Das canchas retas às 4 linhas

Existe no município de Pinheiro Machado (RS), um distrito chamado Torrinhas.Belíssimo lugar, onde pode ser visto ainda os últimos remanescentes dos mais xucros costumes gaudérios. Eu conheço o lugar porque um amigo meu, o Luciano, possuía uma estância por lá, e algumas vezes visitei o lugar. O avô deste meu amigo possuía também uma “cancha reta” (local destinado à corrida de cavalos) na localidade, talvez único local de diversão da galera nos finais de semana. Semana passada este meu amigo me visitou e relembrou algumas histórias que presenciou no estabelecimento de seu avô, histórias insólitas e muito engraçadas, e os personagens, figuras que ainda guardam o que de mais autêntico há na cultura gaúcha.
Os relatos são incríveis, e vão desde dos hábitos etílicos dos freqüentadores, até peleias lendárias em virtude dos jogos que por lá ocorriam (jogo de osso, carteado, cancha reta, etc).


Nada envolvia futebol, para que eu relatasse aqui, até que ele lembrou de um jogo, um pequeno fato, mas que demonstra bem como a cultura local invade o futebol. Ocorre em todos os setores, mas o futebol é prodigioso no que diz respeito a incorporar a “localidade” na prática de um esporte que é internacional.

O jogo corria normalmente para os padrões deste rincão, muita pechada, canelada, berros dos jogadores e da assistência, futebol cru, a essência do que hoje chamamos de “futebol força” – futebol à força. Com os exageros das divididas, a coisa foi ficando mais ríspida que o normal, e os jogadores de ambas as equipes já deixavam a bola e a marcação do gol para o plano secundário: virou caça ao adversário. Nada que preocupasse platéia e “comissões técnicas”, era normal que os jogos terminassem assim. Mas em alguns casos, até o mais rude zagueiro pode ficar preocupado com o parceiro de equipe.

Lá pelas tantas, numa dessas “divididas”, um zagueirão que só dava bico pra longe, jogando sem camisa, com o cigarro apertado entre os dentes, ao ser driblado por um atacante, não vacila: em velocidade, acerta um chute potente, mirando apenas a perna do “driblador”, que já ia disparar em velocidade (o segredo dos atacantes destas bandas é a velocidade, muito mais que a técnica... dá pra entender).
A câmera é lenta. O grunhido é de ambos. Um solavanco e o vôo. E o que assustou a todos, inclusive os que estavam acostumados com estes jogos domingueiros de futebol: um “CRAC”!
Um barulho horrendo para sair da perna de alguém. Um som de osso estilhaçado, mas muito estilhaçado. Já pensavam em rumar pro hospital mais próximo.
O atacante, rola, a pancada fora realmente muito forte, uma, duas, três vezes...cai inerte por uns bons 5 segundos de apreensão e levanta, mexendo na meia atingida.
A platéia está atônita, e fica mais surpresa ainda quando o jogador saca de dentro da meia, rindo, pedaços de uma telha Brasilit. Era a “caneleira” do sagaz atacante que havia espatifado. A canela, “intacta”, considerando a violência da pancada.
Primeiro, gargalhadas, depois aplausos efusivos da claque.

Eu apenas lamento não haver imagens destas pérolas que ocorriam nos campos do sul.

Das frases que marcam

Esta postagem é via "Frases Futboleras".
Mas a frase foi quase uma história, ou uma história, realmente. Reproduzo a frase aqui, em espanhol, pois postar ela traduzida seria um crime. Lendo vocês irão entender.

Então, que fale José Luis Calderón*:

"Hace unos años fui con mi pibe a una compra venta de un amigo de la infancia, de la villa. Bueno, llegué, un lío bárbaro, nos fuimos a tomar unos mates. Y ahí, entonces, el tipo me dijo que no tenía sillas.

"Y pasame un cajón, boludo", le tiré.

Al rato mi pibe pidió una gaseosa y mi amigo me dijo que no tenía vaso de vidrio.

"Y que tome del pico", le contesté.

Y así... Cuando nos fuimos mi pibe me dijo: "Papá, son muy pobres".

Paré el auto en seco. Lo miré.

"Escuchame una cosa, pendejo de mierda y la concha de tu madre, qué te pensás que sos, ¿millonario? ¿Sabés dónde vivía yo, pelotudo?", le dije.

Y lo llevé a la villa. Y le mostré mi casa, con el baño [banheiro] a 30 metros. Ahora se adapta a todo".


E o que tem isto com futebol? Tudo.

