Aos 45 do segundo

Luxemburgo, além de técnico do Palmeiras, é nome de um minúsculo país europeu, lindeiro com Alemanha, França e Bélgica. Possui um pouco mais de 450 mil habitantes que vivem abastadamente sob uma monarquia constitucional.
Futebolisticamente falando, a seleção de Luxemburgo é uma das tantas seleções nanicas do continente europeu, com raras vitórias nas competições européias (entre estas, encontra-se apenas uma honrosa exceção, na
Eurocopa de 1964). Além deste retrospecto nada alentador, a seleção de Luxemburgo conta com um time misto de profissionais e amadores. Segundo uma das matérias que li para escrever esta postagem, na atual seleção jogam apenas dois profissionais (a verificar).

Mas o futebol tem muito destas coisas, jamais deve-se diminuir o orgulho que torcedores têm por clubes de pouca expressão, ou a entrega total de jogadores de times de pequeno porte, ainda mais quando o orgulho nacional está em jogo, como no caso de seleções nacionais (menos no Brasil, aqui isto é considerado ''patriotada'').

E exatamente com este orgulho, que um jogador luxemburguês chamado Fons Leweck, deu uma bela declaração, após ter feito o gol da vitória histórica de sua seleção sobre a Suiça, na casa dos adversários.

"Quando houve o apito final, tive uma sensação extraordinária, o fato de termos vencido. Sabíamos que tínhamos criado uma grande sensação, e estávamos nas nuvens. Quando terminou, a primeira coisa que pensei foi na minha família, que certamente estaria comemorando muito em casa. Como luxemburguês, estou muito orgulhoso em poder somar algo tão grande à minha pequena e insignificante carreira no futebol, sabendo que ninguém poderá tirar esse momento de mim, por nada. Vencer fora de casa, diante de uma grande torcida deve ter sido a melhor experiência que já tive."


Palavras ditas por Fons Leweck, depois da histórica vitória de Luxemburgo sobre a Suíça, fora de casa, pelas Eliminatórias da Copa (2-1). Leweck é atacante da seleção de Luxemburgo e do FC Etzella Ettelbruck. Foi ele o autor do gol desta vitória de Luxemburgo, com um gol aos 40 do segundo tempo. Um ano antes, ele também fez o gol da vitória sobre a Bielorrússia, nas Eliminatórias da EURO, com um gol aos 50 do 2° tempo, outra data histórica.

(texto disponível no
site da Fifa, em espanhol).

Lá no site da Fifa, este fato é mencionado na matéria "Pequenos Heróis do Futebol", sobre eventos marcantes no ano de 2008 (o jogo foi em setembro).

Um belo feito, sem dúvidas.

Aproveito o post para desejar um Feliz Natal para todos(?) os leitores do blog, mesmo os ocasionais via Google, mas principalmente aqueles poucos, mas fiéis e persistentes leitores, que mesmo com a baixíssima freqüência de postagens neste 2008, sempre deram uma passada por aqui.
Que em 2009, ainda que só tenhamos a nosso favor um time ruim, que seja combativo e raçudo, e que algumas vezes possamos ter momentos como o que Luxemburgo viveu, no vídeo abaixo:



____________________________________________
Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Luxemburgo
http://es.fifa.com/worldfootball/news/newsid=986056.html#pequenos+heroes+futbol
e as demais citadas no texto.

A informação da escolha dos "Pequenos Hérois do Futebol" da Fifa, veio através de postagem de Gabriel Andrezo, da comunidade
Futebol Alternativo, do Orkut.

Y se dicen hinchas...

Aconteceu em Rosário, Argentina. Depois de 14 anos de administração de Eduardo López, agora ex-presidente do Newell’s Old Boys, o novo presidente encontrou um clube quase que, literalmente, em ruínas.
As frase de Guillermo Lorente (presidente empossado) é ilustrativa:
“Newell's parece Kosovo”.

Novos presidentes encontrarem situações desalentadoras quando da posse em clubes é fato corriqueiro. Mas o que chama atenção nesta notícia, é que a barra-brava leprosa participou de saques nas duas sedes do clube, Bella Vista e Malvinas (onde abrigam as categorias de base), após a vitória do grupo de Guillermo Lorente. Segundo o jornal Olé, a barra possui ligação com o ex-presidente do clube.

Na madrugada de segunda-feira, três caminhões estacionaram em frente à sede da Bella Vista, com alguns integrantes da barra. Saquearam de tudo: computadores, material de escritório, uniformes do time (que já estão sendo vendidos em bairros de Rosário, segundo a notícia), bolas de futebol, ventiladores, máquinas de escrever, refrigeradores de ar, 10 câmeras de seguranças, material de treinamento, entre outras coisas.

Não satisfeitos, foram até a sede onde treinam as categorias de base do clube, e de lá também furtaram material esportivo, inclusive as roupas das crianças que lá jogam (palavras do Olé: “¡Se llevaron hasta la ropa de los chicos!”).

Administrativamente há outros danos, como sumiço de livros de contabilidade, dinheiro e outros itens que tratam da organização do clube. Outro exemplo: o Newell’s não recebia energia elétrica da companhia de luz por estar há anos sem pagar. A energia elétrica vinha de geradores próprios que...também foram roubados. Mas o que mais espanta, volto no tema, é a atitude deste grupo de barras.

E não parou no saque: partiram pra depredação do próprio clube. O busto do fundador do clube foi destruído, os troféus foram achados amontoados em um canto, além de muitos vidros quebrados, tudo contra a sede.

Este lamentável episódio (e é lamentável, sim, não é ser “politicamente correto”, ou um discurso clichê, achar isto lastimável) serve para desmistificar algumas quase “lendas urbanas” sobre barra-bravas que circulam por aqui. Se por um lado é certo que existe uma característica argentina de um apoio que algumas vezes parece incondicional, por outro lado tem alguns pseudo-torcedores que estão ali por interesse financeiro, e que há muito tempo deixaram de serem torcedores, e sim parasitas do clube, pouco lhes importando a situação do time, a não ser quando esta reflete diretamente nos seus ganhos.

Que isto ocorre em qualquer lugar do mundo, é fato sabido, mas no caso argentino a referência que se faz é com alguns mitos que se criaram aqui no Brasil sobre a atuação destas facções, como se tudo fosse por amor ao clube. Infelizmente não é assim, o resto é apenas uma visão romântica de quem só vê o belo espetáculo dentro do estádio. Em alguns casos, o preço é altíssimo, como este que o Newell’s está pagando.

No Brasil, Argentina, Uruguai ou em qualquer lugar do mundo, quando a paixão é substituída por dinheiro, a coisa muda de figura. Porque ninguém há de dizer que destruir o busto do fundador do clube é um ato de paixão, ou um “manifesto político”. Não há crise, oposição à presidência ou qualquer insatisfação que faça um verdadeiro torcedor atentar contra a história de seu clube. Torcedor. ‘’Profissionais’’ são bem diferentes.


O título desta postagem é a legenda da foto publicada pelo Olé.


