Esse aí acima é Nick Hornby (vocês ainda me ver citá-lo muitas, muitas vezes) comentando o que ele chama de "o melhor momento da vida (dele)": o gol de Michael Thomas no último minuto de jogo contra o Liverpool, na última rodada do campeonato inglês de 1989 - que, em Anfield, tirou o título das mãos do time da casa e deu para o Arsenal, que amargava uma fila de 18 anos.
Desnecessário dizer que concordo integralmente com esse inglês. Caso fosse listar os melhores momentos da minha vida creio que muitos deles, pra não dizer a maioria, seriam lembranças de euforia desmedida relacionadas ao futebol, mais especificamente ao meu clube. Muitos desses momentos com uma carga de dramaticidade fora do comum (Dunga contra o Palmeiras em 1999), outros guiados por uma sensação de apoteose heróica e gloriosa (Gabiru contra o Barcelona), mas todos eles servindo para fechar as próprias cicatrizes que o futebol abriu.
Porque o torcedor de futebol tem cicatrizes na alma.
Melhor: o torcedor que sofre tem cicatrizes na alma. Ainda mais se for criança.
Foi na minha infância, principalmente entre os 9 e 14 anos, que se abriram as maiores rachaduras no meu peito. Verdadeiros canyons sangrentos. Era a época em que os colorados torciam pra torcida colorada, e não exatamente pro time, já que o Grêmio só ganhava, o Inter só perdia, e a torcida era o que mantinha por um fio a nossa moral e o nosso orgulho, lotando o Beira-Rio logo após 2 vitórias seguidas, naquela esperança cega. A minha relutância em virar a casaca, a minha irredutibilidade no coloradismo era tão absurda quanto os fracassos em campo da era Zachia/Amoretty. Mais absurdo ainda é a maneira com que, hoje, eu olho aqueles anos: uma ternura melancólica, quase que sentindo saudades.
E creio que pra muitos que viveram aquela época o sentimento é o mesmo. Torcedores de outros clubes que passaram grandes períodos de seca e sofrimento devem sentir a mesma coisa... um misto de terror ("que essa fase nunca mais volte") e nostalgia ("ah, mas naquele tempo as coisas eram diferentes").
Porém, pra sentir isso, é preciso ter fechado as cicatrizes. O gol de Thomas fechou as cicatrizes de Hornby, tanto que ele escreveu um livro inteiro sem vergonha alguma de falar dos fracassos homéricos do boring, boring Arsenal entre 1971 e 1989. Da mesma maneira, não sinto vergonha de falar da minha fase de puro sofrimento xiíta e desilusão que durou de 1992 até 2006 (com alguns gauchões ganhos pelo caminho - que eu prezo muito), dos dias ouvindo protestos no portão 8 pelo rádio após as derrotas, das inúmeras trocas de técnico, das desclassificações para times inexistentes, de Mazinho Loyola e Leandro Guerreiro, João Santos e Manoel e Pretto, da MSI e Zveiter, da sensação de que o universo conspirava contra o meu time, e que eu deveria me resignar e aceitar que nunca veria o Inter campeão fora do Rio Grande do Sul.
Os gols de Sóbis, Tinga e Fernandão foram sarando as feridas, e o que transformou todas essas lembranças outrora atormentadoras em memórias carinhosas de um tempo que não volta mais foi, claro, o gol do Gabirú. Naquele domingo, logo depois de voltar da Av. Goethe, creio que no fim da tarde - depois de ter gasto 50 reais em cerveja, ter desmaiado no meio da avenida e ter sido acordado com mais cerveja - eu sentei em frente ao computador e caí num choro emocionado, profundo e fiasquento, de puro regozijo, que durou horas e horas, enquanto ligava para o maior número de pessoas que eu conseguia me lembrar na hora.
Esses gols, esses momentos, devem ativar algo no sistema nervoso das pessoas e, num piscar de olhos, aquela lembrança que te tirava o sono por anos e anos acaba se tornando uma prova viva (nem tão viva, já que só existe na memória) e terna da tua fidelidade, do teu caráter, do teu ideal mais alto e palpável, que é torcer pelo teu time. Acordei na madrugada do dia seguinte todo queimado do sol, com a alma leve, olhos inchados e a sensação de que algo havia mudado. Que eu acabara de passar por um momento que talvez jamais eu passe novamente.
