Um domingo sem futebol

"Portanto, deixando de lado as observações judiciais, vejamos como se procede a observância do Dia Sagrado para o fanático. O dia sagrado determina que nenhum trabalho mundano deve ser realizado. Se então você cessa de todo emprego secular e não faz nada mundano ficando livre para ocupações futeboleiras, vai à cancha, ouve a torcida enaltecendo o clube, pensa sobre coisas divinas, preocupa e espera o futuro, têm diante de seus olhos a decisão próxima e não se importa com as coisas presentes e visíveis, mas com as coisas invisíveis e futuras, esta é a observância do Domingo sagrado do torcedor."*
*Adaptado de um
texto religiososo.


Um domingo é um domingo em qualquer lugar do mundo. Para os que têm a ida ao estádio tão sagrada como a ida à Igreja para os cristãos, o domingo, além de tudo que o domingo pode ser, é dia de futebol. Mas não o futebol da TV ou dos outros times. Se o teu time não joga no domingo, é um domingo sem futebol. Exceções feitas a jogos de Copa do Mundo que, além da óbvia importância, guardam como consolo que o mundo inteiro vive, nestes casos, um domingo sem futebol.

Ainda agora lembro dos domingos da adolescência, quando acordava lá pelas 13 horas, almoço com a família (algumas vezes desfalcado da presença de meu pai, que já se encontrava no estádio, possivelmente na preleção), e rumava para a Pedra Moura, subindo a Salgado Filho, passando por um escritório de contabilidade que todo domingo de jogos do Bagé, colocava uma bandeira jalde-negra no alto do prédio, depois atravessar a Praça das Carretas e finalmente chegar na Líbio Vinhas, no “arrabalde do Menino Deus”, e ficar mirando o número de carros estacionados nos arredores para fazer uma estimativa do público da tarde. Mais perto do estádio, vislumbrava as três bandeiras tremulando (e sempre estão tremulando em dias de jogo): Brasil, Rio Grande do Sul e Bagé, com seu sol que irradia amarelo e preto desde o canto superior (GEB!), e se espalha pelo pavilhão. No portão (seja de sócios ou da arquibancada), sempre aquele tumulto, por menor que seja a partida: venda de ingressos, produtos, alimentos e - principalmente - os pedidos de ingresso gratuitos e as juras de alguma ligação com o clube (que por motivos misteriosos dariam direito a entrada franca). Alguns levavam...
Depois, é claro, o futebol. Futebol!

Esse era e é, um domingo de futebol, verdadeiramente. Não esses de finais e decisões pela TV, nada contra eles, acompanho da mesma forma, mas são incomparáveis. Os da TV, embalados a vácuo e insossos; os do campo, saborosos, daqueles que engraxam os dedos e o bigode.

Por isso tem algo de (muito) melancólico um domingo sem futebol. Mesmo que o futebol salte por todos os lugares, pela rádio, pela internet, com o Jader Rocha em imagem congelada desde Salvador atrás do Grêmio (neste exato momento, na TV Com)... Mas isso é domingo de futebol para eles, não para nós.

Como sou torcedor do Bagé e resido a uns 220 quilômetros da Pedra Moura, meus domingos de futebol se tornaram mais raros ainda. Salvo quando volto ao pago, ou quando o meu time anda por aqui, a maioria dos domingos é sem futebol, e hoje é mais um deles. Mas hoje é duplamente sem futebol, porque além de estar longe, mesmo que estivesse na cidade, não haveria futebol.
Mas para os dias em que o Bagé está em campo, para mim é um domingo de futebol, graças a internet. Pode parecer paradoxal, mas com o meu time em campo, nada é insosso, e até criei certo “ritual” para acompanhar os jogos, ainda que via computador. Mesmo de longe, também almoço cedo, porque barriga cheia na hora da tensão não é nada agradável. Verifico a transmissão on-line da digna e valorosa Rádio Clube de Bagé, (a única das 6 emissoras da cidade a acompanhar os jogos da dupla Baguá) e a partir das 13 horas já fico conectado. No horário do jogo, um maço de cigarros fechado, cinzeiro, isqueiro e o aviso de “não perturbe” no semblante. Não é de engraxar os dedos, mas é um domingo de futebol, mesmo longe da terra.

E hoje que é um dos domingos sem futebol, assisto Cerâmica x Novo Hamburgo na TV (bom jogo, já na segunda etapa), mas o domingo está tão com cara de domingo, que fiquei com vontade de vir até aqui e escrever sobre os domingos de (sem) futebol.

Aos que podem ter um domingo verdadeiramente futebolero hoje: aproveitem, no nosso caso, nem todo o dia o templo está aberto.




Foto: Flickr, autor: rsapa57

Bagé x Peñarol, em 1981

Bagé e Peñarol possuem coisas em comum que vão além da camisa listrada jalde e negra. Além das cores e disposição das mesmas, os dois clubes, principalmente nos anos 20, 30 e 40, negociavam jogadores e muitos uruguaios que residiam em Bagé, tornaram-se torcedores do Bagé por causa destas coisas em comum, assim como muitos bageenses jalde-negros residentes tanto em Bagé como em Montevidéu, nutriam simpatia pelo "auri-negro" uruguayo. Como por exemplo, em 1954 (28 de setembro), o Penharol comemorou seus 63 anos, num amistoso contra o Bagé, em Montevidéu, partida vencida pelo Peñarol por 3 x 2.

E em 1981, Bagé e Peñarol enfrentaram-se amistosamente na Pedra Moura, estádio do Bagé. Eu já sabia desta partida amistosa, mas o jalde-negro Grégory Ricardo, conseguiu o recorte com a notícia desta partida, veiculada pelo centenário jornal Correio do Sul em Bagé.

Além do final esperado de tal embate entre jalde-negros, é curioso observar a linguagem empregada pelo jornal na época. Transcrevo por aqui, porque a leitura se torna mais fácil que no original, mas abaixo mostro a foto da notícia, com créditos para o Grégory, que aparece no Orkut como "Grégory Ricardo Jalde-Negro". Ao Grégory, meus agradecimentos pelo resgate desta notícia do princípio dos anos 80.


