que Cesinha tomou quando ainda era ídolo.

Alemão e Alex não vêem a hora de encontrar o Cesinha: querem surrá-lo até a exaustão.
Todos os seus amigos lhes viraram as costas, por professarem tamanho despautério, esquecendo, é claro, o fato de também terem dado crédito e divulgado tal tese.

É, pode ser que o castigo para o Uruguai não dure tanto, mas o Cesinha, ah, o Cesinha sim, vai curtir um longo exílio.
E pensará 2 vezes antes de falar qualquer coisa que seja, principalmente sobre futebol.

Cesinha, já tá tudo certo: sua carreira acabou, garoto!

** Por Maurício Kehrwald

Carta aberta de Maurício Kehrwald

Maurício anda lá pelas bandas do ''Eixo'', e de lá escreve este excelente relato, via e-mail. Abre a gaita, Maurício!

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George,


A gente, que acompanha com um interesse doentio aquilo que convencionamos (nosotros do Puro Futebol) como periféricos do futebol, provavelmente já chegou ao que eu chamaria, sem falsa modéstia, de estado parapsicológico do segmento. Sabemos só pelo discurso de determinado dirigente qual o jogador que ele vai vender e de quais regiões do país ele vai trazer os próximos ineptos para a posição (gastando quase todo o dinheiro obtido com a venda do jogador bom e errando miseravelmente em TODAS as contratações).

Acontece que precisamos ter a humildade de reconhecer que, quando tratando-se de extra-campo, nosso conhecimento superior é bastante restrito ao futebol gaúcho, o que é normal e compreensível.

Como tu deves saber - ou não - eu estou faz um mês aqui em SP. Este pouco tempo não me torna um candidato a parapsicólogo da cultura futebolística local, mas dá, sim, pra tirar uma temperatura aproximada de alguns FATOS sobre o torcedor-médio (aquele mané que torce pra um time mas não se preocupa muito com ele).

Para a nossa realidade isto é mais complicado, pois no Rio Grande temos aquela cultura de SER alguma coisa. Quem torce pro INTER tem um motivo forte para tal e a mesma coisa acontece com o GRÊMIO (cito os dois representantes pois não estou mais em idade de fazer demagogia dizendo que tem mais algum clube grande no estado). [N.E: esqueceu do Bagé, mas tudo bem.]

Em São Paulo é diferente. E nas minhas vindas anteriores eu não havia detectado que a diferencia de cultura era TÃO grande, no que tange ao futebol, como reflexo de outras coisas.

Sobre os torcedores DE FATO, aqueles que sabem o que se passa com o clube (tipo 1 pessoa a cada 20 com quem conversei), vale ressaltar uma curiosidade: eles respeitam muito, mas muito mesmo o futebol gaúcho e têm certeza absoluta que jogar contra Inter ou Grêmio é enfrentar um bando de doente que vai dar a vida em campo, além de ser comum-acordo que a imprensa esportiva local é um câncer.

Certo... mas como eu disse estes são exceção. Caras assim, dá pra convidar pra um churrasco no Rio Grande e falar de futebol numa bueníssima. Quem trata o futebol como filosofia de vida pode ser gaúcho, paulista, uruguayo ou acreano... vai ser uma conversa legal.

Eu quero é falar do TORCEDOR COMUM.

E quando eu falo de TORCEDOR COMUM, eu preciso destacar 2 em especial. O torcedor do São Paulo e o torcedor do Corínthians

O torcedor COMUM do São Paulo é um retardado mental. Sabe que o clube é hexacampeão brasileiro, mas só conhece o Rogério Ceni (alguns escrevem Rogério Sene), como eu pude observar - pois sou um Filho da Puta e fiz questão que escrevessem o nome do cara.
Ah, sim, não estou falando de pessoas com problemas de alfabetização, caso tu pense isso. Não, tô falando de torcedor do São Paulo, normalmente mais elitizado.

Um cara que estava gravando aqui no estúdio (trajando abrigo do São Paulo) me viu com a camisa do Internacional e perguntou que time era.

Depois que os amigos dele me garantiram que não se tratava de deboche da parte dele, expliquei:

É a camisa do Internacional, que tu deveria saber, posto que ganhamos uma Libertadores em cima de vocês, na casa de vocês.

A resposta do sujeitinho é assustadora (e só vou citá-la pois os caras que estavam com ele - 2 palmeirenses doentes e 1 corinthiano - me garantiram que a visão de mundo e o conhecimento dele era isso mesmo):

''Que Libertadores? A gente que ganhou o brasileiro contra teu time esse ano! E outro time do Sul ganhou a Taça das Américas ''(sic).

Este é o torcedor-médio do São Paulo.

Aí tem o corinthiano médio.

Bom, este aí é um esteriótipo a parte. Simplesmente NÃO ADIANTA tu tentar explicar qualquer coisa sobre 2005, porque os caras simplesmente NÃO SABEM DO QUE TU TÁ FALANDO. Sério!
Eles acreditam que o Ronaldo foi a maior contratação da história do clube.
Eles acham que são mesmo campeões mundiais (alguns não sabem o que é Libertadores - sério, não é deboche - e não sabem diferenciar Copa do Brasil de Brasileiro).
Uns 3 me perguntaram se tinha CAMPEONATO PAULISTA NO RIO GRANDE DO SUL.
Todos conhecem o Inter e o Grêmio (e até o Juventude) mas pelo menos 20% tem imensa dificuldade para entender que o FIGUEIRENSE NÃO DISPUTA O CAMPEONATO GAÚCHO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

A curiosidade, é que saindo na noite com a camisa do Inter, DIVERSOS torcedores DO CORINTHIANS, vinham me parabenizar pelo título da sulamericana (torcedores mesmo) e dizer que torceram muito pelo Inter porque gostam muito do clube. e tinham certeza de que nós, colorados também torcemos pra eles subirem pra série A.

O que só mostra como algumas pessoas, independente de para quem torçam, ainda têm a inocência que Jesus queria no coração das pessoas.

Achei bonito, até.


Abraço, George.

Maurício

Volantes

Volantes*

1.Que voa ou pode voar; voante.
2.Flutuante, ondulante.
3.Que se pode mudar facilmente; móvel.
4.V. voltívolo (1).
5.Errante, nômade, vagabundo.
6.Passageiro, transitório, efêmero.

Estas são as seis definições do Dicionário Aurélio para o verbete volante, enquanto adjetivo.

Pra falar a verdade, eu nunca entendi muito bem essa coisa de chamarem volante o jogador que ocupa a posição reservada aos atletas mais voluntariosos e menos técnicos do time. Mas quando cheguei ao item de número 5, conclui: é um deboche! Só pode ser um deboche!

- É um erro de tradução, meu caro, e...
Sim, sim! Esqueçamos este detalhe, senão a coisa descamba para a seriedade explícita.

Além do mais, algumas culturas do futebol dão a entender que volante técnico é imprestável. Basta um camisa 5 ou camisa 8 dar um toque mais refinado ou uma subida pela linha de fundo que já aparece a turma da corneta pra largar:

- Ih... volante faceiro... não sei não...

Ou:

- Epa! Ei, treinador! Ô, burro! Saca esse passista e coloca o Sidnei Volvo pra dar mais pegada!