Esse é o fardo comum entre todos os fanáticos por futebol: somos completamente previsiveis até mesmo pra escolher os grandes momentos das nossas vidas. Tenho absoluta certeza que mais alguns milhões de pessoas por aí apontariam aquele segundo da manhã do dia 17 de dezembro de 2006 como o melhor da vida delas. Assim como gremistas e corinthianos (pra citar dois tipos de torcedores que eu não nutro muita simpatia) mais antigos possivelmente apontariam o(s) gol(s) de Renato em 1983 e o de Basilio em 1977.
Mas pouco importa a individualidade de cada um quando o que está em jogo é o fim do teu martírio e o início de uma nova era. Se for para ter momentos como aquele novamente, eu me prontifico a realizar grande parte do maior número de clichês possíveis.
E claro, mostrar pra todos as minhas cicatrizes fechadas, como prova da minha inquebrantável fidelidade.
Se você urina de pé e tem entre vinte e poucos e trinta e alguns, já descobriu, mas nunca é demais lembrar: fomos, repito, enganados.
Todos nós, integrantes de uma irmandade de embusteados por quem menos deveria nos enganar: nossos progenitores; nossos pais.
- Maurício Eduardo, não vai jogar bola sem antes fazer os temas! (aqui no Rio Grande nós chamamos a lição de casa de tema)
- Mas, mãe... eu vou ser jogador!
- Não delira, guri! Quer ter um futuro? Estuda! Tem que estudar se quiser ter em emprego bom e blablablá...
Emprego bom?
Estudar?
Anos depois:
- Conseguiu emprego?
- Claro que não, velha filha da puta! Tô quase formado e não arrumo um emprego que me pague mais de 500 pilas!
- Ah, é assim mesmo...
- Assim mesmo é o teu cu. E agora já tô muito velho pra jogar futebol.
- Olha o respeito com a tua mãe...
- Respeito é o caralho. Eu tô fudido.
- (...)
- Vou sair. Sobrou R$6 e eu posso tomar um litro de vodca pra esquecer que eu nasci.
Ou isso ou você explica para os que arruinaram sua vida que o Avestruz, volante pesado, anão e atarracado )além de, dizem as más línguas, bêbado e gaveteiro) ganha por mês o que ele ganham - juntos - em um ano.
Você pode xingá-los e culpá-los.
Ou lamentar por não ter insistido mais.
Infelizmente, pra você não há mais tempo.
Mas sempre há uma parte engraçada: você não terá outra vida para realizar este sonho.
Ah, esta não é a parte engraçada!
A parte engraçada é que o Avestruz, agora 2 quilos mais pesado e um ano mais velho, foi contratado pelo Vasco por R$40.000 por mês e você não ganhará isso nos próximos 3 anos.
É irrevogável: nossos pais estavam errados.
__________________________________
Texto de Maurício Alejándro Kehrwald
No lado uruguayo, bem na margem do Rio Jaguarão, encontram-se vários free-shops, para deleite de vários brasileiros que vão para lá abastecerem-se de especiarias e produtos, principalmente eletrônicos. Vi carros com placas de várias cidades gaúchas (algumas bem distantes, como Venâncio Aires e Palmeira das Missões) e o comércio é bastante intenso, principalmente nos finais de semana.
Junto com meu irmão, invadimos o lado uruguayo, uma vez a pé e outra de carro. Quando de carro, fomos até o balneário uruguayo da Lagoa Mirim. Achei até que seria mais acanhado, mas já conta com uma estrutura razoável. Nesta ida até lá, fui procurando algo sobre futebol para depois postar por aqui.