Fonte e foto: Diário Olé:
http://www.ole.clarin.com/notas/2008/12/19/futbollocal/01825205.html

http://www.ole.clarin.com/notas/2008/12/16/futbollocal/01822990.html

A volta(?) dos citadinos

Soube mês passado, primeiramente através do Impedimento, e depois no Jornal Minuano sobre a volta do Campeonato Citadino de futebol profissional em Bagé no ano que vem. Este campeonato já foi muito tradicional, tendo sua primeira edição ocorrido em 1918 e em muitos anos, o representante bageense no Campeonato Gaúcho era o vencedor do Citadino.

Com o passar dos anos e com as mudanças no sistema de disputa do Gauchão, o Citadino perdeu sua força, ainda que tenham sido realizados outros torneios em que a dupla Ba-Gua se enfrentava em uma série de jogos, valendo diversos troféus, mas nenhum destes contava com a chancela de "Campeão Citadino", o último foi em 1976.



Na versão 2009, inclusive a prefeitura municipal participou do lançamento do campeonato. A fórmula prevê dois jogos em fevereiro (dias 8 e 15 , coincidindo com a preparação para a Segundona 2009) e mais dois clássicos, que serão os dois da primeira fase da Série B. Quem fizer o maior número de pontos, leva (em caso de empate, ocorrerá uma quinta partida). Por sorteio ficou definido que o primeiro jogo será na Pedra Moura.


E também em Rio Grande, parece que está voltando o Campeonato Citadino, reunindo seus 3 tradicionais clubes. Neste caso a idealização desta competição ocorreu de maneira inusitada: através do Orkut, mostrando que nem sempre aquele batido chavão "sai do Orkut e vai pra cancha" deve ser considerado literalmente. A internet já se mostrou muito útil, inclusive para os clubes do interior.

Do
Jornal Agora, de Rio Grande:
"(...)Os idealizadores da competição foram representados por Paulo Mancha, Miguel Duarte e Farnei Coelho que representou Rodrigo Gomes, eles mais algumas pessoas idealizaram a competição através da comunidade "Futebol Riograndino", do site de relacionamentos "Orkut", que possui 154 membros. "A idéia surgiu na comunidade (do orkut) , queremos colaborar para que na nossa terra tenhamos torcedores dos nossos clubes. O apoio do torcedor será fundamental para o crescimento dos times do Rio Grande. Somos líderes irmanados pelo futebol da terra", afirmou Paulo Mancha.

Os jogos do campeonato de Rio Grande ocorrerão no estádio do Cassino Futebol Clube, com ingresso convidativo, 5 pila e irá de 24 de janeiro a 19 de fevereiro.

Fica a torcida para que estes campeonatos tenham sucesso, ou ao menos que sejam razoavelmente bem-sucedidos para que possam fomentar uma seqüência de torneios locais.
Isto porque, nos casos dos times do interior, é útil de várias maneiras. Primeiramente porque revive a velha rivalidade. Deixa as direções dos times mais alertas e trabalhando mais intensamente. Também serve como preparação para a competição oficial, já que nesta época sempre procuram por amistosos, além de que, com sorte, pode-se ter uma boa renda para dar uma reforçada no livro-caixa.

E estas duas tradicionais praças desportivas voltarão a ter suas peleias locais em 2009, mas inclusive na capital já foi realizado este tipo de torneio, a última vez que ocorreu foi em 1972. Não teria, a dupla Gre-Nal, huevos para encarar um simples citadino de começo de ano também?


Abaixo a lista de Campeões*, em Bagé, e logo depois a lista rio-grandina:

Citadino de Bagé:
1918 - Guarany Futebol Clube
1919 - Guarany Futebol Clube
1920 - Guarany Futebol Clube
1921 - Guarany Futebol Clube
1922 - Grêmio Esportivo Bagé
1923 - Não Houve (
Revolução de 23 - foram praticar o verdadeiro esporte favorito: guerra)
1924 - Não Houve (Revolução de 23)
1925 - Grêmio Esportivo Bagé
1926 - Guarany Futebol Clube
1927 - Grêmio Esportivo Bagé
1928 - Grêmio Esportivo Bagé
1929 - Guarany Futebol Clube
1930 - Não Houve
1931 - Grêmio Esportivo Bagé
1932 - Guarany Futebol Clube
1933 - Grêmio Esportivo Bagé
1934 - Guarany Futebol Clube
1935 - Guarany Futebol Clube
1936 - Grêmio Esportivo Bagé
1937 - Grêmio Sportivo Ferroviário
1938 - Guarany Futebol Clube
1939 - Grêmio Esportivo Bagé
1940 - Grêmio Esportivo Bagé
1941 - Grêmio Esportivo Bagé
1942 - Grêmio Esportivo Bagé
1943 - Guarany Futebol Clube
1944 - Grêmio Esportivo Bagé
1945 - Guarany Futebol Clube
1946 - Guarany Futebol Clube
1947 - Guarany Futebol Clube
1948 - Guarany Futebol Clube
1949 - Grêmio Esportivo Bagé
1950 - Guarany Futebol Clube
1951 - Grêmio Esportivo Bagé
1952 - Grêmio Esportivo Bagé
1953 - Grêmio Esportivo Bagé
1954 - Grêmio Esportivo Bagé
1955 - Grêmio Esportivo Bagé
1956 - Guarany Futebol Clube
1957 - Grêmio Esportivo Bagé
1958 - Guarany Futebol Clube
1959 - Não se sabe o campeão
1960 - Guarany Futebol Clube
1961 - Guarany Futebol Clube
1962 - Não Houve
1963 - Não Houve
1964 - Guarany Futebol Clube
1965 - Guarany Futebol Clube
1966 - Guarany Futebol Clube
1967 - Não Houve
1968 - Não Houve
1969 - Guarany Futebol Clube
1970 - Guarany Futebol Clube
1971 - Guarany Futebol Clube
Grêmio Esportivo Bagé (1)
1972 - Não Houve
1973 - Não Houve
1974 - Não Houve
1975 - Grêmio Esportivo Bagé
1976 - Grêmio Esportivo Bagé

(1) Não houve decisão. Os dois terminaram empatados e foram declarados campeões.


Citadino de Rio Grande:
1913 -
1914 - Sport Club Rio Grande
1915 -
1916 - Sport Club São Paulo
1917 -
1918 - Sport Club São Paulo
1919 - Sport Club Rio Grande
1920 - Sport Club São Paulo
1921 - Football Club Riograndense
1922 - Sport Club Rio Grande
1923 -
1924 -
1925 - Grêmio Atlético Militar General Osório
1926 - Sport Club Rio Grande
1927 - Sport Club São Paulo
1928 - Sport Club São Paulo
1929 -
1930 -
1931 - Sport Club São Paulo
1932 - Sport Club São Paulo
1933 - Sport Club São Paulo
1934 - Sport Club Rio Grande
1935 - Sport Club São Paulo
1936 - Sport Club Rio Grande
1937 - Football Club Riograndense
1938 - Football Club Riograndense
1939 - Football Club Riograndense
1940 - Football Club Riograndense
1941 - Sport Club Rio Grande
1942 - Sport Club Rio Grande
1943 - Sport Club São Paulo
1944 - Sport Club Rio Grande
1945 - Sport Club São Paulo
1946 - Football Club Riograndense
1947 - Football Club Riograndense
1948 - Football Club Riograndense
1949 - Sport Club Rio Grande
1950 - Football Club Riograndense
1951 - Sport Club Rio Grande
1952 - Sport Club São Paulo
1953 -
1954 - Sport Club São Paulo
1955 -
1956 -
1957 - Football Club Riograndense
1958 - Sport Club São Paulo
1959 - Sport Club São Paulo
1960 - Football Club Riograndense
1961 - Sport Club Rio Grande
1962 - Sport Club Rio Grande
1963 -
1964 - Sport Club Rio Grande
1965 - Sport Club Rio Grande
1966 - Sport Club São Paulo
1967 - Sport Club São Paulo
1968 - Sport Club São Paulo
1969 - Sport Club São Paulo
1970 - Sport Club São Paulo
1971 - Sport Club São Paulo
1972 -
1973 - Sport Club São Paulo
1980 - Sport Club São Paulo
1987 - Sport Club São Paulo