Bagé e Penharol: o empate e a briga no final*
"Terminou em grossa pancadaria o jogo amistoso entre Bagé e Penharol de Montividéu, disputado ontem à tarde no "Pedra Moura", diante de um grande público, que rendeu 424.150 cruzeiros (a preço único de 100 cruzeiros).


Faltavam dois minutos para terminar o jogo quando Orion Sather de Melo suspendeu a partida. Era o segundo sururu, surgido após a agressão de Rodrigues ao jogador Julinho (bageense que jogava na Argentina e que, treinando no Bagé, participou do jogo de ontem).


Formou-se a confusão envolvendo os jogadores. Antes, uma briga entre Rubilar e Pereirano (que havia agredido a Mandarino) resultara na expulsão de ambos. Rubilar (que após a expulsão ficara no túnel) entrou em campo e também envolveu-se na briga generalizada.


Empate em 1 x 1

O jogo terminou empatado em 1 x 1. O Penharol dominou nos primeiros vinte minutos, impondo um futebol rápido e objetivo, mas o Bagé, muito bem postado defensivemente, com o estreante Pedro Caetano entendendo-se bem com Rubilar, não dava maiores chances aos uruguaios.

E quando o Bagé soltou-se mais em campo, tendo Suca como a maior figura, marcou o seu gol aos 45 minutos por Jaci, após defesa parcial do goleiro Carrera, em lance pessoal de Jadir.


No segundo tempo o Bagé dominou amplamente o jogo, principalmente porque começou a marcar melhor na meia-cancha e teve boas alternativas ofensivas, por Jadir e o lateral Xavier.

Leco criou uma situação difícil para o goleiro Carrera mandar a córner. Suca cobrou bem uma falta e o goleiro defendeu.

Tinha ainda o Bagé o controle do jogo quando Zé Carlos cometeu pênalti em Cáceres, aos 42 minutos do segundo tempo. O jogador Silva cobrou forte, de pé esquerdo, empatando o jogo. Aí Silva, de forma anti-profissional, foi provocar a torcida jalde-negra, correndo junto as sociais, o que, sem dúvida, serviu para acirrar os ânimos e dar margem ao segundo sururu, envolvendo os jogadores e até os dois túneis.


Os times
O Bagé teve Mandarino, Xavier, Rubilar, Pedro Caetano (muito boa estréia) e Zé Carlos; Suca, Leco e Denner; Preguinho (discreta atuação, substituído por Julinho), Jaci e Jadir.

O Penharol com Carrera, Bueno (a maior figura do time), Oliveira, Gutierres e Moraes (Fernandez); Bóssios, Rodrigues e Silva; Marcenaro (Cáceres), Peirano e Peres (Carrero).

Arbitragem de Orion Sather de Melo, deixando muito a desejar. técnica e disciplinarmente. Bem os bandeirinhas locais Adélio Barros e Egídio Duarte."
*Jornal Correio do Sul



Abaixo a foto da página do Correio do Sul, tirada pelo Grégory Jalde-Negro:


Este relato me lembrou um outro amistoso que eu presenciei, também entre o Bagé e outro time uruguayo, já em meados dos anos 90. O time era o Miramar Missiones (la "zebrita" - por causa do uniforme de finas listras pretas e brancas - também de Montevidéu, como 90% dos times profissionais do Uruguay) e acabou sendo interrompido em virtude da maior luta campal que eu já vi até hoje, incluso o que já vi pela TV. Foi notícia no Jornal Nacional (rede Globo) na mesma noite (como sempre, só falam dos times do interior do RS se for por briga ou coisas muito pitorescas), e portanto estas imagens devem existir e se eu conseguir achar será tema de outra postagem por aqui.

Hoje os tempos mudaram mas ainda existe a identificação, e o Cônsul uruguayo em Bagé, no aniversário do clube (este ano), declarou-se torcedor do Peñarol no Uruguay e do Bagé, no Brasil, e os dois clubes guardam certas coisas em comum, ainda que com algumas pequenas rusgas, como a da notícia acima.

A dancinha do Fernando Henrique

A Copa Libertadores, como diz um amigo meu, é a "Liga dos Milagres".

E é verdade. Não existe torneio no mundo com tamanha mística, com tantas viradas, com tanta emoção. A Libertadores é futebol em estado puro, genuíno. É tão mística que muitas vezes passa a impressão de que a copa "escolhe" o vencedor. Em certas edições, o torneio cria vontade própria e decreta o campeão.

E isso aconteceu esse ano.

Não durante as duas partidas, duas peladas ótimas de se assistir, com vários gols e centenas de erros de passes. E sim na decisão por penaltis.

Tipo...
a Libertadores já não tem muita simpatia pelos cariocas. Pelo Fluminense então... havia disputado 2 edições, eliminado precocemente em ambas, por clubes não lá muito grandes também. Em 2008, depois de uma mobilização e milhões gastos em contratações, o Fluminense chegou! Venceu São Paulo e Boca Juniors, de modo 'copeiro', raramente perdendo chances de gol. No meio dessas vitórias, a campanha da rede Globo para fazer os brasileiros torcerem pelo Fluminense foi bem fiasquenta, as transmissões foram vergonhosas, com manipulação de áudio para transformar a torcida do Fluminense, historicamente quieta e corneteira, em uma massa de apoio inexpugnável, uma força avassaladora que vinha das arquibancadas "cheirosas" do Maracanã, com muito pó-de-arroz e purpurina.

Chegou na final contra a LDU, clube que vinha fazendo boas campanhas e base da emergente seleção equatoriana. O empate de 5x5 ao final de mais de 210 minutos de futebol levou a Copa para mais uma decisão por penaltis.

Bom, cheguei aonde queria: os "penáis"... quando a vontade da Libertadores se manifestou, após ser zombada.