Em termos de camisas de clubes nas ruas, vi várias de Inter e Grêmio, mas possivelmente fossem pessoas de Jaguarão (muitos têm moradia no lado castelhano ou no próprio balneário). Lá também tem o fenômeno dos camelôs, e nestas “tiendas” também tinham várias camisas de times brasileiros (de procedência pirata, óbvio). A maioria era da dupla Gre-Nal, mas também observei algumas de clubes argentinos, Peñarol e Nacional, claro, e de brasileiros vi as de São Paulo, Santos, Palmeiras (sim, a verde-limão) e Flamengo. Creio que sejam os uruguayos que comprem as camisetas da dupla Gre-Nal, pois não tenho motivos para acreditar que alguém vá do outro lado da fronteira para comprar uma camisa pirata...do time de sua própria cidade. Mas não sei ao certo, para falar a verdade.
As impressões sobre a pequena e simpática Rio Branco foram as melhores. Como aqui não é um blog de turismo, vou resumir em algumas frases:
Rio Branco é uma cidade bastante limpa (excetuando-se a zona dos free-shop, que fica mais afastada do centro, mais perto da margem do rio).
Os motoristas respeitam a faixa de segurança, incrível.
E sim, existe futebol na cidade, ainda que não seja profissional.
Vejam o futebol presente no dia-a-dia, neste muro abaixo. Fui obrigado a tirar uma foto. Sensacional, uma pena que está tão descascado, mas este muro fica na "avenida principal" de Rio Branco:

Um adendo na parte gastronômica: bem na entrada do centro de Rio Branco, há o restaurante “La Punta”. Não sei se é o melhor ou o mais barato, pois foi o único que fui, além do “El Turista” (o "el turista" não é ruim, fica junto com os free-shop, mas como o nome sugere, é mais caro). No "La Punta" eles servem o “chivito” (foto abaixo), mas tens que adentrar um pouco mais na cidade de Rio Branco.
Neste amontoado que vocês podem observar na foto do delicioso chivito, escondem-se dois filés e dois nacos de bacon. Belleza muchacho, como já disse Jorge Ramos. 18 reais e teoricamente serve duas pessoas (tudo é duplo), mas aí depende do freguês, é claro. Patrícia de litro a 4 pila, e gelada. Mas não é em todos os lugares que a cerveja é “gelada” para os padrões daqui. Em alguns locais eles não se preocupam muito com a temperatura da cerveja, e existem explicações teóricas sobre a cerveja não ser tão gelada, mas não vêm ao caso.
E o “chivito” pode ser encontrado também em lanches de rua, como na praça central, mas não sei o preço e a qualidade. O do “La Punta” é muito bom. Os de “bicão” não quisemos experimentar porque no chivito vai salada de maionese, mais perigosa que atacante ruim, mas veloz, de time pequeno jogando no contra-ataque, ainda mais no calor que estava.
Na estrada que leva de Rio Branco para o balneário, achamos o estádio da cidade. A foto não está boa, mas o estádio é melhor do que as fotos: possui iluminação, cabines de imprensa e arquibancada.
É um estádio acanhado, mas muito bem cuidado. No momento em que chegamos acontecia um treino. Como o clube é semi-profissional (ou semi-amador, conforme a ótica), cada um trajava material de treino exclusivo (em relação aos demais da própria equipe). Impressionante a variedade. Um dos jogadores trajava uma listrada amarela e preta de mangas longas, a despeito do calor de quase 40º. Tenho certeza que era a camisa do Bagé, já que só olhei de longe e nem estar no país do Penãrol me demoveu da idéia de que ele estava envergando a camisa jalde-negra do GEB.
Só um jalde-negro para estar de manga longa naquele calor, e ele era o único.
O nome deste clube é como vários aqui no Brasil: “Ferroviário”. As cores são o azul e amarelo, a julgar pelas cores do estádio, pois não vi camisetas (abaixo a bilheteria do clube).

O motivo: a sede se localiza quase na linha férrea, que passa atrás do estádio. Assim como aqui, a linda estação ferroviária está abandonada (foto abaixo), e sua arquitetura guarda alguma pujança econômica que ficou no passado. Uma pena.
