A descarga

No Jogo do Bicho, uma manobra utilizada pelos bicheiros era a “descarga”: se um apostador jogasse uma quantia muito alta para determinada praça, o que geraria um prêmio altíssimo, o mesmo jogo era feito pela banca em uma praça maior. A intenção era evitar a “quebra da banca”.

Aqui no Rio Grande do Sul ocorre algo parecido no futebol. Com as redes de comunicação do centro do país destinando a maior parte de sua cobertura para times de Rio de Janeiro e São Paulo, a grande imprensa gaúcha ( principalmente a TV) faz uma espécie de “descarga”, há muito anos, no interior do Estado. E não só a imprensa, mas os grandes clubes também. Então tudo aquilo que a dupla Gre-Nal reclama, tanto da imprensa como de arbitragens e CBF (STJD), praticam em escala menor (para eles) nos seus domínios.

O resultado disto vai muito além de problemas com arbitragens para os times do interior gaúcho, mas passa principalmente pelas fórmulas que são feitas com exclusiva preocupação com a dupla Gre-Nal e suas competições maiores, e principalmente, pela formação de novos torcedores.

Se tratando da fórmula, todos sabem que para os grandes da capital, seria inviável economicamente um campeonato mais longo. Entretanto para os times do interior, o campeonato é muito curto, e no restante do ano sobram apenas o ócio ou a Copa do segundo semestre, sempre pouco valorizada e mal trabalhada. Este é um problema que a solução envolve muitos fatores, contribuindo para sua permanência o tamanho territorial do Brasil. O ideal seria que todos os clubes em atividade estivessem inseridos em uma competição nacional, não importando a divisão, mas com um calendário anual e bem organizado. O problema é que a partir de certo ponto, se torna inviável dadas as distâncias que teriam que ser percorridas, e o dinheiro para custeá-las, inversamente proporcional.

O que sobra para o torcedor do interior o resto do ano, é assistir à exaustão a dupla Gre-Nal disputando grandes competições, e o futebol do interior quase não divulgado, inclusive nas próprias cidades, efeito do massacre de informações da Dupla, que chegam via televisão, TV a cabo, grandes portais, grandes rádios e grandes jornais. O torcedor não acompanha o time da cidade, passa a não consumir os produtos do time da cidade (que a partir disto passa a oferecer menos produtos, por falta de dinheiro e patrocínio), e alimentando este ciclo, a imprensa diminui ainda mais a cobertura do time local e/ou do futebol do interior gaúcho...na sequência , menos torcedores se importam como anda seu time, e assim continua.

A dupla Gre-Nal, ajudada pela imprensa, faz sua “descarga” no Interior Gaúcho. É ali que conseguem expandir mercado. Com a valiosa ajuda da imprensa, principalmente televisão. A mesma imprensa que é acusada de ser “pró-Eixo” (RJ e SP), aqui no RS faz exatamente o mesmo, só que contra os times do interior, times que têm muito menos condições de lutar contra isto do que os “coitadinhos” da Dupla.

Hoje à tarde, no jogo Inter - SM x Grêmio, uma pequena mostra disso. Uso o jogo apenas como exemplo recente, mas sei que isso ocorre por todo o Interior Gaúcho, em menor ou maior escala, dependendo da cidade.
Atrás das duas goleiras, torcedores do Grêmio. Num dia de semana, ingressos por 30 reais, uma das arquibancadas lotada por torcedores do Grêmio, e a outra com um bom público, ainda que não lotada. Já a arquibancada em frente às sociais, onde ficaram os torcedores do Inter-SM, cheia de espaços e clarões. Poderia ser uma coisa absolutamente trivial, se não fosse o fato de que, aqueles clarões produzidos na arquibancada do Inter-SM, eram justamente porque centenas de “locais” entupiam a arquibancada gremista, inclusive com uma faixa atrás do gol, orgulhosamente (?) mostrada. É óbvio que também estavam ali torcedores de outras localidades, principalmente de pequenas cidades adjacentes, e outros de Porto Alegre, mas não diminui o fenômeno.

Pelo acima escrito, há que se entender que a superexposição da Dupla nos meios de comunicação gaúchos causam este tipo de resultado e isto e aquilo .......mas eu não entendo mais.
Ver o time da própria cidade peleando com o que não tem, contra um time que tudo possui, inclusive os moradores da própria cidade interiorana, não se comover e continuar e vestir uma camisa ‘’estrangeira’’, e a entoar cantos contra o time que, muitas vezes, foi construído por seus antepassados? Já seria de uma imbecilidade extrema, mas transcende isto e torna-se uma grande traição, não há outra maneira de qualificar isto. E aí restam apenas as migalhas do que já era farelo.

E assim, pagam 180 reais por uma camisa do time da capital, e não pagam 80 pela camisa do time da cidade. Associam-se (mesmo não indo na maioria dos jogos), criam consulados, excursionam, debatem na internet, tudo porque na TV as imagens são sedutoras. Para o time da cidade, reclamam quando pagam um ingresso de 10 reais, e quando pagam, vão para tela exigir elenco igual ao que eles se acostumaram a torcer pela TV.

Se essa situação que é quase surreal fosse vista de outro modo, beiraria o ridículo. É como se uma família miserável deixasse de comprar algo da alimentação diária, para colocar os poucos reais economizados na caixa de correio de um vizinho bastante rico. E quando o vizinho rico trocasse de carro (pela 3ª vez no ano), essa família se amontoasse emocionada, abraçada e entre lágrimas, a gritar no pátio de terra batida: “arrá, urrú, temo carro novo!”. O vizinho, que está indo estrear o carro, agradece a comoção sem sentido com um leve toque de buzina.