"Pero, que se pasó, boludo?"

Boludo não, mais respeito! Então, che... acontece que depois de defender seu penalti, Fernando Henrique não comemorou como gente normal - ele saiu dançando. Pois é, o cara defende um penalti na decisão da Libertadores, e sai dançando, requebrando, com sorriso no rosto, tirando sarro da história do torneio, guspindo (sim, com G) na memória de goleiros-heróis como Chilavert, Zetti, Henao, Córdoba e Higuita. Uma cena que gerou vergonha alheia em todo o continente.

Talvez, no Rio, seja tradição comemorar com assim, dançando na boquinha da garrafa. Mas a Libertadores não entende, ela é séria e amarga demais, ela gosta de sangue, gosta da vontade acima da técnica - ela só permite a alegria depois do sofrimento. Ninguém nunca venceu uma Libertadores sem respeitar a sua história e sem se moldar aos seus eternos clichês. O Fluminense quase conseguiu.

Quase.

Seria demais, um exagero, permitir que um clube médio como o Fluminense vencesse a Libertadores dentro do Maracanã. Com o ridículo Renato Portaluppi vomitando asneiras, pior ainda. Com Thiago Neves virando herói, quase impossível. Com a dancinha, o limite foi estrapolado. Não existe seriedade numa dancinha daquelas, não existe nada que lembre futebol de verdade naquela dancinha. Quando Fernando Henrique requebrou, La Copa sentenciou: "no ganaran".

O Fluminense perdeu a final mais fácil da história da Libertadores, e Cevallos, típico goleiro sulamericano (tosco, espalhafatoso, catimbeiro, cabeludo e pegador de penaltis), se tornou o herói da noite.

Ao que só me resta dizer: chora, Pedro Bial!

Ô povo

Brasil 0 x 0 Argentina. E eu não teria um texto que coubesse tudo o que sinto e percebo com o que circula em relação à Seleção Brasileira. Poderia ser um texto cheio de palavras bagaceiras. Não pelo resultado, nem pelo futebol apresentado. E sim pelo comportamento do brasileiro médio que acompanha futebol.

Eu admito, fico irritado. Assisti a partida, os comentários de antes, os durante e as entrevistas após, ao vivo.

O Brasil é singular. Como já disse Parreira, não é a reação do público, porque o público, no Brasil (talvez em outros lugares também seja assim) é a caixa de ressonância da imprensa. Uma imprensa de baixo nível, ao menos neste caso, e nos veículos que acompanhei. Também acompanhei a entrevista coletiva do Dunga após a partida. Direcionada pelos repórteres (para o ponto desejado) e com todos os clichês de sempre. Os jogadores, com alguma ou outra exceção, bonecos de títeres. Acanhados. Respondendo, ou o óbvio ou caindo em pequenas intrigas em virtude das perguntas (como no caso de Adriano). Cagados.

De sincero, Gilberto, que criticou abertamente a torcida por ter aplaudido Messi. Os críticos desta declaração, dizem que bom futebol se aplaude. Mentira. Futebol do adversário só é aplaudido pela torcida adversária. É bonito, admirável, no discurso, apenas lá, na teoria. Na realidade, o aplauso desta noite era para afrontar a Seleção Brasileira. Não entro no mérito, mas gostei da atitude do Gilberto, de falar, reclamar e apontar a nossa torcida canalha. Tu podes dizer “ah, mas a torcida paga seu ingresso...”....Que não vá! Que fique em casa. Que não pague. Mas este é apenas um parágrafo, de um pequeno capítulo, do enorme livro de vergonha que é a torcida brasileira.

Voltando para a imprensa (sei que é horrível generalizar, e a generalização é traço de ignorância, mas em termos de cobertura da Seleção Brasileira, a generalização não fica tão longe do específico), ela tem problema de longa data com o Dunga. Vem de 1994. O Brasil, com o Dunga como capitão e símbolo, ganhou uma Copa do Mundo num 0 x 0. Nos pênaltis. Isto após Dunga ter sido morto e enterrado como jogador em 1990, pela mesma imprensa. Foi o maior tapa na cara que a imprensa esportiva brasileira tomou, como jamais na história deste país, fazendo uma apologia (analogia) com uma frase do Lula. E isto não foi perdoado e nunca será. Crime gravíssimo. Hediondo.

- Mas Dunga como técnico não é o mesmo Dunga jogador!
Mas tudo é pessoal. Dunga não tem experiência, ok. Dunga é mau técnico, pode ser. Dunga nunca treinou ninguém, ok. Mas Dunga é Dunga. E paga por isto, também, mesmo que seja o melhor técnico.

E basta olhar a TV, ler alguns jornais. O tom é raivoso, claro, a comemoração do Dunga em 1994 foi raivosa. As pessoas mais jovens não sabem, mas até 1994, o Brasil ser campeão do mundo era utopia, para as pessoas da minha geração, que começaram a acompanhar copas entre 82 e 86, mesmo sem entender muito...era utopia. A eliminação dramática era o “normal”, como em 2006.
E Dunga acabou com isto. Pior, Dunga, junto com Parreira, meio que acabou com o mito do “perde bonito” de 1982. Bom, eu e uma galera festejamos, entre eles alguns que odeiam futebol de resultado.

Talvez Dunga precise, de novo, erguer uma taça de verdade, raivosamente. Com um fato deste tipo, o povo acalma e com o povo acalmado, alguns cronistas não tem coragem de escrever contra.

No jogo de domingo, contra o Paraguay, vi uma enorme faixa da torcida deles, que falava sobre o orgulho de ser paraguayo. E assim se comportam os torcedores na América do Sul. Menos no Brasil. A última coisa que existe é orgulho de ser qualquer coisa. Ou odeia-se a Seleção Brasileira por ser mercantil, algo assim, ou também odeia-se a seleção por não estar goleando qualquer adversário por 5 x 0. Acham lindo aplaudir jogador adversário, por ser um exemplo de desportividade, e por outro lado, ironicamente, não têm o menor respeito com qualquer adversário, pois só aceitam goleadas como resultado, mesmo num clássico.