Mas o Ferroviário segue firme e treinando. Eu não pude descobrir como é o sistema do campeonato deles, mas no Uruguay a “divisão amadora” disputa jogos contra outras equipes do “departamento”, podendo chegar a ser campeão nacional nesta categoria. Tenho que descobrir o nome e sistema de disputa... Imagino que seja uma competição interessante.Finalizo a postagem dando boas-vindas ao nosso novo colaborador, o Froner. Froner além de escrever sobre futebol, tem um projeto musical (solo) denominado “Svanat”. Como gostei bastante das músicas, especialmente da “D’alba”, utilizei ela para ilustrar algumas imagens de Jaguarão e Rio Branco (ou as fotos ilustram a música). Dêem uma conferida aí em baixo, no “vídeo”, e podem achar mais músicas do projeto do Froner em Svanat . Tem tudo a ver com o pampa. Parabéns, Froner.
Cabe avisar que das fotos que coloquei neste vídeo, apenas 4 são de minha autoria, retirei as outras do Flickr, e são vários os autores, espero que me desculpem por não nomear um por um.
Amanhã tem postagem do Maurício e estamos inseridos no Prêmio Ibest, se alguém tiver paciência para votar, chegue de carrinho:
Votar .
Carnaval my ass, tudo contra ele (e a favor das gurias com tapa-sexo) por três razões:
- Quem usa o carnaval como muleta pra beber bastante é viado, come traveco¹ e assiste Zorra Total. O segredo para ter huevos y aguante é beber não somente em lugares públicos com gente ao redor, mas também sozinho em casa, às 11 da manhã de uma segunda feira;
- Brasil-sil-sil, AKA Rio de Janeiro;
- A única histeria coletiva aceitável é a motivada pelo futebol.
Té.
¹ All Rights Reserved - MKC & Cuarto dos Fundos
Sempre que saem notícias desse naipe na mídia (início de temporada + Paulo Pelaipe = zilhões de notícias assim) encontro dois tipos de reação na torcida: o grupo radical, maioria absoluta, que mostra que estará disposto a tratar o jogador com hostilidade e desde já o trata dessa maneira; e outro grupo, mais ponderado, que diz que ele só está sendo profissional, e que isso aconteceria com qualquer um que tivesse a chance de receber uma bolada de dinheiro para jogar em outro clube.
Faço parte do primeiro grupo, e vou desenvolver o assunto:
- Sabemos que é assim que funciona, que pagando, eles vem e vão. Os jogadores de futebol de hoje são uma raça bem desprezível, fabricados e infectados pelo vírus do boleirismo e do bom-mocismo canalha, e com a personalidade de um poste. Eu não espero muita coisa deles fora de campo, mas eu adoraria ver, ao menos às vezes, algum jogador falando o que pensa e não o que o empresário mandou;
- Meu papel dentro desse universo paralelo chamado Futebol é o mais prosaico e simplório: sou um torcedor, e como torcedor eu considero um desaforo que um jogador que tenha recebido tanta coisa boa de uma torcida, que é querido por ela, simplesmente vire as costas e vá jogar no meu rival de morte do bairro ao lado;
- Pior ainda: que demonstre publicamente uma vontade de se tornar jogador do rival, com direito à declarações que, mesmo dotadas do mais puro cliché, se tornam perturbadoras ("O Grêmio é um grande clube. É mais uma opção para eu alcançar meus objetivos.");
- Mas e se eu fosse jogador e recebesse uma proposta similar? Bom, impossível saber responder, já que eu nunca ganhei 1 centavo pra jogar bola (inclusive devo ter gasto uma fortuna pagando para jogar. Multipliquem 2 pilas vezes 10 anos de aluguéis de quadras de futsal ou futebol 7 com os amigos). Sei que, caso Fábio Rochemback for pro Grêmio, eu serei um dos milhões que vai passar a enxergá-lo como um traidor (traidor nível médio, claro... nada que me faça jogar uma pedra na vidraça do carro dele);
- E sim, eu estou totalmente consciente da irracionalidade enorme da minha postura!