Ou, pior ainda:

- Volante bom tem que dar pau o tempo todo. E se for expulso, cospe na cara do juiz. Que é pra mostrar quem é que manda.

Confesso que já fui assim. Fui e ainda sou um pouco; no entanto sou bem menos radical hoje em dia. Inclusive até admito que um dos dois volantes saiba jogar. Os dois não, porque aí também seria exagero.

Falar sobre volantes me fez recordar uma história, verídica, claro.

Certo, ela pode ser quase verídica, e, se não é de uma veracidade plena, ao menos é baseada em fato sucedido, e... enfim, vamos ao causo:

Certa feita surgiu num time do Rio de Janeiro um volante muito habilidoso, que marcava gols, inclusive. Tinha uma boa noção de cobertura da zaga e dificilmente errava um passe.

Pois aconteceu que este jogador, depois de conseguir o merecido destaque, foi negociado com o futebol ucraniano e passou duas temporadas lá. Se jogou bem ou não pouca diferença faz, afinal, o cara que vai pra lá, vai pra ficar rico e pra desaparecer.

Bom, mas acontece que depois deste tempo o cidadão quis voltar para o Brasil, sob o pretexto de tentar vaga na seleção, pois assim seria observado de perto e etc...
Seu empresário numa – como diria o grande jornalista Marcello Carvalho Barbosa – "negociação digna de um Oscar" tanto fez que conseguiu colocar seu atleta, através de uma transferência milionária, no futebol paulista.

Após certa demora, graças aos trâmites de praxe, o cara estreou já num clássico. Passou o primeiro tempo inteiro perdido correndo atrás da bola, e, quando recebia um passe, logo despachava a pelota para o campo de ataque.

Voltou para o segundo tempo mais perdido ainda. Poucas vezes pegou na bola e, assim, foi substituído.

Em entrevistas pós-jogo o treinador pediu paciência para com o atleta, pois era sua primeira partida, a equipe havia conseguido a vitória... Aquela conversa de técnico de futebol.

Foi, porém, na única resposta dada pelo atleta à única questão que lhe foi feita, que todos sentiram o drama da coisa:

- E aí, o que falta pra você voltar a apresentar o seu melhor futebol?

- Neve.

O empresário do atleta riu.
O presidente do clube chorou.

______________________________
* Texto de Maurício Kehrwald

Nossos pais estavam errados

Não adianta, fomos enganados.
Se você urina de pé e tem entre vinte e poucos e trinta e alguns, já descobriu, mas nunca é demais lembrar: fomos, repito, enganados.
Todos nós, integrantes de uma irmandade de embusteados por quem menos deveria nos enganar: nossos progenitores; nossos pais.

- Maurício Eduardo, não vai jogar bola sem antes fazer os temas! (aqui no Rio Grande nós chamamos a lição de casa de tema)
- Mas, mãe... eu vou ser jogador!
- Não delira, guri! Quer ter um futuro? Estuda! Tem que estudar se quiser ter em emprego bom e blablablá...

Emprego bom?
Estudar?

Anos depois:

- Conseguiu emprego?
- Claro que não, velha filha da puta! Tô quase formado e não arrumo um emprego que me pague mais de 500 pilas!
- Ah, é assim mesmo...
- Assim mesmo é o teu cu. E agora já tô muito velho pra jogar futebol.
- Olha o respeito com a tua mãe...
- Respeito é o caralho. Eu tô fudido.
- (...)
- Vou sair. Sobrou R$6 e eu posso tomar um litro de vodca pra esquecer que eu nasci.

Ou isso ou você explica para os que arruinaram sua vida que o Avestruz, volante pesado, anão e atarracado )além de, dizem as más línguas, bêbado e gaveteiro) ganha por mês o que ele ganham - juntos - em um ano.

Você pode xingá-los e culpá-los.
Ou lamentar por não ter insistido mais.

Infelizmente, pra você não há mais tempo.
Mas sempre há uma parte engraçada: você não terá outra vida para realizar este sonho.

Ah, esta não é a parte engraçada!

A parte engraçada é que o Avestruz, agora 2 quilos mais pesado e um ano mais velho, foi contratado pelo Vasco por R$40.000 por mês e você não ganhará isso nos próximos 3 anos.

É irrevogável: nossos pais estavam errados.

__________________________________
Texto de Maurício Alejándro Kehrwald

Camisa 10 *

* Por Maurício Kehrwald

Sabem como é, aquela coisa de histórias em família.

Só que no caso do Paulo, já não era mais só história: havia tomado o statusde lenda. E, como de praxe nestes casos, ganhava proporções maiores a cada atualização ou novo relato.

Tudo corria dentro da normalidade, até que o Pedrinho, filho do Paulo,começou a crescer.

E a se interessar pelas histórias sobre o pai.


- Teu pai jogava muito, guri...

- Muito?

- Muito!

- Em qual posição ele jogava?

- Camisa 10, meia-atacante!

- Nossa...


Na escola, durante o recreio, resolveu passar adiante uma das histórias queo tio lhe contara. Encostou no Sardinha, seu colega de sala e doente por futebol:

- Ô, Sardinha, sabia que meu pai foi meia-atacante?

- E ele era bom?

- Muito! Camisa 10. Artilheiro...

- É? E em qual time ele jogou?

- Não sei!

- Como não sabe?

Não sabia. Esquecera de perguntar este detalhe para o tio.Decidiu descobrir direto na fonte.

- Paiê, em qual time tu jogavas?

- Vários times, filho! – respondeu enquanto largava o jornal

- Algum time bom?

- Claro, filho! Joguei no São Paulo, no Inter, e...

- No São Paulo?! No Inter?!

- Er... não, filho... no São Paulo de Rio Grande e no Inter de Santa Maria,que são times muito tradicionais e importantes do futebol gaúcho...

- Ah... mas ganhou algum campeonato?

- Alguns, filho... sendo que os mais importantes foram os dois títulos consecutivos do interior...

- Como assim, título do interior? Que campeonato é esse?

- Na verdade é como chamavam na época quem chegava logo atrás de Grêmio e Inter ao final do Campeonato Gaúcho...

- Ah, entendi...

- Entendeu, filhão?

- Entendi. Os teus maiores títulos foram dois terceiros lugares no Gauchão.

- (...)

- Pai?


Nessa hora, o Paulo, que apesar de paciente também tinha limites, estavalouco pra enfiar a mão no guri. Mas teve calma e prosseguiu.

- Eram outros tempos... tu nem eras nascido ainda, e... anh... bem...

Nessa hora a melhor coisa a se fazer é, claro, mudar de assunto. Mas não foi, mais claro ainda, o que o Paulo fez.

- ...eu também fui artilheiro do Carioca em 82, quando o Flamengo comprou o meu passe.

- Flamengo? Verdade, pai?

- Aham...

Afinal, se é pra mentir, que se minta bem!

- Oba! Vou contar isso pro Sardinha.

- Vai lá...

- Demais! Ele é fã de futebol e herdou um montão de revistas do pai dele.Com certeza tem o teu nome lá, em alguma delas...


Foi aí que o Paulo percebeu a bobagem que fizera. Seria desmascarado.Brutalmente desmascarado.Haveria de carregar aquele opróbrio como um pesadíssimo fardo, às costas,até o derradeiro dia de sua passagem por este plano. Precisava consertaraquilo, e ligeiro.