Incrivelmente, o comportamento, dos mesmíssimos torcedores, quando o seu clube joga, é diametralmente oposto. 1 x 0 é festa. Ou alguém aqui questionaria um título mundial do seu clube por ser nos pênaltis? Mas com a “seleça”, não. Tem que ser goleada. Que seja assim, mas não mintam.
Todos torcem mil vezes mais por seus clubes do que pela seleção. E depois admiram esta e aquela torcida de tal país. Pura hipocrisia. Da má torcida, nós fazemos parte.

Ao Brasil, pode faltar alma, mas porque o torcedor brasileiro também não tem. Se dividem entre os que exigem goleada sempre, e entre aqueles que acham que não se deve torcer pela Seleção porque os jogadores só querem isto e aquilo, são mercenários, etc. Bom, se vamos deixar de torcer para um ou outro time por causa do tipo de jogador que veste a camisa, então todos os torcedores já tinham deixado de torcer para sua equipe por vários anos.

Resumindo: o torcedor brasileiro é um bunda-mole. Sem fibra, de uma ou outra maneira. Entreguista, hipócrita e mau-caráter (em termos esportivos). Não vele nada.
E este torcedor é que vaia o Dunga. Mas que não fosse o Dunga. Que fosse qualquer um dos jogadores “mercenários”. Não têm o direito de vaiar os que imprimem um comportamento igualzinho aos deles. Primeiro torçam pelo Brasil, de verdade, depois começarão a ter o direito de criticar.

Não é assim nos clubes?

Por isto ainda gosto de assistir os jogos da seleção em casa, longe de bares e aglomerações, onde vejo pessoas mais velhas, que pouco acompanham escalações, torcendo pelo Brasil, pela simples razão de serem brasileiros, com todas as diferenças que temos dentro do país. Onde se torce pelo gol do Brasil, independente da boleiragem que toma conta da seleção, pois eles nem sabem o que é boleiragem ou selenike. Mas torcem pelo Brasil, simplesmente.

E pro Dunga, eu faço coro que largue. Larga, Dunga. Não há vitória que faça saciar este povo. Porque simplesmente, eles não torcem pelo Brasil. Mas, estranhamente, admiram os povos que torcem fanaticamente pelas suas cores....tipo, faz o que eu admiro, mas nunca faça o que eu faço.

Em noites como a de hoje, lendo e vendo tanta coisa, lembro do gaúcho Chico de Uruguaiana, do expresso da vitória do Vasco, e que foi expulso em 9 dos 10 jogos que disputou contra a Argentina. Que foi agredido covardemente por lá, mas enfrentou. Ele tinha esta rivalidade, por ser da fronteira, por ser gaúcho. Na época dele não tinha Rede Globo, qual será o motivo da rivalidade, então? Nossas semelhanças culturais nunca foram motivos para aplaudir adversário. Chico já sabia disto, e cultivava a guerra futebolística dentro de campo.


Eu não odeio a seleção, ela é reflexo do povo. Eu torço é para que ela mude, mas enquanto isto não acontece, eu vejo na unanimidade o meu inimigo. Por isto, eu odeio é a torcida do Brasil. E como sou do contra, sou cada vez mais torcedor da Seleção Brasileira (não dos jogadores, mas da seleção). Não por goleadas. Vitórias magras já me bastam, igualzinho quando torço pelo meu clube, mas vitórias. E 0 x 0 em clássico, a gente (torcedor de clube) faz assim, lamenta os gols perdidos e pensa : “pelo menos eles não nos ganharam”.

Admito que seja difícil torcer por este Brasil sendo gaúcho, mas é mais difícil ser gaúcho vendo uma torcida de mortos assistindo a Seleção e abandonando sempre. SEMPRE.
Viva Chico!

Sábado

Cheguei tarde no Beira-Rio.

Costumava chegar 2 horas antes dos jogos... agora, com a lei seca, preciso chegar mais cedo ainda. O álcool, pro torcedor, é tão fundamental quanto a própria bola no futebol.

Mesmo que o dia frio estivesse com sol, na minha memória ele me parece meio cinzento. A cerveja descia com dificuldade. Lamentei ter esquecido os cigarros - não compro um maço há meses...

A saudação para os amigos foi quase tímida, se comparada às de outros tempos. A quantidade de cerveja também. O clima estava estranho.

"É foda, tchê..."

Dia atipico mesmo: fomos de superior, só pra variar, após anos indo na popular. Lá dentro, estréia do novo técnico.

"Precisamos ganhar, hoje não tem!"

Primeiro tempo acabou - 2x0, e o Edinho marcou um golaço. Bizarro. "Edinho" e "golaço" na mesma frase? Falei que o clima estava estranho.

Segundo tempo foi retranca. O outro time descontou no final. Bela vitória, com raça e tudo que eu poderia esperar pra deixar meu sábado bacana. Mas não vi muitos sorrisos aquele dia. O jogo, definitivamente, não era o que prendia a atenção de todos.

A notícia da manhã nos pegou de suspresa, e não sabiamos como reagir. "Nem falaram o nome dele no jogo", eu pensei, e a torcida ignorou o fato.

Duas horas após o apito final, os amigos sentados numa mesa de posto bebendo, e um silêncio forte no ar - que não era exatamente falta de assunto, mas a presença intensa do tópico do dia, que quase ninguém comentara.

Talvez a perda tenha sido tão grande que a mente recusou-se a tecer qualquer pensamento, qualquer conclusão definitiva sobre tudo aquilo.

Foi tudo abrupto demais. A chegada e a saída. Os últimos 4 anos, as 6 taças, os gols. O choro que interrompeu a entrevista.