Fotos:
Ba-Gua em 2006, realizado excepcionalmente no Estádio Passo D'areia (jornal Zero Hora)

O valor da Copa Sulamericana

No dia 27 de setembro de 2006, escrevi aqui no Puro Futebol sobre a importância da Copa Sulamericana. Cito a data porque até então, nem Inter nem Grêmio haviam vencido a competição. Agora como o Inter venceu, as análises se tornam tendenciosas em virtude da rivalidade, o que é normal, e o inverso também aconteceria se o Grêmio tivesse vencido.

Como sempre fui um entusiasta da Copa, escrevo em defesa da competição, não por que A ou B venceu, mas porque agora o assunto é mais pertinente e atual.

Um dos argumentos usados para diminuir a Copa, é que ela não leva a lugar nenhum. Um tremendo "vício de origem" presente neste argumento. Temos exemplos de competições que "não levam a lugar nenhum" e isto não é um fato que torne a conquista menor. Peguemos dois extremos: Gauchão e Mundial Interclubes não levam a lugar nenhum, em fria análise. No caso do Gauchão, mesmo considerando vaga à Copa do Brasil, o vice também conquista a vaga. No caso do Mundial, não lugar a ir mais além. E ambos, guardadas todas a proporções, são valorizados de acordo com suas grandezas. Ou seja, uma bobagem enorme exigir que um torneio tenha que levar a algo, necessariamente. Se um torneio é bom (lucrativo, exposição positiva, etc) pode sim, esgotar-se na própria conquista.

De outra forma, alguns torcedores comparam a participação na Libertadores com algo muito maior que a conquista da Sulamericana. O porém é que essa participação na Libertadores, só é maior que um título da Sulamericana, se a presença na Libertadores for exitosa. O próprio Inter, com a participação pífia de 2007, jamais trocaria aquela simples participação pelo título deste ano.

Em termos financeiros, as premiações são bastante interessantes, podendo ser ampliada com a conquista do torneio contra o Campeão japonês. Nesta conta também entram as cotas da televisão, o aumento nas vendas de artigos do clube, aumento do número de sócios (ou no mínimo a manutenção dos atuais), e quando há ingressos a serem vendidos, lucros de bilheteria.

Na parte de divulgação da - palavra da moda - "marca do clube", é também muito vantajoso. Desde as semi-finais, as partidas são transmitidas para mais de 60 países ( e isso não é pouco). Sites do mundo inteiro divulgando partidas e principalmente o campeão, não só nos dias de jogos mas nos dias que antecedem as decisões.

No futuro, fica para o clube, uma partida no Japão (mercado muito cobiçado pelos grandes clubes brasileiros), a manutenção de um ciclo de decisões internacionais, a certeza de já estar envolvido e em exposição em outra decisão internacional através da Recopa (com mais plata entrando e mídia) do ano seguinte, além, obviamente, do próprio caneco armazenado na sala de troféus.

Subjetivamente ainda tem a auto-estima da torcida engrandecida, o entusiasmo, diminuição da pressão por grandes títulos, maior poder de negociação junto aos patrocinadores (atuais e futuros), e por aí vai.

Já vi gente escrevendo que a Sulamericana já foi ganha por equipes de menor expressão (Cienciano e Arsenal), e na hora de argumentarem, citam tais equipes ( e eu estou citando novamente), mostrando justamente a fragilidade do argumento: só citam estas equipes exatamente por terem vencido a Sulamericana, de outra forma não estariam sendo citadas. Isto mostra que há valorização do clube, tenha o tamanho que tiver.

No site da Fifa (
via Clic RBS), a competição é tratada como similar a Copa da UEFA. No site da Conmebol, a entidade coloca Inter e Boca como os maiores campeões da América do Sul. Em fóruns pela Argentina e Brasil, o Inter é comentado e elogiado. Não há como negar a importância da Copa Sulamericana, que mesmo menor que a Libertadores, é o segundo torneio em importância do continente. E a final deste ano só fez valorizar esta Copa. A mística da grande final, o jogo tenso, entrega total das equipes, prorrogação, o gol dramático do título e a consagração.

É certo que a rivalidade tem muito a ver com essa tentativa de depreciação, o que é normal, só não dá pra emburrecer por isto.

Talvez a conquista do Inter acelere o envolvimento dos clubes brasileiros na Copa Sulamericana, o que seria bom, principalmente para os clubes.
E mesmo que todos os argumentos acima não sejam suficientemente convincentes, lembrem de como os brasileiros tratavam a Libertadores até os anos 80. Depois que foram correr atrás, quando outras equipes (argentinas e uruguaias) já empilhavam títulos. A Sulamericana, principalmente se manter o critério técnico de classificação, diminuir o número de vagas por país e já começar em fases de grupos internacionais, seguirá o mesmo caminho da Libertadores. Será primeiro conquistada várias vezes por times estrangeiros (a Argentina já possui 4), até que os clubes brasileiros resolvam parar de rasgar dinheiro e prestígio.


Foto: Jornal O Estado de São Paulo (www.estadao.com.br)

Um domingo sem futebol

"Portanto, deixando de lado as observações judiciais, vejamos como se procede a observância do Dia Sagrado para o fanático. O dia sagrado determina que nenhum trabalho mundano deve ser realizado. Se então você cessa de todo emprego secular e não faz nada mundano ficando livre para ocupações futeboleiras, vai à cancha, ouve a torcida enaltecendo o clube, pensa sobre coisas divinas, preocupa e espera o futuro, têm diante de seus olhos a decisão próxima e não se importa com as coisas presentes e visíveis, mas com as coisas invisíveis e futuras, esta é a observância do Domingo sagrado do torcedor."*
*Adaptado de um
texto religiososo.


Um domingo é um domingo em qualquer lugar do mundo. Para os que têm a ida ao estádio tão sagrada como a ida à Igreja para os cristãos, o domingo, além de tudo que o domingo pode ser, é dia de futebol. Mas não o futebol da TV ou dos outros times. Se o teu time não joga no domingo, é um domingo sem futebol. Exceções feitas a jogos de Copa do Mundo que, além da óbvia importância, guardam como consolo que o mundo inteiro vive, nestes casos, um domingo sem futebol.