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* O autor da frase é José Luis Calderón, jogador argentino, e podem saber mais dele na Wikipédia, em:
http://es.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Luis_Calder%C3%B3n

Prêmio Blog Solidário


O Puro Futebol recebeu uma indicação ao Prêmio Blog Solidário. A indicação é feita por outros blogs de futebol, que contribuam com a internet futebolera (sem incentivos financeiros), e no nosso caso, quem nos indicou foi o blog Futebesteirol. Agradecemos sinceramente a indicação e abaixo vai a lista das indicações do Blog.

Ao fazer esta lista notei duas coisas: que a maioria dos blogs que lembrei são argentinos, mas resolvi deixar assim mesmo porque na verdade sou relativamente um novato na blogsfera, e talvez por isto a minha lista de leitura não seja extensa. E a segunda coisa é que de blogs brasileiros, pouco leio além dos blogs relacionados na lista de links ao lado.
Tenho que ler mais os blogs futeboleiros nacionais, tem muita coisa boa pra ser lida, certamente.

Novamente, muito obrigado ao Futebesteirol.


Dêem uma passada pelos blogs (mesmo os em língua espanhola), são bem interessantes.

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* Condiciones y bases de participación:
1.- Escribir un post mostrando el PREMIO y citar el nombre del blog que te lo regala y enlazarlo al post que te nombra. (De esta manera se podrá seguir la cadena).
2.- Elegir un mínimo de 7 blogs que creas que se han destacado alguna vez por ayudar, apoyar y compartir. Poner sus nombres y los enlaces a ellos. (Avisarles).
3.- Opcional. Exhibir el PREMIO con orgullo en tu blog haciendo enlace al post que escribes sobre él y lo otorgas a otros.

Mudanças no visual do Puro Futebol

Pessoal, tive que alterar o "template" do Puro Futebol para estes que vocês estão vendo agora. Uma pena, porque gostava bastante daquele anterior, que era "limpo" e com detalhes que também gostava.
Não mudei por vontade própria, é que na última semana as postagens apareciam "desformatadas", os links foram para o final da página e ficou muito desorganizado, apesar de eu não ter alterado nada (acho que o blogger danificou o modelo anterior).
De qualquer maneira, salvei o "código" do visual anterior e se os problemas acabarem, retornarei com ele.
Por enquanto fica este, que não gosto, mas admito ser bem mais fácil manipular.
E na verdade o principal é o texto (rogo!), mas um "layout" que não me agrada tanto é irritante.
É mais do mesmo com as cores diferentes, peço a compreensão de todos.
Mas saliento: foi uma mudança compulsória.