Parafraseando um grande escritor, “Longa é a jornada de um imbecil até o entendimento”. Aí, para o cúmulo, o interior tem que ler frases do tipo: JAMAIS NOS MATARÃO (e frases similares, nas torcidas da dupla Gre-Nal). Mas é óbvio que jamais matarão nenhum dos grandes da capital, que vampirizam no interior aquilo que reclamam por perdido no centro do país.

Mais um Gauchão teve início, a Segundona começa em março, e ano após ano se repetem as mesmas coisas, os mesmos comportamentos e com isso o definhamento dos clubes locais. O que começa a mudar, e é negativo igualmente, é que agora, com a TV também dedicando enormes espaços aos grandes europeus, estão aparecendo muitos adolescentes (e alguns adultos) “torcedores” de manchesters e reias madrids, aqui no Brasil, e consumindo produtos destes times.
O interior que trate de manter seus últimos torcedores, porque vem por aí mais outra “descarga” dos tão infortunados e perseguidos times da Capital.

9 comentários:

André Kruse disse...

Então tudo aquilo que a dupla Gre-Nal reclama, tanto da imprensa como de arbitragens e CBF (STJD), praticam em escala menor (para eles) nos seus domínios.

Concordo quase que integralmente com o texto.

Só acho que é importante ressaltar que a relação/proporção não é a mesma.

Por exemplo:

O Grêmio é 10 vezes maior que o Inter-SM.

Mas o Corinthians não é 10 vezes maior que o Grêmio

George disse...

Concordo, André. Exatamente por isso eu disse que a briga é muito mais desigual aqui no interior do RS, até porque Grêmio e Inter brigam de igual pra igual com os times de RJ e SP, são do mesmo "tamanho" que os rivais.

Saracura disse...

Onde eu assino? Concordo em número, gênero e grau.

"Support your local team"

Leo Garcia disse...

O que a CBF deveria a fazer (e de repente está no caminho disso), é fazer divisões menores regionais, como faz a Espanha, por exemplo. Se não me engano a nova Série D desse ano já será regionalizada. Mas poderia rolar até uma série E, quase que praticamente estadual. Daí os classificados e campeões daí subiriam para a D (com menos times que a atual que deve ter uma penca).

Maurício Alejándro Kehrwald disse...

Comecei a contar um causo aqui, mas te mando por mail, aí tu publica e nunca mais receberá a visita de um juventudista no blog.

Abraço

Iarima Redü disse...

Teu texto foi escrito magistralmente e eu concordo com ele.

Sou de Pelotas e aqui vejo bem essas diferenças entre torcedores da dupla GRE-NAL e torcedores do Pelotas e do Farroupilha, mas temos aqui o Brasil de Pelotas... Acredito que é uma das únicas torcidas do interior que, de fato, se preocupa com o time e consome seus produtos. Nem preciso citar nada, certamente todos sabem da tragédia que aconteceu nesse mês e da desolação da torcida ante a morte dos três profissionais - principalmente o maior ídolo da história do clube, Cláudio Milar.

O que pode não ter sido muito divulgao]do foi a mobilização da torcida para a reforma do estádio Bento Freitas. O estádio teve as telas trocadas e vai passar por mais mudanças e tudo veio com o dinheiro que a torcida conseguiu através de inúmeras iniciativas.

Como diz meu irmão, xavante "roxo", eu sou uma torcedora mista pois torço pelo Brasil e pelo Grêmio, entretanto essa divisão não é suficiente para que eu perca perspectiva e não perceba a verdade de teu texto.

Voltarei aqui mais vezes.

Abraço.

Luis Felipe C.D. disse...

Feliz texto, mas infeliz comentário de Iarima.

Mais uma vez temos que aguentar os xavantes crendo-se os donos do interior.
lamentável, para uma torcedora que diz que seu time é o único da cidade e uns dos poucos do Estado que realmente se preocupa com seu próprio time. talvez seja falta de conhecimento ou pura avareza, característica da antes, muuuoito antes fiel torcida xavante (como seu próprio Presidente declarou), mas o Pelotas tem nesses últimos 4 anos, maior média de público que o brasil. claro que quando vem os grandes da capital o bento freitas fica cheio, afinal, até emprestar seu estádio e torcer junto com o Grêmio os xavantes torcem.
Não vejo nisso, como não vejo a anos e anos, esse tal comprometimento e fidelidade xavante.

Frank disse...

"mas o Pelotas tem nesses últimos 4 anos, maior média de público que o brasil."

Claro a Copa FGF não conta, não é?
2007 tivemos a média de mais de 8000 pagantes na Copa FGF, na qual vocês não participaram, e os públicos pífios no inicio da Lupi Martins? devem ter dado uma excelente média ao Pelotas este ano.

Mas o texto esta excelente e convido a todos a participar da comunidade : http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=195605 Anti-Grenal.

Anônimo disse...

Na verdade o problema está em valorizar o pequeno... ou seja, valorizar o campeonato gaúcho, perante o campeonato Brasileiro. pq não criar uma Série E brasileira, onde seria disputado apenas os estaduais, assim garantindo a vaga para a atual Serie D? o campeonato poderia ser disputado por mais, meses, e o objetivo dos clubes, seria alcançar as divisões não regionalizadas. já que na série E, não haverá disputa com clubes de outros estados.
Existe muitos clubes no interior, que querem só disputar gauchão, não almejam Campeonato Brasileiro. pq? não deveria ser ao contrario? o campeonato brasileiro não deveria ser mais importante?
É hora de evoluir o futebol brasileiro, e os regionais, só atrapalham.

OBS: sou anti-grenal. meu time está no gauchão.

Postar um comentário

top