Ainda agora lembro dos domingos da adolescência, quando acordava lá pelas 13 horas, almoço com a família (algumas vezes desfalcado da presença de meu pai, que já se encontrava no estádio, possivelmente na preleção), e rumava para a Pedra Moura, subindo a Salgado Filho, passando por um escritório de contabilidade que todo domingo de jogos do Bagé, colocava uma bandeira jalde-negra no alto do prédio, depois atravessar a Praça das Carretas e finalmente chegar na Líbio Vinhas, no “arrabalde do Menino Deus”, e ficar mirando o número de carros estacionados nos arredores para fazer uma estimativa do público da tarde. Mais perto do estádio, vislumbrava as três bandeiras tremulando (e sempre estão tremulando em dias de jogo): Brasil, Rio Grande do Sul e Bagé, com seu sol que irradia amarelo e preto desde o canto superior (GEB!), e se espalha pelo pavilhão. No portão (seja de sócios ou da arquibancada), sempre aquele tumulto, por menor que seja a partida: venda de ingressos, produtos, alimentos e - principalmente - os pedidos de ingresso gratuitos e as juras de alguma ligação com o clube (que por motivos misteriosos dariam direito a entrada franca). Alguns levavam...
Depois, é claro, o futebol. Futebol!

Esse era e é, um domingo de futebol, verdadeiramente. Não esses de finais e decisões pela TV, nada contra eles, acompanho da mesma forma, mas são incomparáveis. Os da TV, embalados a vácuo e insossos; os do campo, saborosos, daqueles que engraxam os dedos e o bigode.

Por isso tem algo de (muito) melancólico um domingo sem futebol. Mesmo que o futebol salte por todos os lugares, pela rádio, pela internet, com o Jader Rocha em imagem congelada desde Salvador atrás do Grêmio (neste exato momento, na TV Com)... Mas isso é domingo de futebol para eles, não para nós.

Como sou torcedor do Bagé e resido a uns 220 quilômetros da Pedra Moura, meus domingos de futebol se tornaram mais raros ainda. Salvo quando volto ao pago, ou quando o meu time anda por aqui, a maioria dos domingos é sem futebol, e hoje é mais um deles. Mas hoje é duplamente sem futebol, porque além de estar longe, mesmo que estivesse na cidade, não haveria futebol.
Mas para os dias em que o Bagé está em campo, para mim é um domingo de futebol, graças a internet. Pode parecer paradoxal, mas com o meu time em campo, nada é insosso, e até criei certo “ritual” para acompanhar os jogos, ainda que via computador. Mesmo de longe, também almoço cedo, porque barriga cheia na hora da tensão não é nada agradável. Verifico a transmissão on-line da digna e valorosa Rádio Clube de Bagé, (a única das 6 emissoras da cidade a acompanhar os jogos da dupla Baguá) e a partir das 13 horas já fico conectado. No horário do jogo, um maço de cigarros fechado, cinzeiro, isqueiro e o aviso de “não perturbe” no semblante. Não é de engraxar os dedos, mas é um domingo de futebol, mesmo longe da terra.

E hoje que é um dos domingos sem futebol, assisto Cerâmica x Novo Hamburgo na TV (bom jogo, já na segunda etapa), mas o domingo está tão com cara de domingo, que fiquei com vontade de vir até aqui e escrever sobre os domingos de (sem) futebol.

Aos que podem ter um domingo verdadeiramente futebolero hoje: aproveitem, no nosso caso, nem todo o dia o templo está aberto.




Foto: Flickr, autor: rsapa57

Bagé x Peñarol, em 1981

Bagé e Peñarol possuem coisas em comum que vão além da camisa listrada jalde e negra. Além das cores e disposição das mesmas, os dois clubes, principalmente nos anos 20, 30 e 40, negociavam jogadores e muitos uruguaios que residiam em Bagé, tornaram-se torcedores do Bagé por causa destas coisas em comum, assim como muitos bageenses jalde-negros residentes tanto em Bagé como em Montevidéu, nutriam simpatia pelo "auri-negro" uruguayo. Como por exemplo, em 1954 (28 de setembro), o Penharol comemorou seus 63 anos, num amistoso contra o Bagé, em Montevidéu, partida vencida pelo Peñarol por 3 x 2.

E em 1981, Bagé e Peñarol enfrentaram-se amistosamente na Pedra Moura, estádio do Bagé. Eu já sabia desta partida amistosa, mas o jalde-negro Grégory Ricardo, conseguiu o recorte com a notícia desta partida, veiculada pelo centenário jornal Correio do Sul em Bagé.

Além do final esperado de tal embate entre jalde-negros, é curioso observar a linguagem empregada pelo jornal na época. Transcrevo por aqui, porque a leitura se torna mais fácil que no original, mas abaixo mostro a foto da notícia, com créditos para o Grégory, que aparece no Orkut como "Grégory Ricardo Jalde-Negro". Ao Grégory, meus agradecimentos pelo resgate desta notícia do princípio dos anos 80.


Bagé e Penharol: o empate e a briga no final*
"Terminou em grossa pancadaria o jogo amistoso entre Bagé e Penharol de Montividéu, disputado ontem à tarde no "Pedra Moura", diante de um grande público, que rendeu 424.150 cruzeiros (a preço único de 100 cruzeiros).


Faltavam dois minutos para terminar o jogo quando Orion Sather de Melo suspendeu a partida. Era o segundo sururu, surgido após a agressão de Rodrigues ao jogador Julinho (bageense que jogava na Argentina e que, treinando no Bagé, participou do jogo de ontem).


Formou-se a confusão envolvendo os jogadores. Antes, uma briga entre Rubilar e Pereirano (que havia agredido a Mandarino) resultara na expulsão de ambos. Rubilar (que após a expulsão ficara no túnel) entrou em campo e também envolveu-se na briga generalizada.


Empate em 1 x 1

O jogo terminou empatado em 1 x 1. O Penharol dominou nos primeiros vinte minutos, impondo um futebol rápido e objetivo, mas o Bagé, muito bem postado defensivemente, com o estreante Pedro Caetano entendendo-se bem com Rubilar, não dava maiores chances aos uruguaios.

E quando o Bagé soltou-se mais em campo, tendo Suca como a maior figura, marcou o seu gol aos 45 minutos por Jaci, após defesa parcial do goleiro Carrera, em lance pessoal de Jadir.


No segundo tempo o Bagé dominou amplamente o jogo, principalmente porque começou a marcar melhor na meia-cancha e teve boas alternativas ofensivas, por Jadir e o lateral Xavier.

Leco criou uma situação difícil para o goleiro Carrera mandar a córner. Suca cobrou bem uma falta e o goleiro defendeu.

Tinha ainda o Bagé o controle do jogo quando Zé Carlos cometeu pênalti em Cáceres, aos 42 minutos do segundo tempo. O jogador Silva cobrou forte, de pé esquerdo, empatando o jogo. Aí Silva, de forma anti-profissional, foi provocar a torcida jalde-negra, correndo junto as sociais, o que, sem dúvida, serviu para acirrar os ânimos e dar margem ao segundo sururu, envolvendo os jogadores e até os dois túneis.