- Ei, filho, espera... tu precisas mesmo contar isso pro teu colega?

- Claro, pai... me orgulho de ti... mas... é verdade isso mesmo, né?

- Claro, claro... só avisa ao Tainha...

- Sardinha, pai.

- Isso. Diga ao Sardinha pra procurar o artilheiro daquele campeonato pelo meu apelido da época. Pelo meu nome ele não vai achar.

- Apelido?

- Isso, filhão! – suando muito, mas muito frio

- Tá, e qual é o apelido, pai? Espero que não seja complicado... eu ainda não conheço quase nada de futebol, sabe...

- Zico!


A mãe do Pedrinho, indignada, teve que trocar o filho de escola. Nosso meia-atacante camisa 10 dormiu no sofá por 5 semanas consecutivas e a criança, passados 10 anos – hoje com 18 – ainda não voltou a falar com o pai sem ser por monossílabos.Ah, sim, o tio do Paulinho é considerado persona non grata na casa.
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Paixões

O homem heterossexual brasileiro médio é basicamente movido por três grandes paixões: mulher, cerveja e futebol.

Considero este raciocínio verdadeiro e praticamente irretorquível. Faço um adendo, porém: das três paixões mencionadas, há aquela que se destaca, sobranceira e impreterível.
Vamos às disposições:

Disposição primeira: das evidências

Eu – e você, creio – podemos até não beber esta ou aquela cerveja. E há mulheres que não nos atraem, por este ou aquele motivo.
Eu nunca recuso convite pra uma pelada e considero, por exemplo, uma partida entre Caxias e 15 de Campo Bom indiscutivelmente o melhor programa para um Domingo.

Não nascemos a sentir vertigens pelo sexo oposto, tampouco viemos sedentos ao mundo e a reclamar malte liquefeito. Nascemos – e crescemos – com uma bola (ou equivalente) nos pés.

Seu pai – em alguns casos substituir por avô, mãe ou familiar equivalente – não lhe presenteou com uma revista de mulher pelada quando você nasceu. Seu pai não lhe pagou um engradado de geladas quando em razão de seu primeiro urro vital. Você ganhou uma bola.
Ganhou-a e chutou-a com ímpar contentamento e inexplicável paixão. Você amou sua pelota e sorriu de encantamento mesmo quando jogava com algo geóide de plástico ou de meia. Suspirou do mesmo jeito que suspira e fica todo ouriçado, ainda hoje, a cada vez em que se depara com um rachão (ou pelada ou bate-bola) no meio da rua.

Aposto que você tem de se controlar muito pra não interagir com o garotinho vindo, a chutar bola em sua direção, pela calçada e em companhia paterna.
Claro que se o infante tentar driblá-lo você terá, irremediavelmente, que dar-lhe um carrinho. Depois, justificará ao pai do menino:

- Foi na bola, foi na bola, pô!

Futebol é assim, apaixonante e irresistível. Você suporta 20 anos de decepções e maus tratos por parte do seu time, coisa que – salvo em casos muito específicos – jamais agüentaria numa relação homem-mulher. Este ano seu time ficou na fila, de novo.
Você não quer mais saber.

- Vou largar de mão toda esta merda!
- Qual merda?
- Futebol!
- Duvido! Mais fácil você me largar.
- Muito te enganas... muito te enganas...
- Mesmo? Quer dizer que...
- Psiu! Quieta! O Denardin vai falar sobre o novo reforço argentino...

Você não beberia uma Kaiser quente num calor de 35 graus. Você não teria relações íntimas com uma mulher velha e feia...
No entanto eu não tenho dúvidas de que você jogaria uma pelada na praia, sob o mesmo calor de 35 graus, com uma bola feia e velha, num gramado esburacado – ou na areia fofa e quente à beira-mar.


Não seja hipócrita: você ama o futebol acima de todas as outras paixões. Tu idolatras o onze contra onze incondicionalmente. Não importa o quanto ele te decepcione. Não interessa o quanto você seja ruim.
E o pior: no futebol, parece que, quanto pior joga o sujeito, mais ele quer jogar.



Disposição segunda: das comparações absurdas

Você lembra o nome de todos os atletas que seu time contratou para disputar o regional de 2001, mas não recordar o nome de todas as gurias – ou mulheres - que conheceu naquele mesmo ano.
Você parou de beber. Você pediu o divórcio. Sua namorada lhe trocou por outro... mas sua paixão clubista permanece inalterada, intocada e soberana.

Qual é a marca da primeira cerveja que você tomou escondido, ainda na pré-adolescência?
Qual é o nome daquela menina – ou professora – por quem você foi apaixonado quando tinha 6, 7 ou 8 anos?

Não lembra?

Qual é o nome do jogador que fez você torcer – ou ficar ainda mais apaixonado – pelo seu time?

Eu sei que você está já começando a concordar comigo.



Disposição terceira: do confronto direto

Afim de, digamos assim, ilustrar como o futebol é a maior entre as três paixões em questão, vamos aos embates, todos contra todos. Contendas sem returno.


Cerveja x Mulher

Você, machista inveterado, nunca come mulher pra ter coragem de tentar beber cerveja. Creio que nada mais precisa ser dito. Você precisa de ambos.

Futebol x Cerveja

Exceto pra quem joga – casos isolados não contam – cerveja e futebol andam lado a lado. O futebol ainda tem a vantagem de levá-lo, sem muitos protestos da sua mulher, a um bar, em plena quarta-feira à noite.

Mulher x Futebol

O futebol nunca lhe proibiu de interagir com sua mulher.

Segundo o sistema de pontuação da FIFA, teríamos:

Futebol: 6 pontos
Mulher: 1 ponto
Cerveja: 1 ponto

Vitória esmagadora, mas, claro, deixo algumas observações importantes para dar valor aos adversários

Observações importantes para dar valor aos adversários:

Ao dobrar a esquina dos 50 pros 60, você certamente poderá tomar seus goles, de quando em vez.
Com o advento do Viagra, sexo – mesmo que pago – também lhe será lícito.

Por outro lado, estarei a lhe esperar com uma bomba de oxigênio quando você cambalear, exausto, depois de, aos 2 minutos de jogo, driblar dois zagueiros e chutar grosseiramente para fora.

Por Maurício Kehrwald
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Foto: Óscar Giorgi (via busca de imagens do Google, publicada originalmente no site ofoco.natalrn.net)
O leitor Maxi envia um link para um excelente artigo do professor Ronaldo Helal denominado "Jogo Bonito: el fútbol brasileño en la prensa argentina" , que é o resultado parcial de uma pesquisa que o professor fez para sua tese de pós-doutorado, na Universidade de Buenos Aires. Helal é brasileiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e ocupou-se em estudar a relação futebolística entre Brasil e Argentina e a rivalidade, nos meios de comunicação.

O estudo (para o pós-doutorado) foi batizado de "Fútbol, Medios de Comunicación y Nación: las narrativas sobre la selección brasileña de fútbol en la prensa argentina".