- De qualquer maneira, porco dio, eu sou um torcedor (do Inter, como vocês puderam perceber), e essa condição é a desculpa perfeita para agir como um viking pilhador em estado berserker contra outra pessoa ou coletivo. E nomá, o futebol é uma das poucas coisas em que não se encontra muito espaço para o ceticismo e a racionalidade, e é exatamente esse detalhe (que poderia ser visto como um defeito, pelos chatos) que faz com que milhões de pessoas ocupem seu tempo sofrendo, lendo, escrevendo, pensando, assistindo (e mais um sem-número de atividades) um troço que, na realidade, nenhum deles têm controle algum.
No duro, ouvir essas idiotices é o preço que pagamos por termos deixado que políticos, gerentes de marketing e empresários (o último tipo de gente que entende alguma coisa sobre torcidas) se infiltrassem e se apoderassem do meio (na verdade eles sempre estiveram ali, principalmente os políticos, mas a única função deles era contratar jogadores e assinar os cheques), e hoje ligamos a TV e tá lá algum semi-calvo de terno, que jamais deve ter pisado numa arquibancada de cimento sem morrer de nojinho, falando sobre como um torcedor quer ser tratado e etc.
Digo com toda certeza do mundo: mesmo que transformem os estádios brasileiros em Allianz Arenas e Bernabéus, a média de público não aumentará, jamais aumentaria. Quem não paga 20 pilas para ver um jogo não pagará 50 paus - a não ser que estejamos lidando com um imbecil de marca maior.
O exemplo adotado pelas "autoridades" nesse assunto, aqui no Império Tupiniquim, é a Premier League, a antiga Primeira Divisão da Inglaterra. Lá sim, as médias de público são assustadoras (e realmente são: ano passado o Manchester United colocou em média 75,826 por jogo), todos assistem seus astros estrangeiros ordeiramente sentados em poltroninhas mais confortáveis do que qualquer móvel que eu tenho aqui em casa - e pagando uma quantia imensa por isso. De fato, o troço funciona bem na Inglaterra, mas o negócio aqui é o seguinte: além do argumento batido e óbvio sobre o poder aquisitivo entre a classe média/baixa brasileira e a inglesa, a cultura futebolística de lá é muito diferente da de cá, e as nossas médias só aumentarão no dia em que mudar a própria mentalidade do torcedor.
Na Inglaterra a porcentagem de pessoas que não gostam de futebol é muito maior do que no Brasil ou Argentina. O negócio é assim: todas as pessoas no Brasil gostam de futebol, tirando alguns bunda-moles que consideram que o futebol não é "bom o bastante" para eles, e a imensa, esmagadora maioria dessas pessoas são torcedores passivos, cada um com seu time, as vezes assistindo um jogo pela tv, etc. É uma cultura de torcedor passivo que se prolongou e fortificou durante 100 anos, principalmente por conta do tamanho do território do país e da atual destruição das equipes menores e suas torcidas.
Na Inglaterra a coisa muda um pouco de figura. A porção inglesa que gosta de futebol é mais obsessiva justamente por ter uma espécie de "concorrência" de outros esportes populares e ser um grupo que não é tão majoritário assim. Como demonstra Nick Hornby em seu sensacional "Febre de Bola", a cultura de ir ao estádio é muito presente no torcedor inglês - e nesse mesmo livro ele se refere a um público de 20 mil pessoas como sendo "vergonhosos". As médias de público são altas na Inglaterra porque, bem, elas sempre foram altas. O futebol lá atrai multidões há mais de 130 anos e tudo que se refere às torcidas no futebol do Reino Unido assume ares épicos e selvagens, sejam nas inúmeras tragédias que resultaram em mortes (pelas minhas contas, mais ou menos 300 pessoas já morreram em tumultos relacionados ao futebol inglês pós-guerra como em Heysel, Ibrox, Bolton, e o pior de todos: Hillsborough), nos meios de transportes antigamente utilizados para os jogos (o Football Special... oficialmente conhecido como "trem", mas que na realidade eram diversas caixas de aço puro sem assentos e divisórias com 400 pessoas dentro que rolavam sobre os trilhos), nos públicos absurdos (como os inacreditáveis 240,000 em Wembley na final da FA Cup de 1923, onde 60 mil pessoas ficaram do lado de fora; e os 183 mil torcedores socados em um estádio que hoje abriga 50 mil na Escócia em 1937), nos estádios (que até 1992 eram "construídos, na maioria dos casos, por volta de cem anos antes e que podiam acomodar entre 15 e 63 mil pessoas em pé") e em tudo que cerca a cultura de arquibancada no Reino Unido.