Os times
O Bagé teve Mandarino, Xavier, Rubilar, Pedro Caetano (muito boa estréia) e Zé Carlos; Suca, Leco e Denner; Preguinho (discreta atuação, substituído por Julinho), Jaci e Jadir.

O Penharol com Carrera, Bueno (a maior figura do time), Oliveira, Gutierres e Moraes (Fernandez); Bóssios, Rodrigues e Silva; Marcenaro (Cáceres), Peirano e Peres (Carrero).

Arbitragem de Orion Sather de Melo, deixando muito a desejar. técnica e disciplinarmente. Bem os bandeirinhas locais Adélio Barros e Egídio Duarte."
*Jornal Correio do Sul



Abaixo a foto da página do Correio do Sul, tirada pelo Grégory Jalde-Negro:


Este relato me lembrou um outro amistoso que eu presenciei, também entre o Bagé e outro time uruguayo, já em meados dos anos 90. O time era o Miramar Missiones (la "zebrita" - por causa do uniforme de finas listras pretas e brancas - também de Montevidéu, como 90% dos times profissionais do Uruguay) e acabou sendo interrompido em virtude da maior luta campal que eu já vi até hoje, incluso o que já vi pela TV. Foi notícia no Jornal Nacional (rede Globo) na mesma noite (como sempre, só falam dos times do interior do RS se for por briga ou coisas muito pitorescas), e portanto estas imagens devem existir e se eu conseguir achar será tema de outra postagem por aqui.

Hoje os tempos mudaram mas ainda existe a identificação, e o Cônsul uruguayo em Bagé, no aniversário do clube (este ano), declarou-se torcedor do Peñarol no Uruguay e do Bagé, no Brasil, e os dois clubes guardam certas coisas em comum, ainda que com algumas pequenas rusgas, como a da notícia acima.

A dancinha do Fernando Henrique

A Copa Libertadores, como diz um amigo meu, é a "Liga dos Milagres".

E é verdade. Não existe torneio no mundo com tamanha mística, com tantas viradas, com tanta emoção. A Libertadores é futebol em estado puro, genuíno. É tão mística que muitas vezes passa a impressão de que a copa "escolhe" o vencedor. Em certas edições, o torneio cria vontade própria e decreta o campeão.

E isso aconteceu esse ano.

Não durante as duas partidas, duas peladas ótimas de se assistir, com vários gols e centenas de erros de passes. E sim na decisão por penaltis.

Tipo...
a Libertadores já não tem muita simpatia pelos cariocas. Pelo Fluminense então... havia disputado 2 edições, eliminado precocemente em ambas, por clubes não lá muito grandes também. Em 2008, depois de uma mobilização e milhões gastos em contratações, o Fluminense chegou! Venceu São Paulo e Boca Juniors, de modo 'copeiro', raramente perdendo chances de gol. No meio dessas vitórias, a campanha da rede Globo para fazer os brasileiros torcerem pelo Fluminense foi bem fiasquenta, as transmissões foram vergonhosas, com manipulação de áudio para transformar a torcida do Fluminense, historicamente quieta e corneteira, em uma massa de apoio inexpugnável, uma força avassaladora que vinha das arquibancadas "cheirosas" do Maracanã, com muito pó-de-arroz e purpurina.

Chegou na final contra a LDU, clube que vinha fazendo boas campanhas e base da emergente seleção equatoriana. O empate de 5x5 ao final de mais de 210 minutos de futebol levou a Copa para mais uma decisão por penaltis.

Bom, cheguei aonde queria: os "penáis"... quando a vontade da Libertadores se manifestou, após ser zombada.

"Pero, que se pasó, boludo?"

Boludo não, mais respeito! Então, che... acontece que depois de defender seu penalti, Fernando Henrique não comemorou como gente normal - ele saiu dançando. Pois é, o cara defende um penalti na decisão da Libertadores, e sai dançando, requebrando, com sorriso no rosto, tirando sarro da história do torneio, guspindo (sim, com G) na memória de goleiros-heróis como Chilavert, Zetti, Henao, Córdoba e Higuita. Uma cena que gerou vergonha alheia em todo o continente.

Talvez, no Rio, seja tradição comemorar com assim, dançando na boquinha da garrafa. Mas a Libertadores não entende, ela é séria e amarga demais, ela gosta de sangue, gosta da vontade acima da técnica - ela só permite a alegria depois do sofrimento. Ninguém nunca venceu uma Libertadores sem respeitar a sua história e sem se moldar aos seus eternos clichês. O Fluminense quase conseguiu.

Quase.

Seria demais, um exagero, permitir que um clube médio como o Fluminense vencesse a Libertadores dentro do Maracanã. Com o ridículo Renato Portaluppi vomitando asneiras, pior ainda. Com Thiago Neves virando herói, quase impossível. Com a dancinha, o limite foi estrapolado. Não existe seriedade numa dancinha daquelas, não existe nada que lembre futebol de verdade naquela dancinha. Quando Fernando Henrique requebrou, La Copa sentenciou: "no ganaran".

O Fluminense perdeu a final mais fácil da história da Libertadores, e Cevallos, típico goleiro sulamericano (tosco, espalhafatoso, catimbeiro, cabeludo e pegador de penaltis), se tornou o herói da noite.

Ao que só me resta dizer: chora, Pedro Bial!

Ô povo

Brasil 0 x 0 Argentina. E eu não teria um texto que coubesse tudo o que sinto e percebo com o que circula em relação à Seleção Brasileira. Poderia ser um texto cheio de palavras bagaceiras. Não pelo resultado, nem pelo futebol apresentado. E sim pelo comportamento do brasileiro médio que acompanha futebol.

Eu admito, fico irritado. Assisti a partida, os comentários de antes, os durante e as entrevistas após, ao vivo.

O Brasil é singular. Como já disse Parreira, não é a reação do público, porque o público, no Brasil (talvez em outros lugares também seja assim) é a caixa de ressonância da imprensa. Uma imprensa de baixo nível, ao menos neste caso, e nos veículos que acompanhei. Também acompanhei a entrevista coletiva do Dunga após a partida. Direcionada pelos repórteres (para o ponto desejado) e com todos os clichês de sempre. Os jogadores, com alguma ou outra exceção, bonecos de títeres. Acanhados. Respondendo, ou o óbvio ou caindo em pequenas intrigas em virtude das perguntas (como no caso de Adriano). Cagados.

De sincero, Gilberto, que criticou abertamente a torcida por ter aplaudido Messi. Os críticos desta declaração, dizem que bom futebol se aplaude. Mentira. Futebol do adversário só é aplaudido pela torcida adversária. É bonito, admirável, no discurso, apenas lá, na teoria. Na realidade, o aplauso desta noite era para afrontar a Seleção Brasileira. Não entro no mérito, mas gostei da atitude do Gilberto, de falar, reclamar e apontar a nossa torcida canalha. Tu podes dizer “ah, mas a torcida paga seu ingresso...”....Que não vá! Que fique em casa. Que não pague. Mas este é apenas um parágrafo, de um pequeno capítulo, do enorme livro de vergonha que é a torcida brasileira.