Um interessantíssimo assunto, muito bem trabalhado neste artigo do Prof. Ronaldo Helal.
É neste artigo que surge a frase de outro professor, argentino, que resume a rivalidade entre Brasil e Argentina, que já foi publicada em alguns veículos brasileiros: "o Brasil ama odiar a Argentina e a Argentina odeia amar o Brasil".

No artigo, Helal sustenta que na ótica Argentina da rivalidade, há muita ironia, mas nunca deixam demonstrar admiração pelo futebol brasileiro, coisa que é mais incomum pelo lado brasileiro, segundo observa o professor.

Como residiu em Buenos Aires, Helal relata fatos pitorescos, que não são conhecidos aqui no Brasil. Fala que é muito mais comum ver camisas da seleção brasileira por lá, do que por aqui, e até as famosas sandálias (aqui no RS, chamamos de "chinelo de dedo") "Havainas" com a bandeira do Brasil são usadas por lá.

A abordagem da pesquisa utiliza bastante as manchetes e textos do Diário Olé (o estudo é sobre a imprensa argentina e seleção brasileira), então há muitos trechos em que o tradicional deboche do Olé é citado, mas a relação é ambígua, entre o amor e o ódio, admiração e provocação em relação ao futebol brasileiro.

O estudo também adentra no terreno da identidade nacional, relativa também ao futebol, e tenta decifrar as origens da imagem do chamado "futebol arte" brasileiro e do "fútbol criollo" argentino.

Estes estudos de forma mais aprofundada e séria, se não são raros na literatura futebolísticas, também não são corriqueiros, de forma que sempre é com grande interesse que vejo estas informações, relatos e considerações.

Vale a leitura, em espanhol, e recomendo fortemente o link:
http://www.efdeportes.com/efd88/jogo.htm

Gracias, Maxi, pela indicação.

Foto: capa do Diário Olé, após a eliminação brasileira na Copa de 2006.

Ba-Gua novamente

A Zero Hora (jornal aqui do Rio Grande do Sul) tem sido generosa nestes dias com o puro futebol dos pampas (leia-se, interior gaúcho). Antes que me acusem de acompanhar "la buena onda", recordo aos leitores que este tema sempre foi recorrente aqui, desde o ano passado e em minha cabeça, desde a infância.

O legendário colunista Paulo Sant'ana esta semana, escreveu na sexta e no sábado sobre o Ba-Gua (clássico futebolero da cidade de Bagé, em que se enfrentam Bagé e Guarany).


A coluna da sexta-feira, tratava sobre cartazes sem muito sentido que Pablo lembrava, ou ainda que tivessem sentidos, sem perder o absurdo.


Claro que há um folclore em torno disso tudo (clássicos em Bagé), mas a mística se firmou em virtude dos confrontos.

Sant'ana conta pra vocês, muito melhor que eu:


"Voltando aos cartazes, o mais espetacular que esta coluna já catalogou em seus 35 anos de existência foi aquele achado nos bailes do interior de Bagé, onde mais tiroteiam do que dançam. Ao lado dos coretos dos músicos, há sempre um cartaz: "Favor não atirar nos músicos".


Diz-me também o Camelinho, um dos mais bem-humorados bageenses que vivem na Capital, que no Estrela Dalva, estádio do Guarany de Bagé, a polícia colocava o seguinte cartaz na entrada, em dia de clássico Ba-Gua: "As armas de fogo devem ser deixadas na entrada. As facas, facões e punhais podem ser portados dentro do estádio, desde que com discrição". Com essa medida, as mortes em estádios de futebol em Bagé se tornaram discretas ".


E Pablo relembrou de Bagé no dia seguinte, sábado, na Zero Hora:


"A gente brinca que Bagé foi uma cidade muito violenta, mas essa característica pertenceu a muitas cidades gaúchas no século passado. É verdade que, no futebol, nunca aconteceu o que houve na Pedra Moura, em outro clássico Ba-Gua: um goleiro do Bagé, depois de escaramuças sérias dentro da área, ficou estendido no chão com a bola agarrada junto do seu queixo. Diz ainda o Camelinho que o goleiro nunca mais se levantou da área pequena: jazeu ali com um tiro de revólver na nuca, arma disparada das arquibancadas.


Essa fama de violento do gaúcho vem desde as revoluções de 1893 e 1923, desde os lendários degoladores. E os bailes eram cenários de brigas e assassinatos, o que ainda acontece hoje, mesmo com menor freqüência. Outro evento que sempre acarretava mortes e feridos eram - e ainda o são por vezes - as corridas de cavalos em cancha reta".


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Publicado no Jornal Zero Hora em 02 e 03 de fevereiro de 2007.

Autor: Paulo Sant'ana.


A foto: ninguém deve ter entendido muito, mas esta é uma das fotos que abre na primeira página do Google Imagens, desde 1999, quando digito à procura de imagens do Clássico Ba-Gua.

É o "ba-gua", do tal Feng Shui, mas como está em amarelo e preto, cores do jalde-negro bageense, resolvi publicar aqui e talvez me livrar deste "karma" dos sites de busca.

El Hincha de Galeano

Não compartilho exatamente da mesma visão que o escritor e jornalista Eduardo Galeano no que diz respeio ao futebol "moderno". O leitor Froner indica na caixa de recados um link, em que há uma amostra de "El fútbol a sol y sombra y otros escritos", livro de Galeano. Entratanto, quando deixada a política(e isso reflete em algumas análises futebolísticas, confiram no link) de lado, e sobra apenas o puro futebol, a poesia é excepcional. Verdadeiras obras de arte, entre os textos.
Vai um trecho aí abaixo. Quem já ficou no estádio um pouco mais de tempo após o final de uma partida, certamente irá reviver a cena. Não traduzo por óbvios motivos.
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"El hincha

Una vez por semana, el hincha huye de su casa y asiste al estadio.Flamean las banderas, suenan las matracas, los cohetes, los tambores, llueven las serpientes y el papel picado; la ciudad desaparece, la rutina se olvida, sólo existe el templo. En este espacio sagrado, la única religión que no tiene ateos exibe a sus divinidades. Aunque el hincha puede contemplar el milagro, más cómodamente, en la pantalla de la tele, prefiere emprender la peregrinaci ón hacia este lugar donde puede ver en carne y hueso a sus ángeles, batiéndose a duelo contra los demonios de turno.Aquí, el hincha agita el pañuelo, traga saliva, glup, traga veneno, se come la gorra, susurra plegarias y maldiciones y de pronto se rompe la garganta en una ovaci ón y salta como pulga abrazando al desconocido que grita el gol a su lado. Mientras dura la misa pagana, el hincha es muchos. Con miles de devotos comparte la certeza de que somos los mejores, todos los árbitros est án vendidos, todos los rivales son tramposos.Rara vez el hincha dice: «hoy juega mi club». Más bien dice: «Hoy jugamos nosotros». Bien sabe este jugador número doce que es él quien sopla los vientos de fervor que empujan la pelota cuando ella se duerme, como bien saben los otros once jugadores que jugar sin hinchada es como bailar sin música.Cuando el partido concluye, el hincha, que no se ha movido de la tribuna, celebra su victoria; qué goleada les hicimos, qué paliza les dimos, o llora su derrota; otra vez nos estafaron, juez ladrón. Y entonces el sol se va y el hincha se va.