Dois dias depois, ainda não tenho opinião. Não quero fazer um texto de despedida, me nego. No sábado, todos dedicaram a vitória à ele. Enquanto nós, no estádio, cantavamos pelo clube, ele ia sozinho pelo Salgado Filho embarcar pro Oriente, pros petrodólares, em algum país obsoleto, onde as pessoas usam panos na cabeça.

Eles passam, todos passam, e só ficamos nós, o coletivo inexorável que é uma torcida de futebol. Sem ter o que falar e olhando para o céu enquanto um avião passa lá longe, na hora do crepúsculo mais belo do mundo, levando com ele parte da história do futebol gaúcho.

Fico com as memórias, a gratidão genuína, e a certeza de que o nosso Sebastianismo tem fundamento: Ele voltará em breve.

A Centúria Celeste

Por: Maurício Kehrwald


Após ir dormir com a cabeça inchada por mais uma aviltante goleada sofrida pelo seu time do coração no semi-clássico regional, Cesinha acordou possuindo a Verdade Absoluta.

Acordou num sobressalto, é bom que se diga. Consciente do impacto que tal revelação causaria ao mundo, ao sentimento de paixão incondicional de cada torcedor, de cada time do globo terrestre pelo futebol em si, Cesinha cogitou omitir.

Além do mais, a Verdade Absoluta era por demais grandiosa (afinal era a Verdade Absoluta) e, como toda a nova revelação revolucionária, haveria de ser desacreditada.

É. O melhor mesmo era calar-se para sempre. O mais ajuizado, o mais sensato, o mais inteligente.

E, por isso mesmo, Cesinha decidiu fazer a grande revelação. Para isso, chamou seus dois comparsas e futuros difusores da Verdade Absoluta: Alex e Alemão.



Sexta-feira, oito da noite, Mesa Magna da sala de reuniões (Snooker do Patinho, mesa de plástico da Polar)


Alemão: Ó, Cesinha, espero que desta vez valha a pena, hein...

Alex: É! Da última vez em que falamos, tu vieste com aquela história de complô da Federação Gaúcha de Futebol pra beneficiar você sabe quem, e, quando perderam, ficou aí inventando mil desculpas...

Cesinha: É que eu tinha um bom informante... conheço um cara que é filho de um conselheiro do clube, e...

Alemão: (levantando) Eu vou embora!

Cesinha: Tô pagando a cerveja

Alemão: (senta-se rapidamente) Vou ficar só pra não dizerem que sou mau amigo.

Alex: Qual é o caso desta vez? Quem está armando contra teu time desta feita? O Talibã, a máfia soviética? (risos)

Cesinha: Russa! É máfia russa. Mas não, não tem ninguém querendo prejudicar o meu time, a não ser, é claro, os de sempre. Hoje vim revelar-lhes A Verdade.

Alemão: A verdade?

Cesinha: Não. A Verdade. Com maiúscula. A Verdade Absoluta.

Alex: Bom, então neste caso, que venha a primeira rodada!

Alemão: É!

Cesinha: Certo, certo (esfregando as mãos) Patinhô, uma Polar grande e três copos. Limpos, desta vez.


Sexta-feita, oito horas da noite mais quatro minutos, mesmo lugar mas agora com cerveja


Cesinha: seguinte, eu fui dormir na noite passada um pouco chateado, devido aos acontecimentos...

Alemão (interrompendo) O sacolaço de 6x0 que vocês tomaram, de novo, do...

Cesinha: (cortando aos gritos) Cala a boca! Eu tô pagando a cerveja e vocês vão me ouvir!

Alex: Fala aí!

Cesinha: Hunpf...

Alemão: Deixa de frescura. Fala!

Cesinha: Todas as Copas do Mundo foram arranjadas!


É preciso dizer que Alex e Alemão levantaram ao mesmo tempo e foi preciso que o Cesinha, além de implorar para que ficassem, prometesse cerveja ilimitada para ambos, a noite toda, até às seis da madrugada.

Caso alguém estivesse consciente até lá, é claro.


Reinício da palestra, oito da noite mais treze minutos, o lugar não muda nem sequer mudará. Mais uma cerveja na mesa


Cesinha: Como eu ia dizendo, quando vocês de maneira muito desrespeitosa interromperam, todas as Copas do Mundo foram arranjadas.

Alex: Tá bom...

Alemão: Todas?

Cesinha: Todas menos uma! Que foi arranjada, mas uma das partes não colaborou. E por isso paga até hoje.

Alemão: Qual é...

Cesinha: Calma! Esta revelação se dará somente mais tarde.

Alex: Olha, Cesinha... que uma ou outra tenham sofrido influência até vá lá, mas... todas... ou todas menos uma...

Cesinha: Provarei através de evidências irrevogáveis, meu caro. Evidências irrevogáveis. Obviamente devo dizer que as regras do jogo do poder mudaram muito durante os anos. Que medidas preventivas foram tomadas em função de determinadas circunstâncias, mas, hoje, temos padrões muito bem definidos de conduta, possíveis campeões, leis de compensação histórica e, é claro, motivações políticas de toda a ordem.

Alemão: Nossa, isso vai longe... ô, Patinhô... mais uma.


Após alguns protestos, discussões de veto às influências políticas e três cervejas além, já passa das nove da noite e o álcool começa a trabalhar na mente dos convivas. Além do mais, ficou convencionado que, antes do arranca-rabo de 45, a coisa era por demais obscura à luz dos fatos e evidências. Cesinha sorriu com a simples menção de tal divisão. E assim ficou acordado entre os três.


Alex: Tá como tu nos explica a Itália ter ganhado a Copa da Alemanha, em 2006?

Cesinha: Europeísmo e compensação histórica. Fácil!

Alemão: como assim?

Cesinha: Os europeus, depois de 58 (e mais tarde darei uma explicação adicional que é a alma da teoria), tomaram uma medida de preservação – que eu chamo de europeísmo – para que jamais uma seleção não-européia ganhasse naquele continente.

Alemão: Tá, mas por que não a Alemanha?