Voltando para a imprensa (sei que é horrível generalizar, e a generalização é traço de ignorância, mas em termos de cobertura da Seleção Brasileira, a generalização não fica tão longe do específico), ela tem problema de longa data com o Dunga. Vem de 1994. O Brasil, com o Dunga como capitão e símbolo, ganhou uma Copa do Mundo num 0 x 0. Nos pênaltis. Isto após Dunga ter sido morto e enterrado como jogador em 1990, pela mesma imprensa. Foi o maior tapa na cara que a imprensa esportiva brasileira tomou, como jamais na história deste país, fazendo uma apologia (analogia) com uma frase do Lula. E isto não foi perdoado e nunca será. Crime gravíssimo. Hediondo.

- Mas Dunga como técnico não é o mesmo Dunga jogador!
Mas tudo é pessoal. Dunga não tem experiência, ok. Dunga é mau técnico, pode ser. Dunga nunca treinou ninguém, ok. Mas Dunga é Dunga. E paga por isto, também, mesmo que seja o melhor técnico.

E basta olhar a TV, ler alguns jornais. O tom é raivoso, claro, a comemoração do Dunga em 1994 foi raivosa. As pessoas mais jovens não sabem, mas até 1994, o Brasil ser campeão do mundo era utopia, para as pessoas da minha geração, que começaram a acompanhar copas entre 82 e 86, mesmo sem entender muito...era utopia. A eliminação dramática era o “normal”, como em 2006.
E Dunga acabou com isto. Pior, Dunga, junto com Parreira, meio que acabou com o mito do “perde bonito” de 1982. Bom, eu e uma galera festejamos, entre eles alguns que odeiam futebol de resultado.

Talvez Dunga precise, de novo, erguer uma taça de verdade, raivosamente. Com um fato deste tipo, o povo acalma e com o povo acalmado, alguns cronistas não tem coragem de escrever contra.

No jogo de domingo, contra o Paraguay, vi uma enorme faixa da torcida deles, que falava sobre o orgulho de ser paraguayo. E assim se comportam os torcedores na América do Sul. Menos no Brasil. A última coisa que existe é orgulho de ser qualquer coisa. Ou odeia-se a Seleção Brasileira por ser mercantil, algo assim, ou também odeia-se a seleção por não estar goleando qualquer adversário por 5 x 0. Acham lindo aplaudir jogador adversário, por ser um exemplo de desportividade, e por outro lado, ironicamente, não têm o menor respeito com qualquer adversário, pois só aceitam goleadas como resultado, mesmo num clássico.

Incrivelmente, o comportamento, dos mesmíssimos torcedores, quando o seu clube joga, é diametralmente oposto. 1 x 0 é festa. Ou alguém aqui questionaria um título mundial do seu clube por ser nos pênaltis? Mas com a “seleça”, não. Tem que ser goleada. Que seja assim, mas não mintam.
Todos torcem mil vezes mais por seus clubes do que pela seleção. E depois admiram esta e aquela torcida de tal país. Pura hipocrisia. Da má torcida, nós fazemos parte.

Ao Brasil, pode faltar alma, mas porque o torcedor brasileiro também não tem. Se dividem entre os que exigem goleada sempre, e entre aqueles que acham que não se deve torcer pela Seleção porque os jogadores só querem isto e aquilo, são mercenários, etc. Bom, se vamos deixar de torcer para um ou outro time por causa do tipo de jogador que veste a camisa, então todos os torcedores já tinham deixado de torcer para sua equipe por vários anos.

Resumindo: o torcedor brasileiro é um bunda-mole. Sem fibra, de uma ou outra maneira. Entreguista, hipócrita e mau-caráter (em termos esportivos). Não vele nada.
E este torcedor é que vaia o Dunga. Mas que não fosse o Dunga. Que fosse qualquer um dos jogadores “mercenários”. Não têm o direito de vaiar os que imprimem um comportamento igualzinho aos deles. Primeiro torçam pelo Brasil, de verdade, depois começarão a ter o direito de criticar.

Não é assim nos clubes?

Por isto ainda gosto de assistir os jogos da seleção em casa, longe de bares e aglomerações, onde vejo pessoas mais velhas, que pouco acompanham escalações, torcendo pelo Brasil, pela simples razão de serem brasileiros, com todas as diferenças que temos dentro do país. Onde se torce pelo gol do Brasil, independente da boleiragem que toma conta da seleção, pois eles nem sabem o que é boleiragem ou selenike. Mas torcem pelo Brasil, simplesmente.

E pro Dunga, eu faço coro que largue. Larga, Dunga. Não há vitória que faça saciar este povo. Porque simplesmente, eles não torcem pelo Brasil. Mas, estranhamente, admiram os povos que torcem fanaticamente pelas suas cores....tipo, faz o que eu admiro, mas nunca faça o que eu faço.

Em noites como a de hoje, lendo e vendo tanta coisa, lembro do gaúcho Chico de Uruguaiana, do expresso da vitória do Vasco, e que foi expulso em 9 dos 10 jogos que disputou contra a Argentina. Que foi agredido covardemente por lá, mas enfrentou. Ele tinha esta rivalidade, por ser da fronteira, por ser gaúcho. Na época dele não tinha Rede Globo, qual será o motivo da rivalidade, então? Nossas semelhanças culturais nunca foram motivos para aplaudir adversário. Chico já sabia disto, e cultivava a guerra futebolística dentro de campo.


Eu não odeio a seleção, ela é reflexo do povo. Eu torço é para que ela mude, mas enquanto isto não acontece, eu vejo na unanimidade o meu inimigo. Por isto, eu odeio é a torcida do Brasil. E como sou do contra, sou cada vez mais torcedor da Seleção Brasileira (não dos jogadores, mas da seleção). Não por goleadas. Vitórias magras já me bastam, igualzinho quando torço pelo meu clube, mas vitórias. E 0 x 0 em clássico, a gente (torcedor de clube) faz assim, lamenta os gols perdidos e pensa : “pelo menos eles não nos ganharam”.

Admito que seja difícil torcer por este Brasil sendo gaúcho, mas é mais difícil ser gaúcho vendo uma torcida de mortos assistindo a Seleção e abandonando sempre. SEMPRE.
Viva Chico!

Sábado

Cheguei tarde no Beira-Rio.

Costumava chegar 2 horas antes dos jogos... agora, com a lei seca, preciso chegar mais cedo ainda. O álcool, pro torcedor, é tão fundamental quanto a própria bola no futebol.

Mesmo que o dia frio estivesse com sol, na minha memória ele me parece meio cinzento. A cerveja descia com dificuldade. Lamentei ter esquecido os cigarros - não compro um maço há meses...

A saudação para os amigos foi quase tímida, se comparada às de outros tempos. A quantidade de cerveja também. O clima estava estranho.

"É foda, tchê..."

Dia atipico mesmo: fomos de superior, só pra variar, após anos indo na popular. Lá dentro, estréia do novo técnico.

"Precisamos ganhar, hoje não tem!"

Primeiro tempo acabou - 2x0, e o Edinho marcou um golaço. Bizarro. "Edinho" e "golaço" na mesma frase? Falei que o clima estava estranho.