Caen las sombras sobre el estadio que se vacía. En las gradas de cemento arden, aquí y allá, algunas hogueras de fuego fugaz, mientras se van apagando las luces y las voces. El estadio se queda solo y también el hincha regresa a su soledad, yo que ha sido nosotros: el hincha se aleja, se dispersa, se pierde, y el domingo es melancólico como un miércoles de cenizas después de la muerte del carnaval."

Eduardo Galeano
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Puríssimo, não?


Foto: Ibarrak, via Flickr

Puro Futebol das antigas - Gauchão dos '70 (Ba-Gua)

Continuando a excelente série sobre o futebol do interior e seus clássicos, nesta terça-feira o jornal Zero Hora publica um apanhado da história do clássico bageense, o Ba-Gua, disputado entre Bagé e Guarany, desde 1921. Mais uma vez o aviso de que a matéria é relativamente longa (se comparada a uma postagem corriqueira de blog), mas indico e insisto na leitura completa da matéria. E novamente, os parabéns ao jornal Zero Hora pela bela e importante iniciativa.

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O bochicho da rivalidade Ba-Gua pega fogo
As histórias do clássico Ba-Gua encerram a série de reportagens do Gauchão de antigamente
JONES LOPES DA SILVA (Jornal Zero Hora)


Na praça central de Bagé, zona de antigos entreveros entre maragatos e chimangos, federalistas e republicanos, e que hoje vive sob a vigilância da estátua do senador Gaspar Silveira Martins, o Sansão do Império, ali o torcedor do Guarany escarnece à vontade: - Vamos montar um time B para botar contra o Bagé na Segundona. Orgulho ferido, o gaudério do Bagé não aceita o desaforo: - Guarany é ioiô, hoje está por cima, amanhã apeia e fica por baixo.

O bochicho da rivalidade Ba-Gua pega fogo. Os qüeras do Guarany abrem o sorriso porque o time campeão da Série B do ano passado hoje é um dos caçulas do Gauchão que se iniciou sábado. Nem por isso os guapos do Bagé se dão por vencidos, apesar de penarem na Segundona desde 1986 [nota do blog: na verdade a última vez que o Bagé esteve na Série A do Gauchão foi em 1994], e da falta de grupo de jogadores e de um presidente eleito.

Tem hora marcada o bate-boca nos botecos do calçadão e da Praça da Bandeira. Por volta das 10h, antigos craques como Bataclã, Sérgio Cabral, Badico, Osvaldo e ex-dirigentes como Luis Carlos Deibler, do Guarany, circulam pelo centro. Somam-se a eles Ênio Chaves, Max Ravasa e Saulzinho, os que jogaram nos dois lados da história. São paparicados por torcedores que lustram os bancos dos quiosques e tomam posições à porta da barbearia e dos bolichos.

- Interditaram o campo do Bagé para reforma agrária - debocham os índios do Guarany.

Do outro lado da Avenida Sete de Setembro costuma passar Carlinhos Catador, 40 anos. Paramentado de amarelo e preto, ele empurra o carrinho recolhendo papelão para manter 20 crianças do bairro Santa Cecília no bloco burlesco Aqui e Agora e na torcida do Bagé. É o símbolo do clube.


- La pucha! Bageense é quem nasce na cidade - avisa. - Eu sou jalde-negro!

Ao meio-dia, o comércio fecha, a cidade se encoruja e a flauta entra em recesso. Mas, às 14h, após a sesta, as lojas reabrem, e os fanáticos voltam aos seus postos sob sol inclemente. Peões e pecuaristas de bota, bombacha e chapéu de barbicacho ignoram os 34ºC com sensação de 40ºC e parecem os únicos seres do município de 120 mil habitantes na Fronteira Oeste sem opinião sobre o Ba-Gua.

Não é o caso de Gladir Guterres, de 76 anos. De gravata e boné, ele se destriba bom humor trabalhando na portaria de um hotel. Seus comentários consistem em informar sobre o tempo, os segredos da cidade e o seu Grêmio Bagé:

- É o time do povão, sim.

Essa polêmica corre nas coxilhas da Campanha. Depois da escassez da água, que só pinga após as 14h, por falta de solução à carência de chuva, a altercação entre "alvirrubros" e "jalde-negros" é saber qual é a maior torcida. O Grêmio Esportivo Bagé nasceu em 1920 da fusão do 14 de Julho e do Rio Branco, de bairros populares. Já o Guarany é fruto da boêmia que rolava na Praça da Matriz. Entre uma serenata e outra, Carlos Garrastazu, recém-chegado de Montevidéu, fundou o clube, mais tarde associado aos militares.

Quem conta é o jornalista e historiador de 84 anos Mário Nogueira Lopes (foto ao lado), nome das cabines de imprensa do Estádio Antônio Magalhães Rossel, o Estrela D'Alva, que o Guarany vai inaugurar no centenário, no próximo 19 de abril. De tanto rebuliço nos clássicos desde os anos 40, Lopes se convenceu de um causo certo:

- Nunca vi Ba-Gua decidido só dentro de campo!

A história do goleiro argentino Héctor Lugano é a mais corrente. Era ele a fortaleza do Guarany num clássico de 1953, até o zagueiro bageense João Nascimento cobrar uma falta do seu campo de defesa. Ou seja, antes do meio do campo. A bola voou por todo o gramado do Pedra Moura. E entrou. Uma parte do estádio riu, a outra, praguejou, e o Bagé venceu por 1 a 0. O lance mereceu a gaiata denominação de "Gol dos 70 metros".

Sem mencionar nomes e datas, Lopes discorre sobre um Ba-Gua dos anos 60. Um conhecido árbitro da cidade tinha a missão de favorecer um lado, mas se viu obrigado a assinalar pênalti contra seus próprios interesses. O goleiro não defendeu a cobrança, e o árbitro mandou bater de novo. Outra vez saiu o gol e o juiz exigiu uma terceira batida, porque, afinal, o goleiro tinha que defender uma para garantir o dinheiro. Mas o frangueiro tomou outro. Indignado, o árbitro chamou o goleiro a um canto e o inquiriu:

- Quem é o vendido aqui, sou eu ou és tu?


A incrível história do ba-gua dos cem tiros

Corria o Ba-Gua de 1964 e a torcida do Guarani estava impaciente com o árbitro Mário Severo. Quando ele expulsou o craque alvirrubro Storniollo, a irritação cresceu e os xingamentos já não foram suficientes. Mal acabou o clássico em 1 a 1 no Estádio Estrela D'Alva, do Guarany, um gaiato invadiu o gramado e agrediu o árbitro. Rapidinho, os exaltados cataram pedras e garrafas e tentaram fazer seu Severo de alvo.

O alambrado do lado da torcida do Guarany deu sinais de ceder, e a Brigada tomou posto. Não adiantou. Sem solução, os brigadianos atiraram para cima. Esperavam assustar a horda. Que nada. O pobre do árbitro continuava engalfinhado com o torcedor e os tiros correndo solto.

O tiroteio foi tamanho que os jornais locais batizaram o episódio de Ba-Gua dos 100 tiros. Por um bom tempo, a grande polêmica na cidade era saber se o número dos estampidos foi mais ou menos do que o calculado pelos jornais.