Sem luz no fim do túnel

A notícia do leilão do estádio do Gaúcho de Passo Fundo foi veiculada em vários sites e vocês podem ter um resumo da história no blog Futebesteirol.
No caso específico do Gaúcho há ainda uma tragédia acontecida nas piscinas do clube, indenizações não cumpridas, etc., mas o clube se junta ao melancólico cenário que vive o futebol do interior do Rio Grande do Sul, de maneira geral.
A penúria se traduz nas finanças mas também, e talvez principalmente, resulta da “globalização” das torcidas do interior. O mal só não é maior, porque diferentemente de outros Estados, o torcedor do interior gaúcho quando torce por outro “grande” que não seja de sua cidade, opta por Inter ou Grêmio, diferentemente do acontece em vários outros Estados, com torcedores apoiando times do Rio de Janeiro e São Paulo (como acontece na maioria dos Estados nordestinos, por exemplo).
Mesmo assim, os efeitos já são visíveis deste abandono por parte dos torcedores dos times do interior gaúcho. A sedução de torcedores do interior é fácil de entender: de um lado a fartura de títulos e mesmo na ausência destes, a televisão consolidou as marcas da dupla Gre-Nal, e o que ocorre no interior (na melhor das hipóteses) é que o torcedor tem sempre o clube da cidade como preferido e junto a este faz a opção por um time da capital. Há casos de torcedores que se dedicam com a mesma paixão para seus dois clubes, mas infelizmente na maioria das vezes o clube do interior é relegado a um segundo plano. E ainda se não bastasse a influência da TV, a dupla Gre-Nal descobriu o caminho do marketing e através dele atrai associados do interior do Estado, venda de artigos dos clubes, etc.
E o futebol do interior também não se ajuda. Pouco ou nenhum marketing, administrações falhas e poucos abnegados tentando tocar o barco, cada vez com menos “tripulantes”. A exceção é o Juventude, que inicialmente cresceu com a parceria com a Parmalat e depois dela se sustenta com a participação no Brasileirão.
Uma pena este definhamento do futebol do interior, pois inclusive a partir dele a dupla Gre-Nal construiu seu estilo de jogo, o futebol gaúcho se tornou o que é a partir dos campos do interior.
As perspectivas são as piores. Todo início de Gauchão há a polêmica sobre o número de jogos ser excessivo para a dupla Gre-Nal, que usarão reservas na maioria das partidas, etc. Por outro lado, há o discurso que nenhum dos grandes quer perder o Gauchão e que é sempre bom ganhar do tradicional rival. O resultado na prática é que os clubes do interior que disputam a primeira divisão do Gauchão, tem futebol por apenas 3 meses (para os que passam da primeira fase), e depois um longo recesso que vai até setembro, onde disputam a Copa FGF (este ano denominada Copa Paulo Rogério Amoretty, em homenagem ao ex-presidente colorado), copa que é desvalorizada pelas próprias torcidas do interior, talvez porque a dupla Gre-Nal não participe com seus times principais. Para os que disputam a Segundona, aí o calendário é maior (março-setembro), mas o campeonato é deficitário ao extremo.
O problema é que os times do interior da 1ª divisão concordam com este calendário. O torcedor do interior fica com 3 meses de futebol, e depois assiste fartamente jogos da dupla Gre-Nal, em torneios muito mais importantes, em estádios melhores, em jogos mais decisivos e acompanha pelos jornais, rádios, internet, conversas de boteco tudo sobre a dupla Gre-Nal. O time dele, do interior, esquecido. Por 9 meses. Uma gestação. A gestação da paixão por outro clube que não o da sua cidade. Mas os clubes, por um motivo, inevitável ou não, aceitam o calendário proposto, ano após ano. E suas torcidas definhando, em número e em fanatismo.
O interior também comete o erro de não cultuar seus ídolos. Para ser ídolo, só se não for da cidade. Só se aparecer na TV e falarem na rádio da capital. Então lotam cinemas para assistir partidas da dupla, mas não colocam uma arquibancada cheia em jogos do time da cidade. A camisa do clube da cidade é “cara” (isso quando as direções disponibilizam nas lojas especializadas), mas não pensam duas vezes em pagar R$ 150, R$ 180, por camisas de “times grandes”, até europeus. E assim alimenta-se o círculo vicioso.
Não é nada bom o futuro de todos os times do interior do Rio Grande do Sul. Que esqueçam o Gauchão (que dá no máximo uma partida de casa cheia numa semi-final qualquer) e que lutem para disputar a Série C do Brasileiro para a partir daí, quem sabe um dia, chegar na Série B nacional, está sim, muito rentável para o clube (se tratando de um time interiorano).
Então o SC Gaúcho tem seu patrimônio perdido e fecha suas portas, mas está acompanhado de muitos outros que só não estão formalmente nesta situação, mas de fato, fecharam suas portas. Clubes tradicionais como Grêmio Santanense, Rio-Grandense (Rio Grande), Guarani de Cruz Alta estão fechados. Outros vão e voltam, de tempos em tempos e muitos estão se encaminhando para mais cedo ou mais tarde abandonarem os campeonatos oficiais, para depois nem torcedores ter.
Infelizmente não sei a solução ideal também, mas algumas atitudes já deveriam ter sido tomadas para a revitalização do futebol interiorano. Que seja rápido.


Que os torcedores da dupla Gre-Nal pelo interior sigam torcendo para a dupla, não há nenhuma crítica, mas que gastem também com seus times do interior...eles não pedem muito: uma camisa, um ingresso e talvez alguma mensalidade de 20 ou 30 reais, ou se não der, apenas um destes. A retribuição é sempre certa. Com futebol aos domingos, ao vivo, não enlatado, representando tua cidade de origem.

No título do tópico do Futebesteirol que trata do fechamento do Gaúcho, o autor (Maurício Brum) foi muito feliz: “A morte de um Gaúcho”. E com o clube, morre uma importante parcela do futebol gaúcho também.




















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1ª Foto: autor - Gatuzo (via Flickr.com)
2ª Foto: Ultras do Bréscia.

Carrinho na pedra e filosofia futebolístico-campesina*

Para além da Vacaria há uma certeza: quem é capaz de dar carrinho na pedra, é capaz de qualquer coisa.
E esta certeza vem coberta de razão.

- Olha lá, é o oitavo carrinho só no segundo tempo!
- Será que ele não percebeu que estamos jogando no paralelepípedo?
- Acho que ele não se machuca...
- A julgar pelas cicatrizes nas pernas, machuca...

Futebol-arte x Futebol-força
Drible x Marcação
Toque de bola x Chutão

Juramos a mesma bandeira, vivemos sob a mesma constituição.
Somos patrícios e jogamos, teoricamente, o mesmo jogo. Por que o futebol gaúcho é tão diferente do futebol no restante do Brasil?