Segundo tempo foi retranca. O outro time descontou no final. Bela vitória, com raça e tudo que eu poderia esperar pra deixar meu sábado bacana. Mas não vi muitos sorrisos aquele dia. O jogo, definitivamente, não era o que prendia a atenção de todos.

A notícia da manhã nos pegou de suspresa, e não sabiamos como reagir. "Nem falaram o nome dele no jogo", eu pensei, e a torcida ignorou o fato.

Duas horas após o apito final, os amigos sentados numa mesa de posto bebendo, e um silêncio forte no ar - que não era exatamente falta de assunto, mas a presença intensa do tópico do dia, que quase ninguém comentara.

Talvez a perda tenha sido tão grande que a mente recusou-se a tecer qualquer pensamento, qualquer conclusão definitiva sobre tudo aquilo.

Foi tudo abrupto demais. A chegada e a saída. Os últimos 4 anos, as 6 taças, os gols. O choro que interrompeu a entrevista.

Dois dias depois, ainda não tenho opinião. Não quero fazer um texto de despedida, me nego. No sábado, todos dedicaram a vitória à ele. Enquanto nós, no estádio, cantavamos pelo clube, ele ia sozinho pelo Salgado Filho embarcar pro Oriente, pros petrodólares, em algum país obsoleto, onde as pessoas usam panos na cabeça.

Eles passam, todos passam, e só ficamos nós, o coletivo inexorável que é uma torcida de futebol. Sem ter o que falar e olhando para o céu enquanto um avião passa lá longe, na hora do crepúsculo mais belo do mundo, levando com ele parte da história do futebol gaúcho.

Fico com as memórias, a gratidão genuína, e a certeza de que o nosso Sebastianismo tem fundamento: Ele voltará em breve.

A Centúria Celeste

Por: Maurício Kehrwald


Após ir dormir com a cabeça inchada por mais uma aviltante goleada sofrida pelo seu time do coração no semi-clássico regional, Cesinha acordou possuindo a Verdade Absoluta.

Acordou num sobressalto, é bom que se diga. Consciente do impacto que tal revelação causaria ao mundo, ao sentimento de paixão incondicional de cada torcedor, de cada time do globo terrestre pelo futebol em si, Cesinha cogitou omitir.

Além do mais, a Verdade Absoluta era por demais grandiosa (afinal era a Verdade Absoluta) e, como toda a nova revelação revolucionária, haveria de ser desacreditada.

É. O melhor mesmo era calar-se para sempre. O mais ajuizado, o mais sensato, o mais inteligente.

E, por isso mesmo, Cesinha decidiu fazer a grande revelação. Para isso, chamou seus dois comparsas e futuros difusores da Verdade Absoluta: Alex e Alemão.



Sexta-feira, oito da noite, Mesa Magna da sala de reuniões (Snooker do Patinho, mesa de plástico da Polar)


Alemão: Ó, Cesinha, espero que desta vez valha a pena, hein...

Alex: É! Da última vez em que falamos, tu vieste com aquela história de complô da Federação Gaúcha de Futebol pra beneficiar você sabe quem, e, quando perderam, ficou aí inventando mil desculpas...

Cesinha: É que eu tinha um bom informante... conheço um cara que é filho de um conselheiro do clube, e...

Alemão: (levantando) Eu vou embora!

Cesinha: Tô pagando a cerveja

Alemão: (senta-se rapidamente) Vou ficar só pra não dizerem que sou mau amigo.

Alex: Qual é o caso desta vez? Quem está armando contra teu time desta feita? O Talibã, a máfia soviética? (risos)

Cesinha: Russa! É máfia russa. Mas não, não tem ninguém querendo prejudicar o meu time, a não ser, é claro, os de sempre. Hoje vim revelar-lhes A Verdade.

Alemão: A verdade?

Cesinha: Não. A Verdade. Com maiúscula. A Verdade Absoluta.

Alex: Bom, então neste caso, que venha a primeira rodada!

Alemão: É!

Cesinha: Certo, certo (esfregando as mãos) Patinhô, uma Polar grande e três copos. Limpos, desta vez.


Sexta-feita, oito horas da noite mais quatro minutos, mesmo lugar mas agora com cerveja


Cesinha: seguinte, eu fui dormir na noite passada um pouco chateado, devido aos acontecimentos...

Alemão (interrompendo) O sacolaço de 6x0 que vocês tomaram, de novo, do...

Cesinha: (cortando aos gritos) Cala a boca! Eu tô pagando a cerveja e vocês vão me ouvir!

Alex: Fala aí!

Cesinha: Hunpf...

Alemão: Deixa de frescura. Fala!

Cesinha: Todas as Copas do Mundo foram arranjadas!


É preciso dizer que Alex e Alemão levantaram ao mesmo tempo e foi preciso que o Cesinha, além de implorar para que ficassem, prometesse cerveja ilimitada para ambos, a noite toda, até às seis da madrugada.

Caso alguém estivesse consciente até lá, é claro.


Reinício da palestra, oito da noite mais treze minutos, o lugar não muda nem sequer mudará. Mais uma cerveja na mesa


Cesinha: Como eu ia dizendo, quando vocês de maneira muito desrespeitosa interromperam, todas as Copas do Mundo foram arranjadas.

Alex: Tá bom...

Alemão: Todas?

Cesinha: Todas menos uma! Que foi arranjada, mas uma das partes não colaborou. E por isso paga até hoje.

Alemão: Qual é...

Cesinha: Calma! Esta revelação se dará somente mais tarde.

Alex: Olha, Cesinha... que uma ou outra tenham sofrido influência até vá lá, mas... todas... ou todas menos uma...

Cesinha: Provarei através de evidências irrevogáveis, meu caro. Evidências irrevogáveis. Obviamente devo dizer que as regras do jogo do poder mudaram muito durante os anos. Que medidas preventivas foram tomadas em função de determinadas circunstâncias, mas, hoje, temos padrões muito bem definidos de conduta, possíveis campeões, leis de compensação histórica e, é claro, motivações políticas de toda a ordem.

Alemão: Nossa, isso vai longe... ô, Patinhô... mais uma.


Após alguns protestos, discussões de veto às influências políticas e três cervejas além, já passa das nove da noite e o álcool começa a trabalhar na mente dos convivas. Além do mais, ficou convencionado que, antes do arranca-rabo de 45, a coisa era por demais obscura à luz dos fatos e evidências. Cesinha sorriu com a simples menção de tal divisão. E assim ficou acordado entre os três.


Alex: Tá como tu nos explica a Itália ter ganhado a Copa da Alemanha, em 2006?

Cesinha: Europeísmo e compensação histórica. Fácil!

Alemão: como assim?

Cesinha: Os europeus, depois de 58 (e mais tarde darei uma explicação adicional que é a alma da teoria), tomaram uma medida de preservação – que eu chamo de europeísmo – para que jamais uma seleção não-européia ganhasse naquele continente.

Alemão: Tá, mas por que não a Alemanha?

Cesinha: Poderia até ser, em caso de acidente, mas foi a compensação histórica por a Alemanha ter conquistado a de 90, na Itália.


Considerando tal uma evidência ao menos considerável, Alex e Alemão começaram a se interessar mais pela teoria do amigo.