Assim se formou a história do Ba-Gua, desde o primeiro clássico em 1921. A lista dos jogos inacabados, por exemplo, é um dos mais ricos capítulos do futebol gaúcho. No 13 de maio de 1990, a torcida do Bagé, sentindo o time em desvantagem técnica em campo, usou o maroto artifício de jogar a bola para fora do Estádio Estrela D'Alva. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis bolas sumiram, até o árbitro se dar conta de que havia somente uma para o clássico seguir adiante. Então, aos 10 minutos do segundo tempo, aconteceu o que a torcida do Guarany temia: desapareceu a última bola. Procuraram por todos os cantos. E o jogo acabou, 0 a 0.

Alegam os qüeras do Bagé que o episódio foi vingança por fatos ocorridos em um clássico anterior, disputado no Estádio Pedra Moura, quando os viventes do Guarany furaram quase todas as bolas de jogo.

A lista dos inacabados começa em 1931. O Bagé vencia por 2 a 0 e o Guarany saiu de campo. Dez anos depois foi o Bagé que deixou o gramado no segundo tempo por não concordar com a expulsão de Tupã.

Houve mais três clássicos nos anos 30 que mal chegaram à metade do segundo tempo por causa de briga generalizada.

- Só não havia batalha quando torcedores contrários reconheciam do outro lado seus amigos. Então, descia uma aura de civilização e eles se apartavam - conta o jornalista Mário Nogueira Lopes.


Craque dos anos 60, Saul Santos Silva, o Saulzinho (foto ao lado), de passagem por Bagé, Guarany e Vasco, passou a carreira recebendo chutões dos zagueiros e ainda assim marcou 95 gols no clássico, a maior parte nas goleiras do Estádio Pedra Moura. Não raro presenciou cenas tão hilariantes como patéticas: a torcida que ocupava a fileira de cadeiras de palha, bem à beira do gramado, senhores engravatados e senhoras com leques de abano, perdia a cabeça e partia com a cadeira para cima dos jogadores ou do árbitro. Quando o jogo era retomado, a palha destroçada tinha de ser varrida do gramado.

Houve outros episódios de brigas de jogadores e batalha campal em 1956, e em 1969, o clássico não foi adiante por falta de garantia ao árbitro João Carlos Ferrari, atingido por uma pedrada.

Mas ninguém expulsou mais jogadores nos gramados de Bagé do que o valente Tristão Garcia, um árbitro de Pelotas. Num Ba-Gua de agosto de 1950, ele colocou dois para rua, um de cada time. Como o jogo perdurou na categoria da selvageria, e como a torcida surpreendentemente não ameaçava represálias, ele se manteve na missão de pôr ordem na casa. Quando já havia três do Bagé e quatro do Guarany fora de ação, Garcia ouviu o rancor das arquibancadas e se aquietou.

Nunca expulsaram tanto num Ba-Gua. Perto disso, só o clássico de maio de 2003 [relatado anteriormente aqui no blog], com seis expulsões. Ou o dia em que os reservas dos dois times ameaçaram brigar. Aconteceu em 1997. Os dois times em campo, assistindo a tudo surpresos, e os reservas querendo se engalfinhar. Acabaram expulsos.



Vinganças, intrigas e "corpo mole"

Já garantido no octogonal final do Gauchão de 1987, o Guarany enfrentou o 14 de Julho apenas para cumprir a tabela. Se empatasse, também classificaria o Bagé. A semana do clássico chegou recheada de intrigas, com os jogadores do Guarany acusados de estar dispostos a amolecer a partida. Para surpresa de todos, o Guarany fez 1 a 0 e o time se mantinha no ataque. De repente, o 14 de Julho empatou, fez o segundo e o terceiro: 3 a 1. O Bagé quedou-se desclassificado.

Na primeira partida do ano seguinte, o Bagé goleou o Guarany por 4 a 0 no gramado novo do estádio Estrela D'Alva, o Antônio Magalhães Rossel. Mas ainda não se considerou vingado. Pela Copa Cidade de Porto Alegre, em 1991, valendo passagem para o Gauchão, o Guarany disputava vaga direta com o São Paulo, de Rio Grande. Mas deu azar. Dependia do Bagé para vencer o São Paulo no Pedra Moura, na última rodada. Os jalde-negros jogaram com um misto. O time não resistiu ao São Paulo, perdeu por 1 a 0 e foi eliminado.

A desconfiança sempre rondou a cidade de Bagé. Jogador de um time não podia ser visto com um da outra equipe porque logo corria pela Sete de Setembro o boato de que um deles estava vendido. Havia guerra de apedidos nos jornais.

- Bastava encontrar o adversário na esquina para plantar a notícia de complô e a expressão "está vendido" - conta Saulzinho.

Até 1977, calcula Saulzinho, os estádios costumavam colocar mais de 5 mil torcedores por jogo. Nos anos 50, 60 e 70 eram tempos sustentados pela força da pecuária, com dinheiro mais fácil. Não foi à toa que os grandes times da região, como o Guarany de Saul, Solis Rodrigues, Tupãzinho, Ivo Medeiros, Max e Ênio Chaves surgiram nessa época.

Mas foi nos anos 20 que o futebol local explodiu. Assim, o Guarany sagrou-se campeão Gaúcho em 1920, bicampeão em 1938 e vice em 1926, 1929 e 1958. Campeão em 1925, o Bagé ainda foi vice em 1927, 1928, 1940, 1944 e 1957. Mas foi o Bagé quem teve o perfil de clube revelador. Foi no Pedra Moura que surgiram Tupã, Raul Calvet, Sérgio Cabral e o próprio Saulzinho. Todos eles acabaram depois no Guarany.

- Apesar da rivalidade, a passagem de um clube para outro não era tão dramática - lembra Calvet (foto ao lado), que começou como atacante no Bagé e se tornou meio-campista e zagueiro no Guarany, antes de chegar ao Grêmio e ao Santos de Pelé.









( jones.silva@zerohora.com.br )

Que chute!
Em clássico de 1953, zagueiro do Bagé bateu falta de seu campo e marcou o gol da vitória sobre o Guarany.
O lance foi denominado Gol dos 70 metros


Galego
Um dos raros momentos de congraçamento Ba-Gua foi patrocinado pelo técnico Paulo de Souza Lobo, o Galego (foto), o homem que comandou o Bagé por 311 jogos durante os anos 70. Pois Galego formou uma seleção da cidade para jogar no Uruguai. Tomaram um ônibus até Porto Alegre e um avião até Montevidéu. O problema é que chovia dia e noite. Chovia tanto que não houve a mínima chance de sair jogo e a delegação refez as malas. Partiu de ônibus até Bagé sem entrar em campo.
A seleção de Galego só viajou.