Cesinha: Poderia até ser, em caso de acidente, mas foi a compensação histórica por a Alemanha ter conquistado a de 90, na Itália.


Considerando tal uma evidência ao menos considerável, Alex e Alemão começaram a se interessar mais pela teoria do amigo.


Alex: Tá. Resolvido 2006 e 90. Mas e 2002? O que tem a ver o Brasil com o Japão e a Coréia?

Cesinha: Lembra o que fizeram com a Espanha e a Itália nos jogos contra a Coréia? E o Brasil contra a Turquia! Os brasileiros – sobretudo o Zico – reinventaram o futebol no Japão e como a Copa era fora da Europa, a CBF já havia previamente aceitado perder a Copa de 98 para a França e reconquistar o título quatro anos depois, por predileção nipônica e sob o aval da FIFA.


Novamente Alemão e Alex se entreolham. As coisas começavam a tomar forma. De repente tudo parecia fazer sentido: uma incrível, milionária e mundial manipulação de resultados se mostrava palpável.

Alex queria mais evidências, porém:


Alex: 62?

Cesinha: América do Sul. O Brasil tinha o melhor time. Não tinha como não ganhar!

Alemão: 66?

Cesinha: Inglaterra. Os inventores do futebol nunca tinham conquistado o título-maior do futebol...

Alex: 70...

Cesinha: O time do Brasil era mágico. Talvez o maior de todos os tempos. O Negão tava no auge... mas só ganharam porque era no México. Fosse na europa, teria dado Itália.

Alemão: 54! Final européia! O que tu me diz disso? Hein, hein?

Cesinha: (sorrindo com ares de fidalgo) Bem... primeira Copa do Mundo na Europa pós-guerra... Alemanha em frangalhos... o povo alemão precisava de um alento... de uma nova razão para se orgulhar... de um milagre... um milagre de Berna!


Alemão já estava arrepiado – e bêbado, enquanto Alex não parava de se remexer na cadeira. Tudo fazia sentido. Tudo estava claro! Como haviam sido inocentes! Graças a Deus eram amigos do Cesinha, que tanto subestimavam e que agora mostrava-se, irretorquivelmente, o mais genial de todos deles.


Alemão: Quais Copas faltam... un...

Alex: 74?

Cesinha: Alemanha jogou em casa. Poderia ter dado Holanda. Prevaleceu o fator local...

Alemão: 1978...

Cesinha: A ditadura comprou esta Copa, meus caros. Era na Argentina, eles nunca haviam sido campeões.

Alex: ora, ditadura...

Cesinha: A Argentina ganhou de 6x0 do Peru no último jogo classificatório e foi pra final. O tal do Cruyff se negou a jogar esta copa pois sabia do que a ditatura era capaz.

Alemão: Meu Deus, tudo faz sentido... ô, Patinhôôô, mais uma aqui pra nós!

Alex: 82?

Cesinha: Na Europa. Final entre Itália e Alemanha. Vocês acham que foi por acaso? Com o timaço do Brasil? Precisa ser muito inocente...

Alex: 86?

Cesinha: Copa fora da Europa. Gol de mão. Maradona no auge...

Alemão: 90?

Cesinha: Já falamos de 90, que, além do já dito... bem... foi a revanche de 86, na Europa. Era claro que a Alemanha seria a campeã... ou vocês acreditam que um time que tinha Maradona poderia perder uma partida daquelas e com gol de pênalti ainda por cima...


Houve um longo tempo de silêncio. Todos davam generosos goles em seus copos. Pareciam meditar.

Cesinha estava em transe.

Alex estava perplexo.

Alemão pedia mais uma cerveja.


Alex consultou o velho cebola: nove e trinta e três. Respirou fundo e veio-lhe à mente uma idéia que poderia colocar tão maravilhosa trama abaixo. Não teve escolha:


Alex: Mas... Cesinha...

Cesinha: Sim?

Alex: E 50? O mais óbvio era que o Brasil ganhasse, afinal a copa era aqui, o Maracanã estava estourando gente, o Uruguai já havia sido campeão em sua própria casa...

Alemão: Pois é (gole) em 50 (gole duplo) o Brasil (gole longo) deveria ter sido o campeão!


Cesinha atirou os braços para os lados. Sorriso de Mona Lisa no rosto.

Os amigos perceberam, aliviados, que ele deveria ter uma justificativa para aquilo.

E tinha.


Cesinha: De fato, 1950 foi arranjada para o Brasil ser campeão.

Alemão: Mas como?! E por que o Uruguai ganhou?

Alex: É, pelo visto a sua tese caiu por terra...


Cesinha serviu-se com mais cerveja. Entornou o copo inteiro e produziu um “Ahhh” de satisfação. Prosseguiu.


Cesinha: O Uruguai sabia que deveria perder. Em troca de compensações futuras, como todas as seleções de qualidade e/ou força política. No entanto, alguns homens de muito valor como Schiaffino e Ghiggia simplesmente se negaram a entregar o jogo para o vizinho e rival histórico. Eles sabiam que se perdessem a partida em tais circunstâncias, não perderiam somente um campeonato. Perderiam suas almas.


Houve um silêncio de alguns segundos. Nem o Alemão se atreveu a dar um gole neste lapso de tempo. Cesinha não deixou a bola cair.


Cesinha: Tanto é, que quando o jogo acabou, os jogadores do Uruguai não foram comemorar direto. O juíz apita e alguns deles se olham, como que dizendo: “O que foi que nós fizemos?” Os brasileiros não acreditam no que está acontecendo... e, por fim, 58 foi a compensação histórica por 50. E todos os títulos europeus na Europa foram a compensação desta compensação. Hoje, enfim, temos um padrão bem definido de como a coisa toda funciona.

Alemão: (já completamente alcoolizado, mas juntando forças para formar uma frase completa) Mas Cesinha... o Uruguai não deveria ser punido?