Temos a vizinhança, que certamente ajuda. Quem já jogou uma pelada contra argentinos sabe que é matar ou morrer. (Já joguei e este texto não é psicografado).
Há a questão da temperatura – muito calor no verão, muito frio no inverno (mudanças assim gritantes obrigam os praticantes a valorizar a força e a condição física).
Há a cultura peleadora ocasionada – creio – pela variedade étnica no Rio Grande: a teimosia teutônica, a grosseria italiana, a força física africana, o sangre caliente espanhol e a raza rioplatense. Isso só pra citar os mais comuns.

Mas o principal, a meu ver, é que todo o gaúcho vê no futebol uma chance de representar o “continente”. O riograndense – cada um – sente-se o embaixador sulino quando fora do âmbito regional.
O brasileiro espera dele futebol-força e ele confirma as expectativas. Geralmente com certo exagero, é claro.

Esta necessidade de ser ultragrosso me fez lembrar de alguns dos antigos heróis do Rio Grande. Jogadores que levaram o pavilhão gaúcho para além-fronteiras. Atletas da mais alta estirpe, cujos grandiosos feitos nos deixam cheios de orgulho e admiração.

Recordo-me do grande Latorre, filho de pai uruguaio e mãe índia. Zagueiro central e cria de Santana do Livramento. Atuou por meia década num time local até ser descoberto por um olheiro – no tempo em que os clubes tinham olheiros – de tradicional time carioca.
Jogou lá por quase dois anos, contabilizando 3 pernas quebradas, 11 expulsões de campo, 1 agressão a gandula e 1 saída algemada do estádio
Acabou seus dias de jogador em famoso time bageense, intercalando expulsões por falta violenta, com expulsões por insulto à arbitragem.
Hoje atua como comentarista de futebol no bolicho do Guedes, em Livramento, mas no momento encontra-se suspenso pois ainda não pagou os 12 martelinhos que deve.

Tem também o inesquecível Rodrigues Ramos, que jogava ali pelo meio, na contenção (de corpos) e na distribuição (de faltas).
Verdadeiro herói em sua cidade natal – Dom Pedrito – este atleta teve destaque em tradicionais equipes riograndeses.
Em 1971, na véspera da final do certame gaúcho (a data é mera alegoria, posto que Rodrigues Ramos jamais disputou uma final de campeonato), este grandioso expoente do futebol-força teve sua carreira interrompida para sempre: teve as duas pernas quebradas por capangas logo após tentar uma abordagem mais incisiva em uma festa de debutantes.
A moçoila era a filha do Delegado da cidade e estava entre as convidadas. Sua festa de 15 anos ainda demoraria mais alguns anos...

E, por fim, não posso deixar de citar o lendário Schneider González.
Centroavante de origem teuto-rioplatense, medindo 1,97 e pesando 110 quilos, logo se destacou em laureada facção esportiva da Fronteira Oeste, na sua cidade natal e de onde jamais saiu.
Agregou durante os mais de 25 anos de carreira as funções de Delegado de Polícia e camisa nove. Durante 25 anos seu time foi campeão municipal. Durante 25 anos nenhum bandeirinha viu impedimento seu.
No último jogo da carreira – contrariado, mas acatando desesperado pedido da família para que parasse – lá pela casa dos 45 anos de idade, desabafou ao repórter que o entrevistara, após marcar o gol do vigésimo quinto título consecutivo, em impedimento:

- Solamente veinte y cinco años... muy lindo el Reich, pero que muy breve...

Este é o futebol gaúcho: sempre unindo todos os povos e destacando o que eles têm de melhor!

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* Por Maurício Kehrwald

Paulo Roberto Rocha - Eterno Capitão do Bagé

Como alguns sabem, sou torcedor do Bagé. Também por isto, junto com a torcida jalde-negra, criei o site do Bagé (link acima). E para o site entrevistei o Capitão Rocha, que foi capitão da equipe do Bagé que conquistou um dos títulos mais importantes da história do Bagé: a Copa Governador do Estado de 1974.
As respostas do Capitão são belíssimas e mesmo para os que não são torcedores do Bagé, é uma ótima oportunidade para conferir como nascem as paixões futebolísticas, ainda que por times que não comparecem tanto na mídia.
Além disto, Rocha conta um pouco como era o futebol gaúcho nos anos 70. Recomendo fortemente a leitura, pra torcedores de todos os times, mas que acima de tudo gostam de futebol.
Puríssimo.