Matéria publicada no Jornal Zero Hora (Porto Alegre-RS) no dia 23/01/2007.
Autor: Jones Lopes da Silva

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Fotos: Jornal Zero Hora

Campeonato Gaúcho nos Anos 70

Na sua coluna desta quarta-feira na Zero Hora, David Coimbra comenta sobre os anos 70, ditadura e acaba escrevendo sobre os Campeonatos Gaúchos daquela época.
E como ele cita o Bagé e os irmão Pontes (família de jogadores a qual faz parte o mito
Daison Pontes), reproduzo abaixo o trecho do artigo:

"E o Gauchão! Dava-se a vida pelo Gauchão, nos anos 70. Quando tinha de ir para o Interior, a dupla Gre-Nal ia pé ante pé. Sabia que lá em Passo Fundo estavam os Irmãos Pontes, de dentes rilhados e chuteiras de trava de metal. Os Irmãos Pontes. João, Daison e Bibiano. Tão temíveis quanto o delegado Fleury. E, nos campos duros de Bagé, rosnava o Orcina. Naquela época, o Grêmio Bagé era chamado de "time jalde-negro". Jalde! Ainda se usava a palavra jalde, nos anos 70! Pois Orcina envergava a jaqueta jalde-negra e, que me lembre, quebrou pelo menos três pernas de atacantes metidos a dribladores. Ninguém entrava na grande área impunemente, em Bagé. Mesmo assim, no final, sempre dava Gre-Nal. Era bom o Gauchão, nos anos 70. A cada ano, quando o campeonato começa, como começará esta semana, lembro daquelas epopéias na grama rala e no barro denso. E fico torcendo para que um pouco da mágica daquele tempo volte para dentro dos campos. Mas só para dentro dos campos."

David Coimbra, Jornal Zero Hora, 17/01/2007.

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Dei alguns pitacos por e-mail(não sei se foi lido).
Um deles é sobre a frase: "Mesmo assim, no final, sempre [grifo meu] dava Gre-Nal".
Daí como não sabia se ele se referia ao final do campeonato, ou o final das partidas contra o Bagé, pesquisei alguns pontos deixados em Bagé (na tabela, que fique claro), nos anos 70:

08/07/73 Bagé 1x1 Grêmio

09/05/76 Bagé 0x0 Inter

27/08/78 Bagé 1x1 Grêmio

05/07/79 Bagé 0x0 Internacional

13/08/80 Internacional 0x0 Bagé

Além disso, a torcida do Bagé ainda refere-se ao time como jalde-negro, e a alcunha é Bagé, não Grêmio Bagé.

Na foto acima, tirado dos arquivos do Jornal Minuano (Bagé-RS), está o meia-cancha Orcina, que depois viria a jogador no próprio Grêmio Porto Alegre, e definido na legenda da foto do Jornal Minuano, como um meia de "muito vigor".

Em tempos de Segundona para o Bagé (11 anos!), sempre é bom ver algo publicado sobre o jalde-negro em veículos de grande circulação, além deste resgate de jogadores que marcaram época no interior.

Sobre os campeonatos gaúchos dos anos 70, alguns tinham fórmulas esdrúxulas, mas entre eles encontrei alguns anos em que eram disputados com menos times e sem a complexidade de chaves e sub-chaves, enfrentavam-se todos, turno e returno. Deveriam ser realmente campeonatos interessantes.

Clique aqui para ler o artigo completo do David Coimbra (os links da Zero Hora são temporários, portanto quem estiver lendo isto a mais de 20 dias, possivelmente não funcione).

Foto: do jogador Orcina, no Bagé. Jornal Minuano (Bagé-RS)

Decisão por pênaltis

A decisão por pênaltis é sempre um tormento para os batedores, principalmente. Em qualquer competição, por qualquer equipe, em qualquer campo onde se jogue o futebol.

Na noite de ontem o EC Pelotas foi eliminado da Copa RS nos pênaltis.
O torcedor áureo-cerúleo Manoel Soares Magalhães, relembrou de seu passado "futebolero" na comunidade do EC Pelotas, num texto que ilustra muito bem a experiência de errar um pênalti, o qual está reproduzido abaixo.
Agradeço ao Manoel pela autorização da publicação do texto aqui.




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Auto-imolação *

Quando jovem, joguei futebol. Nessa época eu trabalhava como repórter no Diário Popular e disputava o campeonato de gráficas em Pelotas. Era atacante. Jogava razoavelmente bem; na época um atacante com cheiro de gol não era chamado "matador". Eu era, digamos, um matador. Não tinha jogo que eu não deixasse minha marca.

Certa tarde de domingo, no campo do Bancário, houve uma partida memorável. Precisávamos vencer por um gol de diferença. No tempo normal, deixei o meu. Mas, ainda assim, haveria cobrança de penalidades.
O estádio estava cheio; as torcidas se agitavam à roda do campo. Na minha cabeça, assim como na cabeça de todos os atletas - inclusive na cabeça dos jogadores do time oponente - a preocupação martelava como um surdo.
Pênalti é forma mais terrível de acabar um jogo. Competência é importante, sim! Mas têm outros fatores que determinam a tragédia de um jogador ou sua glória. Portanto, o suplício começou. As batidas foram ótimas de ambos os lados.
Quando chegou minha vez, minha cabeça estourava de dor e as pernas não eram pernas, mas barras de granito. Fui ao encontro da bola como quem se dirigia ao calvário. À medida que eu caminhava, o goleiro se agigantava e a goleira, como que por encanto, estreitava-se. A bola da me aguardava na risca do pênalti. Curvei-me para arrumá-la melhor, e puxar dos pulmões ar, mais ar, pois eu estava sufocado. A torcida eu não conseguia ouvir... Ouvia, sim, o coração martelar sangue, sangue que escorria célere pelas veias. Olhei para o goleiro. Parecia uma estátua de gelo na minha frente, braços abertos... Tive ímpetos de fechar os olhos, mas, num último arranco de coragem, os mantive abertos.

Corri para a bola. Correr, não. Foi, creiam nisso, o caminho mais longo de minha vida. Ao chegar perto da bola, e erguer a perna esquerda para nela bater, tive a certeza de que erraria. Bati. Firme. Isto é, julguei que tivesse sido firme. Mas não foi firme, não. Bati nas mãos do goleiro, que praticamente não se mexeu abaixo do travessão. Ele, igualmente tenso, espalmou a bola.

Eu desabei.
Desabei mesmo. Em lágrimas. Eu perdera o gol. A torcida, enfurecida, berrava, me chamando de incompetente, de burro. Eu ali, de joelhos, auto-imolando-me... Foi o que aconteceu sábado à noite na Boca. Vi dois jogadores auto-imolar-se. Passaram pela experiência que eu passara, anos atrás, eles na condição de profissionais, eu na de amador. Mas a experiência é trágica.
O jogo, então, teve para mim um gosto terrível, pois reavivou em minha mente àquele terrível dia. Assim, gurizada, condenar um batedor de penaltis é tempo perdido. Ele já está por demais condenado. Mergulha na mais tenebrosa das noites. Não precisa, não, de detratores. Ele se detrata a sós... Arranca mentalmente a perna que falhou. Destrói-se por dentro como se houvesse em suas entranhas um roedor colossal. Quem perde uma penalidade máxima perde a vida. Sufoca-se. O sangue congela nas veias. Não, não vamos condenar o batedor de penalti à condenação eterna. Por que? Porque ele já condenou-se.

Manoel Soares Magalhães

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* Manoel Soares Magalhães é jornalista, escritor e artista plástico, e fundamentalmente torcedor do Esporte Clube Pelotas.