Digamos que um fã de futebol na Inglaterra é um alcoólatra da bola, um viciado. Já o brasileiro... bem, ele bebe socialmente com os amigos, e no meio destes sempre existe aquele que gasta 50 reais em Heinekein e vomita em cima de todos.
Claro que na última década, por conta das medidas de segurança tomadas por clubes e pelo Estado e com a elitização total do futebol de lá, esse espírito e essa cultura perderam muito da sua força e hoje se encontra com mais pujança nos clubes menores, de divisões inferiores, clubes de comunidades e bairros. E pondo na balança, a modernização do campeonato Inglês trouxe mais malefícios do que beneficios, já que os torcedores, aqueles que cantavam e criavam a famosa atmosfera dos terraces ingleses, foram chutados dos seus estádios e substituidos por consumidores e suas familias, que vão ao campo não porque o clube é parte necessária da vida deles e eles necessitam vê-lo, mas porque é um programa bacana para se fazer num sábado de tarde. Recentemente muitas pessoas de dentro do futebol inglês têm criticado os novos torcedores e a falta de atmosfera e empolgação nos estádios, entre eles o eterno técnico do Manchester, Alex Ferguson.
Imaginem então no Brasil, onde os estádios somente enchem nas finais e onde o torcedor comum é completamente passivo, pouco mobilizado e (desculpem o termo) amargo? Na maioria dos grandes clubes, podemos constatar que lotam seus estádios nas finais e grandes jogos, mas em uma rodada normal sempre se tem aqueles 15 mil (chutando alto, em PoA é um número um pouco superior... a comemorada média de público do campeonato brasileiro de 2007 foi de 17 mil pessoas) torcedores que, talvez por falta do que fazer ou talvez por um absoluto fanatismo, sempre vão nos jogos. Desses 15 mil, talvez metade deles não possam freqüentar um estádio cujo preço do ingresso dobraria de valor por conta da modernização/elitização, e dificilmente os torcedores de sofá deixarão de ser torcedores de sofá... resultado: podemos ter médias enormes nos primeiros jogos após os estádios serem reformados (sabe como é, pessoal é curioso, quer saber como ficou, etc), mas obviamente essas médias vão cair, cair e cair... até que um dia, e aqui eu peço licensa [pra cantar esta milonga e] dar uma de profeta, as direções dos clubes arranquem fora aquelas cadeiras tão pouco usadas, baixem o preço dos ingressos e tenham de volta aquela base leal de torcedores que a modernização acabara por expulsar.
----
A partir de hoje me tornei colaborador do Puro Futebol, por sugerimento do Maurício e convite do George. A princípio vou me focar mais na arquibancada do que no gramado, dando mais ênfase a cultura em volta do futebol do que o jogo em si (ao menos pretendo, pretendo...).
Um abraço e até mais ver.
O Jornal Minuano, de Bagé, através do jornalista Higino Gonçalves, resgata uma história cheia de peculiridade sobre o comportamento de algumas torcidas antigamente. Nos idos dos anos cinqüenta, era bastante comum entre as torcidas do interior do Rio Grande do Sul, viagens de trem para dar seu apoio às equipes da cidade. Eu não sei em que época isto foi diminuindo, mas possivelmente tenha sido simultaneamente com o desmantelamento da RFFSA. Já o número de torcedores que acompanhavam estas tradicionais equipes do interior gaúcho também diminuiu e não só pelo fato do transporte ferroviário ter virado sucata (ou teria relação? Gostaria de pensar que sim, mas ocorreram outros problemas como já escrevemos aqui mesmo).Eu imagino se hoje houvesse este tipo de costume entre os torcedores do interior, com passagens de trens baratas (em relação ao aluguel de vans e ônibus) e vagões inteiros ocupados por torcedores dos clubes do interior do Estado, dirigindo-se para acompanhar os jogos fora da cidade. O futebol do interior estaria em que patamar? O pior é pensar que esta época já existiu e que havia muita gente que apoiava incondicionalmente o clube da cidade, a despeito da raridade de títulos, desde a década de 40.