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O site jalde-negro entrou em contato com o Capitão Paulo Roberto Rocha para a realização desta entrevista que os torcedores jalde-negros poderão conferir abaixo.Paulo Roberto Rocha é um dos maiores ídolos da história do Grêmio Esportivo Bagé e foi capitão da equipe que conquistou o inesquecível título da Copa Governador do Estado de 1974.
Nesta entrevista, Rocha conta alguns fatos bastante interessantes ,fala daquela época, do Bagé e sobre futebol de maneira geral.
Fica aqui nosso agradecimento ao capitão Paulo Roberto pelas excelentes respostas na entrevista e por tudo que realizou defendendo a camisa amarela e preta. Nosso sincero “muito obrigado”, de toda a torcida jalde-negra.
Dados Pessoais:Paulo Roberto Rocha
Nascimento: em Porto Alegre, no dia 27 de junho de 1951.
Carreira 1967 - infantil do Grêmio Porto-alegrense
1968/1969 - juvenil do Grêmio Porto-alegrense
1970 - profissionalização
1970 - Náutico de Rio Pardo
1971 a 1979 - Bagé
Posição: Ala (atuava tanto na esquerda como direita)
Formado em Educação Física pela Urcamp e professor estadual em atividade, atualmente leciona na Escola Waldemar Amoretty Machado, em Bagé. _________________________________________________________
Sobre seus dados pessoais, Paulo Roberto Rocha acrescenta:
"Apenas um reparo quanto á minha posição em campo.Nos meus tempos de guri, em times de várzea, comecei como lateral esquerdo. Quando fui para o Grêmio nas categorias de base, atuei na zaga, o mesmo ocorrendo no Náutico de Rio Pardo.Quando cheguei em Bagé, era zagueiro, com a chegada do Galego, fui deslocado para lateral direita.Naquele tempo éramos laterais, ala é coisa mais moderna, apesar de fazermos a mesma função, e ainda voltarmos para marcar".


Como ocorreu sua vinda para o Bagé?
Lá em Rio Pardo jogavam vários jogadores que eram, ou haviam jogado aqui.(Nilson goleiro, Walter, Osmar irmão do Carlinhos, Casemiro, Celmar, Baiano, Danúbio, Amarante).Quase vim para o Guarani, junto com o Claudionor, desisti na ultima hora (não queria me afastar de perto de Porto Alegre) Mas o Náutico estava fechando e aceitei o convite do Bagé, através do Jacob Sued e do Dr. Roberto Garrastazú, e vim junto com o Amarante.


Observando algumas imagens da conquista da Copa Governador, nota-se que já à época o título foi extrema e justamente valorizado pela torcida - inclusive com invasão de campo -. Os jogadores daquela grande equipe tinham a real dimensão do título conquistado e da importância que ele viria a ter a partir dali na história jalde-negra?
Sempre coloco o Campeonato Gaúcho de 1925, como o maior titulo conquistado pelo Bagé. Mas a Taça Governador do Estado em 1974 vem logo em seguida. Foi um título muito suado com dois turnos e na virada do 1º para o 2º estávamos em 14º lugar. Fomos recuperando posições e chegamos na rodada final, para decidir tudo num Baguá. Só a vitória interessava, e ela chegou com 1x0 gol do Derli (ponta esquerda).O estádio do Guarani veio abaixo... E no final do jogo nunca tinha visto coisa igual, foi a maior comemoração feita ate hoje. A torcida invadiu literalmente o campo, fomos fazer desfile de “carro” pela ”sete “de setembro... Eu subi e desci a sete umas quatro ou cinco vezes, com uma câimbra infernal na barriga... Na Pedra Moura a festa seguia... Estendeu-se até o meio da noite. Não deu como não ficarmos sabendo do quanto nossa torcida estava feliz (e tudo em cima do tradicional adversário) e que aquele título estava para sempre marcando um feito na historia do GRÊMIO ESPORTIVO BAGÉ.Aquela equipe era unida, mas muito unida mesmo. A maioria dos jogadores morava na concentração (inclusive o Galego) éramos como irmãos.Uns ajudavam os outros dentro e fora de campo. Tudo passava pela mão do Galego, que exigia de nós o máximo, tanto dentro do campo, quanto em atitudes fora de campo. Era quase um pai. Suas exigências e ajuda, também era para os jogadores casados, que moravam fora da Pedra Moura. Com certeza, não seriamos vencedores por tanto tempo sem a presença dele.Ele sempre nos fazia ver que ficaríamos marcados na história do clube, se ganhássemos títulos, se nossas campanhas nos campeonatos fossem boas. Mas para isso teria que trabalhar duro, no nosso máximo.Então sabíamos que de nossos esforços, viriam as glorias. E é muito bom saber que o Bagé daquele tempo, através das suas conquistas, serve de exemplo até hoje.
[Na foto acima, Rocha ergue a Taça Governador do Estado]