...Puro Futebol




O amor e o Gre-Nal

Este texto recebi do leitor e blogueiro Maurício Kehrwald Cruz, via e-mail. Excelente texto retratando a rivalidade Gre-Nal no cotidiano dos jovens gaúchos. Belíssimo texto, Maurício. Agradeço a colaboração!

A figura ao lado mostra algumas rivalidades, ainda que menores à Gre-Nal, mas mundialmente famosas.







"É impressionante como certas coisas, desobedecendo quaisquer tipos de
lógicas e práticas no campo do bom senso, são recorrentes em nossas vidas.
Ou pelo menos estão aí, nas vidas de muitos outros, fazendo parte de nosso
cotidiano.

Comecei assim meio abrangente, mas na verdade eu quero escrever sobre um
mote em específico: por que razões gremistas insistem em namorar gurias
coloradas e vice-versa?

Está aí uma pergunta de difícil resposta. Alguns valer-se-ão da máxima a
qual diz que os opostos se atraem. Ok, respeito a opinião, mas o aforismo
supracitado não dá vazão à complexidade da questão.

Pois bem, vejamos assim, por este lado: o cara é colorado xiita. Daqueles

que sabem a escalação do time que ganhou um jogo válido pela sexta rodada do
primeiro turno do Brasileirão de 1993.

Fanático e membro da Camisa 12 ou da FICO ou então freqüentador da Popular,
nosso herói, já não bastasse a paixão e o relacionamento de altos e baixos
com o time, resolve engatar-se sentimentalmente numa colega de faculdade,
pois nem só de futebol e cerveja vive o macho.

Mas é claro que ele não
conhecerá a moça e acordará um dia descobrindo que ela é gremista. Ele
descobre cedo, e, mesmo assim, decide que vai entrar de peixinho no romance.

É aí, pois, que principia seu ocaso:

- Oi, somos colegas né? – pergunta, com um sorriso tão lindo quanto ela.

(Até porque as gremistas normalmente são lindas... ao menos as que eu conheci)


- É! Somos. Na terça-feira de manhã, cadeira de Introdução à pesquisa –
sorri, quase babando.
- Tá com alguém aqui na festa? – o sorriso é sempre o mesmo: lindo.
- Nem... vim com um amigo, ele se arrumou com uma guria e eu fiquei aqui com
a minha companheira. – Soergue uma Polar, em long neck
- Bom... se tu já tens companhia...
- Minha companhia aceita ser esquecida quando o motivo é tão belo.

(pausa)

(beijos)

Pois é! Vós sabeis que beijos derivam de diálogos até mais absurdos que este
aí acima. A noite acaba em beijo mesmo, ele pega o número de celular dela e
ela o dele.


Cortemos os 3 dias seguintes, a conversa que tiveram por
telefone, a troca de msn e os trâmites todos de um início de relacionamento
na Era Contemporânea. Estamos, agora, na terça-feira pela manhã, aula de
introdução à pesquisa:

- Psiu!
- (...)
- Ei, guri!
- Oi!
- Vamos tomar um café? Não agüento mais essa aula.
- Vamos.

E vão.

No boteco perto do bloco onde estudam, ela resolve tecer comentário acerca
do abrigo completo do Inter que ele está vestindo:


- Colorado, então... – ela sorri
- Sou! Tu também?
- Gremista...
- Ah...

Observação importante: esta é a hora de sair correndo, caso a pessoa em
questão seja irresistível e haja uma possibilidade forte de sair namoro daí.

Mas é claro que não é isso que nós homens, gremistas ou colorados fazemos,
evidentemente.

- Decepcionado?
- É... não... não faz diferença... tu tens outras qualidades. – Sorri, meio forçado
- É mesmo? Quais sejam?
E cita, dissertando sobre cada um, os aparentes atributos da moça.
Ela sorri
Ele a beija.

Corta pra 4 meses depois, dia de Grenal, na casa dela, com o pai da moça: um
daqueles gremistas psicóticos, que, em dia de jogo usa até meia e pantufa do
time. O namorado não foi ao jogo pois como o mesmo é no Olímpico, logo os
ingressos esgotaram e ele ficou sem. O velho não foi porque acha que já
passou da idade de se amontoar em campo de futebol.

Vão ver pela televisão:

- Te prepara que hoje o imortal, multicampeão, invencível e campeão mundial
vai humilhar esse teu timeco.

- Tá, tá, “Sêo” Clóvis... come aí teu churrasco enquanto o sofrimento não
vem!

- Sofrimento? – exaltado e cuspindo farinha na cara da mulher, da filha e do
genro – Sofrimento vai ser o teu com essa bosta de time!

- Certo, certo... agora me alcança mais uma cerveja... – enquanto isso troca
afagos com a filha do “Sêo” Clóvis por debaixo da mesa.

Comem, bebem, trocam provocações. São, agora, dezesseis horas em ponto e a
família (incluindo parentes) da namorada está toda lá, engrossando o caldo
tricolor, numa – perdão, mas o trocadilho é inevitável - agremiação
predominantemente gremista (os colorados haviam conseguido ingresso).

O árbitro apita o apito. A peleja começa.

(Lapso de 1 hora mais 50 minutos)

Vamos às variáveis:

I - Vitória do Grêmio:
- Chora, macaco! – grita o “Sêo” Clóvis
- Tá certo... tá certo... – grunhe o rapaz
- Cadê o Inter? – Grita o “Sêo” Clóvis
- Tá certo... perdemos... – responde em voz muito baixa o rapaz
- Cadê o centroavante de vocês? Não era craque? – brada outra vez o velho
- Certo, certo... não foi o dia do cara... – ele é muito fã do dito centroavante
- Cadê o...
- Cala essa boca seu velho imundo, senil e porco! – Rompe num berro
absurdamente alto, o rapaz.

O namoro acaba.

II – Vitória do Inter:
(Rapaz sorrindo e dando risinhos)
- Tá rindo do que? Foi roubado! – Grita o velho, colérico
- Que é isso “Sêo” Clóvis... jogo bom... alguém tem de ganhar! – responde

quase chorando de rir

- Tira essa camisa já! – Brada o velho cada vez mais colérico e com a respiração ofegante
- Calma...
- Tira isso, seu palhaço!
- Calma aí “Sêo" Clóvis...
- Tira isso seu filho de um corno!
- Cala essa boca seu velho imundo, senil e porco! – Rompe num berro
absurdamente alto, o rapaz.

O namoro acaba.

III – Empate

- Merecíamos a vitória! – exclama o velho
- O empate foi justo... mas o Inter foi melhor – responde o rapaz, já
querendo mudar de assunto
- Justo? Jogaram melhor? Uma ova! Esse seu time é de fracos!
- E vocês empataram com um time de fracos em casa... o que vocês são?
- Olha o respeito comigo rapaz...
- Eu lhe respeito “Sêo” Clóvis...
- Respeita nada, piá! Não tem nem barba na cara ainda!
- Cala essa boca seu velho imundo, senil e porco! – Rompe num berro
absurdamente alto, o rapaz.

O namoro acaba.

O amor, que tantos percalços supera, tanto degraus galga, que tantas
infâmias contraponta; este amor, este mesmo amor...

Nunca transpõe o Gre-Nal."


Maurício Kehrwald Cruz*


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* Maurício escreve no Cuarto dos Fundos e no Elite Tática

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