Alex: (com olhos arregalados) Meu Deus... o Uruguai... nunca mais ganhou nada... ficou fora de muitas e muitas Copas do Mundo... é eliminado em repescagens contra times de Rugby... Cesinha, meu querido: eis a Verdade Absoluta.

Cesinha: Sim, mas tal punição tem prazo, meus queridos...

Alemão e Alex: Tem?!

Cesinha: Sim, 100 anos.

Alex: 100 anos?! Mas...

Cesinha: Sim, a punição tem um nome: Centúria Celeste.

Alemão: Centúria Celestre...

Alex: Centúria Celeste...

Cesinha: É. Centúria Celeste. Até 2050, pelo menos, o Uruguai não ganhará uma Copa do Mundo sequer. Este é o preço que pagam por não terem vendido suas almas.


Alemão, mais por bebedeira que por amor à República Oriental, tinha lágrima nos olhos. Alex estava em êxtase. Cesinha sorria, superior.


Cesinha: E saibam que esta é somente a ponta do iceberg. Citei as Copas do Mundo pois trata-se da vitrine do futebol. Até aqui, no nosso certamente gaúcho há manipulações de toda a ordem e que vocês não enxergam porque não o querem...


Obviamente a esta altura do campeonato qualquer coisa que o Cesinha dissesse seria lei. O brasileiro (gaúcho ou não) tem verdadeira tara por uma teoria conspiratória. E quanto mais conspiratória e mais inverossímel, mais digna de crédito!


Alemão: (recuperando por alguns segundos a sanidade e a sobriedade) Patinho, vê mais uma... ô, Cesinha, perdão por ter duvidado de ti... mas agora conta, sério, o que o campeonato gaúcho nos reserva? Quem será o campeão?

Cesinha: pois bem, estas derrotas que meu time vem sofrendo são embustes, disfarces para despistar o grande público. O campeonato já está comprado para nós por nosso futuro novo patrocinador. Já tá tudo certo!

Alex: Como é que é?!

Cesinha: Exato. Já tá tudo certo! Uma grande empresa multinacional patrocinará o glorioso. Compraram este campeonato junto à federação e aos times de capital por uma fortuna e alguns favores futuros que, agora, não posso revelar, por favor não insistam (ninguém haviam feito sequer menção de insistir). Ano que vem o patrocinador entra oficialmente no time que é campeão gaúcho e – por favor, é segredo, viu – campeão da Copa do Brasil deste ano também e ganhará muita mídia... como eu disse, já tá tudo certo!


Alex e Alemão estavam perplexos. Beberam muito até o amanhecer. Cesinha sentia-se um deus.


Nas semanas que passaram, nosso profeta-futebolístico teve tratamento de Rei pelos dois amigos (e pelos amigos dos amigos que ficaram sabendo dos fatos). Cesinha não pagava mais cerveja nem entrada em lugar que fosse. Celebridade: era isso o que Cesinha se tornara entre os fanáticos da bola naquela cidade e assim era tratado por todos.


O clube do coração de nosso filósofo do esporte bretão chegou – como não poderia deixar de ser – à final do Campeonato Gaúcho. Todos em polvorosa. Primeiro jogo da final na casa do glorioso (no interior do estado), segundo jogo na capital.

A primeira partida acabou em 1x1. Após o término, numerosa audiência no Snooker do Patinho. Cesinha chegou – com a camisa do clube – e, após ser rapidamente cobrado, respondeu com ares de despreocupado:


- Já tá tudo certo! Querem exposição maior na mídia do que uma vitória épica fora de casa?


Todos se calaram, envergonhados. De fato, Cesinha estava num patamar acima dos demais. Eram todos medíocres nos conhecimentos do futebol. Menos ele, o Escolhido.


Todos beberam à saúde do amigo.

Cesinha, a essas alturas, tinha copa livre na casa.


Domingo, cinco horas da tarde mais três quartos, finalíssima do Gauchão, Snooker do Patinho, todos os amigos, conhecidos e admiradores do Cesinha presentes. Cesinha estava na capital, vendo o jogo no estádio.


O juíz apita o final do jogo. Time da capital 4, time do Cesinha 0.

Apesar de seu time ser o campeão, Alex está revoltado. Quer tirar satisfações.

O celular de Cesinha está desligado, mas pouca diferença faz. Ele nunca mais irá ligá-lo. Cesinha sequer voltou para sua cidade. Está morando com uns primos e – dizem – até já arrumou emprego.


Patinho está revoltado: quer cobrar todas as cervejas que Cesinha tomou quando ainda era ídolo.


Alemão e Alex não vêem a hora de encontrar o Cesinha: querem surrá-lo até a exaustão. Todos os seus amigos lhes viraram as costas, por professarem tamanho despautério, esquecendo, é claro, o fato de também terem dado crédito e divulgado tal tese.


É, pode ser que o castigo para o Uruguai não dure tanto, mas o Cesinha, ah, o Cesinha sim, vai curtir um longo exílio.

E pensará 2 vezes antes de falar qualquer coisa que seja, principalmente sobre futebol.


Cesinha, já tá tudo certo: sua carreira acabou, garoto!

Que paliza que te deram

Aqui no blog, há algum bom tempo, abandonamos os comentários diários ou sobre fatos pontuais do futebol atual. Escrevemos (?) sobre o futebol genericamente, ou sobre "periféricos" futebolísticos, como apropriadamente denominou o Maurício.

Mas hoje quero fazer um breve comentário sobre o jogo Flamengo x América, pelas oitavas-de-final da Libertadores da América 2008. Aliás, após o resultado, pode-se chamar o fato Flamengo x América. Poderia estar escrevendo sobre o 8 x 1 fora-de-série da final do Gauchão, mas isto todos já sabem, é exceção no futebol. Goleadas já são difíceis de serem aplicadas, e muito mais quando extrapolam o sexto gol (não me perguntem o motivo de respeitarem a marca de 6, que o Inter acaba de ultrapassar também). Então esta final de Gauchão é um fato diferente. A derrota do Flamengo de ontem, não. Se não é vulgar, ao menos não é rara. Todo os ano, em algum campeonato pelo mundo acontece algo parecido. E mesmo assim, sucedem-se os ingênuos e invariavelmente perdem.