O Bagé sempre impôs muitas dificuldades aos adversários, principalmente na Pedra Moura, e nos anos 70 inclusive contra a dupla Gre-Nal. Qual era a maior virtude da equipe Campeã de 1974 (e da base que seguiu nos outros anos) e dos jogadores que por ela atuaram?
Minha resposta de cima, ajuda a responder esta. A era Galego no Bagé, se caracteriza por essa persistência e teimosia de estar sempre exigindo o nosso limite máximo. Lembro que suas preleções sempre iniciavam assim: ”Hoje é um jogo” chave ““.Se contra os outros...Era jogo chave... Contra a dupla Gre-nal (jogo que estaríamos na vitrine de toda imprensa gaúcha) era o jogo de nossas vidas.


A famosa garra das equipes do Bagé, de maneira geral, e particularmente do grupo que o senhor participou nos anos 70, juntamente com a técnica, é sempre lembrada. Era um grupo diferenciado em termos de aplicação e luta?
Sempre foi estilo Galego, essa determinação em buscar o melhor resultado. Diziam que ele como jogador corria o campo todo, motivando e mostrando aos seus companheiros que deveriam fazer o mesmo. Acho que ele teve a sorte e competência de juntar os jogadores certos aqui no Bagé. Eu perdia em média de 2 a 4 kg por partida, mas muitas vezes era poupado nos treinamentos. Sem um preparador físico formado...Era ele o responsável.Juntam-se ao Galego...O trabalho de toda direção...Presidentes como Luis Carlos Alcalde, Julio Machado, Pedro Dirceu, Liader Previtali, diretor de futebol como José Pedro de Melo Fuchs, não se encontram a toda hora.


Entre as fotos dos anos 70 (publicada recentemente no Jornal Minuano) há uma (inclusive muito apreciada pelos jovens torcedores do Bagé), em que o senhor aparece erguendo o braço direito com o punho cerrado. Foi algum tipo de manifestação? Fale um pouco sobre esta foto.
Não recordo em que momento é aquela foto. Mas pode ser na hora de um gol...Ou em um final de partida ganha.

Sobre os clássicos Ba-Guá nos anos 70: algum marcou mais na memória? Como era este confronto para o senhor?
Meu 1º Baguá foi o mais importante. Fazia 4 anos que o Bagé perdia pro Guarani,e ganhamos de 1x0 gol meu .Fui escolhido o melhor em campo, e recebi muitos presentes. Sempre dei muita sorte nos clássicos.

Algum fato pitoresco ou engraçado que o senhor lembre nestes anos como jogador? (ou alguma "fria" enfrentada neste interior gaúcho)
Vários... Logo que cheguei no Bagé (antes do Galego vir) passei por alguns fatos interessantes...Minha chuteira quebrara o solado, e fiz muitas partidas com ela me “beliscando” a sola do pé. Não tinha dinheiro para outra.Nossa alimentação era: de segunda á quinta arroz com repolho refogado, na sexta ao se aproximar do jogo do fim de semana...Arroz, feijão e um bife á milanesa, sábado e domingo...Comida de jogo da época: arroz, bife purê e salada de tomates.Nas viagens, íamos em duas Kombi, jogadores,roupeiro e massagista...Quem já viajou de Kombi sabe que os bancos não têm encosto para cabeça...Já pensou ir e voltar á Passo Fundo? De engraçado não tem nada, mas serve para medir as mordomias de hoje.


Qual a fato mais marcante vivenciado pelo senhor nestes anos como jogador do Grêmio Esportivo Bagé?
Muitos...Foram 8 anos como jogador do Bagé.Lembro quando realmente me tornei jalde-negro de verdade. Foi no meu 1º Baguá (aquele que fiz o gol da vitória). Não lembro que jogador do Guarani veio me gozar, retruquei, e ouvi dele, que nem distintivo nos tínhamos na camiseta (era verdade). Lembro que entrei no vestiário no intervalo do jogo, irritado com aquilo, comentei e quase exigi do “seu Paulo” (Galego) uma camiseta decente para o próximo jogo.No 2º tempo e tendo feito o gol da vitória passei por esse jogador e falei que nosso distintivo tava no nosso peito...Por baixo da nossa pele...Nosso distintivo era nosso coração.Ali nascia mais um jalde-negro.[grifo meu]