Mas era assim no interior gaúcho, principalmente na Metade Sul, naquela época e me pergunto se alguém possui ou tem conhecimento de alguma foto com essa gente, nestas viagens lendárias. Se alguém souber, que entre em contato, seria um belo resgate.
Mas nem tudo eram flores, mesmo naquela época dourada. Às vezes eram pedras.
O Dr. Jesus Ollé Vives, ardoroso torcedor do Bagé e que já ocupou cargos na diretoria jalde-negra inúmeras vezes, guarda um curioso impresso, que circulou nas mãos dos moradores de Livramento e Rivera, à época:
“Ao povo de Santana e Rivera:
A torcida rubro-negra convida a população das duas cidades a recepcionar ao famigerado quadro do Grêmio Esportivo Bagé à altura da maneira com que foram tratados os valorosos quartorzeanos quando excursionaram à cidade de Bagé.
Repugna aos nossos foros de cidade civilizada hospedar a horda de bárbaros bajeenses que, num atestado de incultura e vandalismo, traíram as tradições de hospitalidade dos rio-grandenses e, por isso, merecem o desprezo de todos os desportistas desta fronteira.
A torcida rubro-negra previne que assumirá atitudes de represália contra todos aqueles que, de uma forma ou de outra, facilitarem a estadia dos bajeenses em nossa cidade, quer hospedando, dando condição ou tratando com elementos da sua caravana.
Exige o bom nome das nossas cidades que os bajeenses sejam tratados como bárbaros e covardes que são.
Como será um dia de luto aquele em que o barbarismo chegar a nossa cidade, Santana estará vivendo um de seus dias mais tristes quando pisarem em terra santanense os representantes do Grêmio Esportivo Bagé.”
Os grifos no texto acima são meus, obviamente. Ocorre que na época era comum, junto com as excursões de trens, o apedrejamento dos vagões que traziam a torcida visitante, não só em Bagé. Contam também os mais antigos, que as sessões de pedras e brigas, podiam ocorrer em várias estações pelos arredores da cidade, antes do trem estar definitivamente a uma distância segura ou desestimulante.
Não sei o que houve com a torcida no jogo da volta, na matéria que conta sobre esta história não há relatos sobre, mas os jogos foram em 1951, 2 x 2 em Bagé, e 3 x 3 em Livramento, apesar do clima de guerra o Bagé não se intimidou. Pode-se notar que este artifício já é utilizado há bastante tempo no futebol e, assim também como hoje, nem sempre dá resultado em campo. O Bagé acabou eliminado da competição mais tarde, em Rio Grande, perdendo para o “vovô” por 6 x 0. E mesmo abaixo de pedradas e brigas, o futebol do interior era bem mais pujante no Rio Grande do Sul dos anos 40, e hoje sem pedras mas (perdoem o trocadilho óbvio) sob escombros.

Matéria via Jornal Minuano (Bagé-RS).
Fotos: http://www.estacoesferroviarias.com.br/ (na primeira, a Estação Central de Bagé nos anos 30 e na segunda nos dias atuais, agora funcionando como sede da Prefeitura Municipal).
Conforme for, vou adicionando outras.
Pena que não se pode colocar trilha sonor, ficaria muito pesado (aliás, este blog está com muitas "pop ups", a maioria das quais não sei a procedência. Mas vamos resolver isto).
De qualquer maneira, aqui está a trilha sonora (indicada) para assistir às "puras imagens":
http://www.sombreroluminoso.com.br/mp3/paraguay.mp3
Desfrutem.
Logo mais tem postagem, espero.