Eu, sinceramente, não tenho a menor idéia de quando os gestores e jogadores do futebol irão respeitar - não o adversário - mas o futebol. Não é ser pessimista ante a um confronto (o Flamengo havia aplicado um humilhante 4 x 2 no jogo de ida, no México), mas basta olhar alguns confrontos do ano passado, quem sabe até no mês passado, para observar que o imponderável pode acontecer dentro do próprio campo.

Mas o Flamengo, de alguma maneira, mais uma vez cometeu este erro, o que reforçará a estatística, mas tenho certeza, não reforçará os devidos cuidados em situações similares. Ano que vem teremos outra situação assim, quem sabe mês que vem. Porque vislumbram camisas, e não o futebol. Não será o primeiro, nem o último, e possivelmente o próprio Flamengo recorra no erro.

Na entrevista de despedida, um ponderado Joel Santana falava sobre as lições que a Libertadores apresenta. Mas talvez tenham esquecido, que não é apenas na Libertadores, mas no futebol é assim. A palavra mais recorrente que encontramos para descrever isto, talvez por falta de outra mais apropriada é soberba, ou na gíria futebolera, salto-alto. Não acho tão simples assim, apesar disto contribuir bastante. Olhando os lances da partida, os gols do América, quase chega-se a perceber alguma presença mística, mal-humorada e sarcástica. Se um dia me disserem que estes fatos são comandados por um ente futebolero, terei dificuldades em duvidar.

Mas assim é e sempre ocorre e continuará ocorrendo. A tal caixinha de surpresas é impiedosa e gosta de tragédias contra os que esquecem da essência. Certo, esta estava de alguma forma anunciada (pelas festas anteriores), mas 0 x 3 ? A medida exata.

No México estão chamando de "
Novo Maracanazo". Eu chamo de futebol, e que bom que seja assim. Se duvidarem de mim, conversem com o Leprechaun. O Flamengo o perdeu de vista por alguns segundos, como muitos já fizeram, e bastou. Afinal, é futebol.


Alguns clichês do futebol

Que o futebol é recheado de clichês, é um clichê afirmar.
Mas alguns soam mais irritantes, porque escondem a realidade e fica como verdade.
No jornal Zero Hora de ontem, o jogador Nilmar ao comentar sobre a derrota do Inter contra o Paraná pela Copa do Brasil, declarou:
- No futebol brasileiro não dá tempo de ficar triste, é um jogo em cima do outro.


Ora, na Europa os jogos se dividem entre quarta e domingo também. Nos finais de semana os campeonatos nacionais e nas quartas, as copas de cada país e as competições continentais. Não que o calendário no Brasil seja melhor que o da Europa ou perfeito, longe disto, mas o intervalo de dias do jogo do Paraná e do Gauchão é perfeitamente normal, considerando-se qualquer calendário. E não é só jogador que repete isto, na imprensa também, e dando a nítida impressão que não há jogos nas quartas na Europa.

Outro destes clichês europeus é sobre a adaptação ao frio. Ok, jogadores de São Paulo para cima no mapa brasileiro podem estranhar. Mas um jogador do Sul, que chega lá na primavera (por exemplo) dizendo que a dificuldade era o frio, parece que estava sob 40º graus aqui. E eu vi uma entrevista neste sentido, há alguns anos atrás. Mais uma vez cabe esclarecer: todos sabem que na Europa, no inverno, o frio é muito mais intenso que no Sul (se bem que depois de 0º grau, é tudo “frio”, tirando a dificuldade nos países que jogam com campos cobertos de neve). Mas nas entrevistas, passam a impressão que saíram de uma vida inteira jogando com 45º de temperatura, e foram jogar diretamente no pólo norte. Qualquer dia algum jogador brasileiro reclama da dificuldade de adaptação ao idioma em Portugal.

Terceiro clichê e deliberadamente repetido por imprensa e jogadores: o tal do “campo pequeno”. Em qualquer empate ou jogo difícil no interior, sempre aparece um comentário de jogador e da imprensa: “neste campo pequeno é complicado”.
Sim, existem campos pequenos no interior. Mas existem campos de todos tamanhos e por maior que sejam as medidas do gramado, as declarações serão as mesmas. Isto porque a arquibancada sendo acanhada e perto do gramado, o campo “é pequeno”.
Sobre este ponto, vou fazer outro tópico, com ajuda do Google Earth, comprovando que muitos clubes do interior, têm estádios pequenos mas campos da mesma dimensão ou maiores do que os da dupla Gre-Nal. Já fiz a verificação, mas de maneira desorganizada, quanto fizer a relação completa irei postar aqui, vale um tópico.

Quarto clichê, mas não menos importante: um time “menor” que o adversário, após a vitória, sai aos microfones: “isto é para provar para aqueles que nos menosprezaram que...blá blá blá”. Na realidade atual, ninguém dá declaração menosprezando adversários (apesar de eu querer ver mais declarações deste tipo, sinceras) , mesmo que menores historicamente.
Mas atualmente, ainda que respeitem o tal adversário menor, em caso de vitória deste, invariavelmente ele virá ao microfone de alguma rádio ou TV: “esta é a nossa resposta ao..blá blá blá”.
E mesmo que não haja uma linha escrita ou uma declaração que desmerecesse a porcaria do time, os jogadores do time “menor” saem falando isto.
Acho que eles deveriam dizer: “esta é a nossa resposta ao nosso próprio treinador, que no vestiário disse que se não jogássemos a nossa vida hoje, perderíamos de 8 x 0 “. Seria mais honesto e engraçado.

Existem dezenas, talvez centenas, de outros clichês no futebol, mas estes são alguns dos que mais irritam, porque não são simples chavões ou frases feitas, mas escondem a realidade. Por isto, coloco-os como os mais irritantes.
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