Um gol e/ou partida inesquecível:
Gols...Além de dois em baguá...Tem dois pitorescos: Baile de Debutantes no Clube Comercial, o Galego deixa-me ir, sem beber (só guaraná), sem fumar (eu fumava) e sem dançar...Assim que terminassem os desfiles eu viria para concentração. Isso aconteceu às 5 da madrugada. Às 8 horas viagem para Pelotas e jogo às 3 da tarde. Final do jogo Bagé 1 x 0 Farroupilha ,gol meu. Lembro que o Paulo Sergio Brasil que tbm tinha ido ao baile, quando me viu indo para área em um escanteio, me gozou: ”fica lá atrás te poupando, capitão...” Na volta, com meu gol de cabeça, retruquei: “tá faltando o teu agora...Senão o “homem” não te deixa ir mais aos bailes... Eu vou ir...”Sábado, jogo contra o Pelotas, o Galego diz que volta conosco para Bagé, pois não teremos folga para ir ao carnaval. Faço uma aposta com ele, se fizesse um gol, ele nos daria folga e ficaria em Pelotas após o jogo (ele morava lá). Fizemos 2x1 e eu o gol da vitória. Ele nunca mais quis apostar comigo outras folgas.Partida...Em Passo Fundo. Para classificarmos para o Gauchão precisávamos empatar com o Gaúcho.O Gaúcho um baita time...Os irmãos Pontes, Bebeto (canhão da serra) Leivinha (mais tarde veio para o Guarani e nos formamos juntos em educação física) Luis Freire, Raul Matte, Roberto (pai do Juca do Botafogo e cunhado do P.C.Carpeggiani, (treinador do Corinthians) jogou no Guarani tbm).O 1º tempo terminou 2 x 0 para o Gaúcho. Começa o 2º tempo o Mariotti desconta 2 x 1 , mas aos 15 min. O Bebeto faz 3 x 0. Aos 40 minutos eu cruzo uma bola e o Walter de meia bicicleta faz 3 x 2 , e aos 45 min. O Derli chuta de fora da área...A bola bate no travessão e no chão...E saí. O bandeirinha corre p/ o centro do campo...O juiz confirma o gol, 3 x 3.Os Pontes queriam matar o Mario Severo (bandeirinha conhecido por ser “caseiro”), termina o jogo,alegria total.”Seu Fuchs” (diretor de futebol) entra de roupa e tudo nos chuveiros junto conosco, e avisa que a gratificação estava dobrada...O L.C.Alcalde (Michidinha) prevê que vai ter que sair para rua conseguir o dinheiro que o “Fuchs” prometera.Chegamos em Bagé às 7 da manhã, sol alto (o Derli havia levado toda a delegação do ônibus para um passeio pelas ruas da “zona” lá em Sta Cruz, como tudo era festa... com o aval do Presidente, e isso nos atrasou).A torcida nos esperava na entrada da cidade, fomos até a Pedra Moura depois de comemorar pela “sete”.
Qual a diferença que o senhor observa entre a época do titulo da Copa Governador do Estado e os últimos anos no futebol profissional de Bagé, em termos de torcida, mobilização da comunidade e entusiasmo?
Eu posso dizer que no meu tempo, nossa torcida era mais tradicional, pois era mais velha, e não menos apaixonada como é hoje. Noto que hoje os torcedores mais entusiasmados são mais jovens, que torcem pelos resultados obtidos em campo, e não pela história do clube ou pela rivalidade com os adversários. Esta mesma torcida de hoje, que são na maioria jovens e, portanto mais efusivos, terão com certeza o mesmo perfil daqueles do meu tempo, com o passar dos anos. Quando presente nos jogos de hoje, noto que a “corneta” é bem mais pesada, inclusive saindo do nosso próprio pavilhão. E isso chega aos jogadores dentro do campo, sempre de forma negativa. A torcida deve apoiar mais, nos piores momentos, pois isso além de fortalecer a equipe dentro do campo, mostra ao adversário, que eles estão em minoria. Lembro de muitas vezes sermos aplaudidos, mesmo nas derrotas. Era só notarem que havíamos demonstrado luta.Tudo são seqüências...Com um bom time virão as conquistas... Com as conquistas, o respeito e admiração do torcedor...Com o torcedor as boas rendas...Com as rendas, melhores condições de ter time competitivo...Com um time competitivo, ajuda e entusiasma a comunidade. Um depende do outro.

Nos fale um pouco sobre a emoção de ver seu filho vestindo a camisa jalde-negra e também carregando a braçadeira de capitão. Há nervosismo? E se há, é mais difícil apenas torcer do que estar em campo?
Sempre foi melhor estar em campo, pois as coisas poderiam depender do teu esforço...na torcida, dependemos dos esforços dos outros. E isso nos faz sofrer demais.E com o Tiago em campo, aumentava mais essa agonia. Mas ele sempre soube representar muita bem a garra jalde-negra, aliada a uma grande capacidade de visão coletiva e habilidade individual, e isso me enche de muito orgulho. Por isso galgou a capitania em campo (outro motivo de satisfação).
[na foto ao lado, Tiago Rocha]


Qual sua impressão sobre o futebol atualmente? O senhor costuma ir a estádios, assiste pela TV, ou se mantém mais distante?
Tudo ajuda hoje para que se jogue melhor o futebol, a bola, os gramados, os salários (dos grandes clubes) os uniformes, as concentrações, os melhores hotéis, as chuteiras, as viagens, tudo. Até a variedade de jogos transmitidos pela tv ajudam no aprendizado, nas informações que chegam de todos cantos do mundo.Claro que tem muitas coisas para serem aperfeiçoadas...Mas não dá para fazer comparações com antigamente nestes itens que enumerei.Estive presente no estádio todos estes anos que o Tiago jogou pelo Bagé. Agora estou um pouco afastado, mas acompanho pelo rádio sempre.

Qual sua opinião sobre o futuro do futebol do interior? Existem coisas que podem ser melhoradas na sua opinião para o crescimento dos clubes e torcidas?
É uma pena ver o interior enfraquecido. Pra mim, tudo começou, quando a dupla Grenal se desinteressou do Gauchão. Muitas vezes comparecem com times reservas, pra eles é muito mais vantajoso financeiramente outro campeonato. O interior sempre dependeu deles para vender bem seus jogadores, para terem boas rendas. Um jogo contra a dupla, muitas vezes colocava os salários em dia, a mídia comparecia e atletas e clubes eram notados. Outra coisa são as trocas constantes de planteis, existe uma perda de identidade clubisticas por parte dos atletas. Parece que antigamente pegava-se mais amor ao clube, torcedores sabiam de cor as escalações do seu time e do adversário (as rendas muitas vezes eram melhores por que queriam também ver os bons jogadores do time visitante).Não tem como recuperar esses pequenos erros, uns foram levando aos outros, e o acúmulo causou esse caos no futebol interiorano. Não saberia apontar a solução, pelo imenso mal causado, a não ser, dizer que as soluções existem, mas interesses maiores, parecem que obstruem esses caminhos. A crise é geral, e o futebol do interior mostra isso a cada ano. Os grandes estádios estão sendo diminuídos em suas capacidades, porque não conseguem mais enchê-los de torcedores. Dói ver um jogo do Bagé, com a geral vazia.Parece-me que uma das maneiras de puxar os torcedores ao estádio é ter em seu time, um craque, que esteja identificado com o clube. O torcedor gosta de ver esta diferença, é ela que vai lhe levar ao estádio.Todo ídolo muitas vezes acaba se tornando automaticamente um líder, e com isso contagia o resto do grupo.Desde que seja uma liderança positiva. Outra coisa que sempre acreditei, são as categorias de base.É lá que está a solução dos clubes. Além de ser mais viável financeiramente, jogador da “terra” parece que é mais cobrado (a família, os vizinhos, o bairro, enfim... a comunidade) Desde que seja muita bem trabalhada essa “responsabilidade”.

O senhor considera a hipótese de voltar ao futebol profissional em outras funções?
Nunca quis mexer com futebol, pois entendo que nunca seria fora, o que fui dentro campo. Já pensou dirigir o Bagé, e não atingir meta nenhuma? Já pensou ser chamado de “burro” por aquele mesmo torcedor que um dia me aplaudiu? Não tenho esse perfil de aturar ofensas e aplausos das mesmas pessoas quieto, poderia me frustrar e com isso me afastar de vez. Parei aos 27 anos, confesso que cansado das viagens e concentrações. Recebi vários convites, mas preferi me manter torcedor a vida toda, do que ter que um dia deixar de ser jalde-negro.Quem sabe... Quando me aposentar, e encontrar pessoas que pensem próximas do que acho seja dirigir futebol, eu não possa colocar meu nome a disposição dos interesses do Bagé. Encanta-me muito, a Direção de futebol...Contratações de jogadores, contato com treinadores,administrar contratos, etc.

Um abraço jalde-negro,
Rocha
A monografia foi apresentada e fui aprovado. Na realidade, apesar de sempre ser complicado enfrentar este tipo de situação (banca de professores, falar em público, análises, etc), este trabalho realizado junto com meu orientador foi muito gratificante, principalmente em termos de aprendizagem. Mas demanda tempo e em alguns momentos quase que a exclusividade de nossas preocupações. Portanto, caros leitores, a minha ausência nas postagens foi em virtude disto.

Voltando ao futebol, sempre continuei acompanhado tudo, mas agora muitos assuntos já estão datados. A partir de hoje, voltarei às postagens, não diariamente, mas de maneira bem mais freqüente.

Sejam bem-vindos (novamente) ao Puro Futebol.
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