Alex: Tá. Resolvido 2006 e 90. Mas e 2002? O que tem a ver o Brasil com o Japão e a Coréia?

Cesinha: Lembra o que fizeram com a Espanha e a Itália nos jogos contra a Coréia? E o Brasil contra a Turquia! Os brasileiros – sobretudo o Zico – reinventaram o futebol no Japão e como a Copa era fora da Europa, a CBF já havia previamente aceitado perder a Copa de 98 para a França e reconquistar o título quatro anos depois, por predileção nipônica e sob o aval da FIFA.


Novamente Alemão e Alex se entreolham. As coisas começavam a tomar forma. De repente tudo parecia fazer sentido: uma incrível, milionária e mundial manipulação de resultados se mostrava palpável.

Alex queria mais evidências, porém:


Alex: 62?

Cesinha: América do Sul. O Brasil tinha o melhor time. Não tinha como não ganhar!

Alemão: 66?

Cesinha: Inglaterra. Os inventores do futebol nunca tinham conquistado o título-maior do futebol...

Alex: 70...

Cesinha: O time do Brasil era mágico. Talvez o maior de todos os tempos. O Negão tava no auge... mas só ganharam porque era no México. Fosse na europa, teria dado Itália.

Alemão: 54! Final européia! O que tu me diz disso? Hein, hein?

Cesinha: (sorrindo com ares de fidalgo) Bem... primeira Copa do Mundo na Europa pós-guerra... Alemanha em frangalhos... o povo alemão precisava de um alento... de uma nova razão para se orgulhar... de um milagre... um milagre de Berna!


Alemão já estava arrepiado – e bêbado, enquanto Alex não parava de se remexer na cadeira. Tudo fazia sentido. Tudo estava claro! Como haviam sido inocentes! Graças a Deus eram amigos do Cesinha, que tanto subestimavam e que agora mostrava-se, irretorquivelmente, o mais genial de todos deles.


Alemão: Quais Copas faltam... un...

Alex: 74?

Cesinha: Alemanha jogou em casa. Poderia ter dado Holanda. Prevaleceu o fator local...

Alemão: 1978...

Cesinha: A ditadura comprou esta Copa, meus caros. Era na Argentina, eles nunca haviam sido campeões.

Alex: ora, ditadura...

Cesinha: A Argentina ganhou de 6x0 do Peru no último jogo classificatório e foi pra final. O tal do Cruyff se negou a jogar esta copa pois sabia do que a ditatura era capaz.

Alemão: Meu Deus, tudo faz sentido... ô, Patinhôôô, mais uma aqui pra nós!

Alex: 82?

Cesinha: Na Europa. Final entre Itália e Alemanha. Vocês acham que foi por acaso? Com o timaço do Brasil? Precisa ser muito inocente...

Alex: 86?

Cesinha: Copa fora da Europa. Gol de mão. Maradona no auge...

Alemão: 90?

Cesinha: Já falamos de 90, que, além do já dito... bem... foi a revanche de 86, na Europa. Era claro que a Alemanha seria a campeã... ou vocês acreditam que um time que tinha Maradona poderia perder uma partida daquelas e com gol de pênalti ainda por cima...


Houve um longo tempo de silêncio. Todos davam generosos goles em seus copos. Pareciam meditar.

Cesinha estava em transe.

Alex estava perplexo.

Alemão pedia mais uma cerveja.


Alex consultou o velho cebola: nove e trinta e três. Respirou fundo e veio-lhe à mente uma idéia que poderia colocar tão maravilhosa trama abaixo. Não teve escolha:


Alex: Mas... Cesinha...

Cesinha: Sim?

Alex: E 50? O mais óbvio era que o Brasil ganhasse, afinal a copa era aqui, o Maracanã estava estourando gente, o Uruguai já havia sido campeão em sua própria casa...

Alemão: Pois é (gole) em 50 (gole duplo) o Brasil (gole longo) deveria ter sido o campeão!


Cesinha atirou os braços para os lados. Sorriso de Mona Lisa no rosto.

Os amigos perceberam, aliviados, que ele deveria ter uma justificativa para aquilo.

E tinha.


Cesinha: De fato, 1950 foi arranjada para o Brasil ser campeão.

Alemão: Mas como?! E por que o Uruguai ganhou?

Alex: É, pelo visto a sua tese caiu por terra...


Cesinha serviu-se com mais cerveja. Entornou o copo inteiro e produziu um “Ahhh” de satisfação. Prosseguiu.


Cesinha: O Uruguai sabia que deveria perder. Em troca de compensações futuras, como todas as seleções de qualidade e/ou força política. No entanto, alguns homens de muito valor como Schiaffino e Ghiggia simplesmente se negaram a entregar o jogo para o vizinho e rival histórico. Eles sabiam que se perdessem a partida em tais circunstâncias, não perderiam somente um campeonato. Perderiam suas almas.


Houve um silêncio de alguns segundos. Nem o Alemão se atreveu a dar um gole neste lapso de tempo. Cesinha não deixou a bola cair.


Cesinha: Tanto é, que quando o jogo acabou, os jogadores do Uruguai não foram comemorar direto. O juíz apita e alguns deles se olham, como que dizendo: “O que foi que nós fizemos?” Os brasileiros não acreditam no que está acontecendo... e, por fim, 58 foi a compensação histórica por 50. E todos os títulos europeus na Europa foram a compensação desta compensação. Hoje, enfim, temos um padrão bem definido de como a coisa toda funciona.

Alemão: (já completamente alcoolizado, mas juntando forças para formar uma frase completa) Mas Cesinha... o Uruguai não deveria ser punido?

Alex: (com olhos arregalados) Meu Deus... o Uruguai... nunca mais ganhou nada... ficou fora de muitas e muitas Copas do Mundo... é eliminado em repescagens contra times de Rugby... Cesinha, meu querido: eis a Verdade Absoluta.

Cesinha: Sim, mas tal punição tem prazo, meus queridos...

Alemão e Alex: Tem?!

Cesinha: Sim, 100 anos.

Alex: 100 anos?! Mas...

Cesinha: Sim, a punição tem um nome: Centúria Celeste.

Alemão: Centúria Celestre...

Alex: Centúria Celeste...

Cesinha: É. Centúria Celeste. Até 2050, pelo menos, o Uruguai não ganhará uma Copa do Mundo sequer. Este é o preço que pagam por não terem vendido suas almas.


Alemão, mais por bebedeira que por amor à República Oriental, tinha lágrima nos olhos. Alex estava em êxtase. Cesinha sorria, superior.


Cesinha: E saibam que esta é somente a ponta do iceberg. Citei as Copas do Mundo pois trata-se da vitrine do futebol. Até aqui, no nosso certamente gaúcho há manipulações de toda a ordem e que vocês não enxergam porque não o querem...


Obviamente a esta altura do campeonato qualquer coisa que o Cesinha dissesse seria lei. O brasileiro (gaúcho ou não) tem verdadeira tara por uma teoria conspiratória. E quanto mais conspiratória e mais inverossímel, mais digna de crédito!


Alemão: (recuperando por alguns segundos a sanidade e a sobriedade) Patinho, vê mais uma... ô, Cesinha, perdão por ter duvidado de ti... mas agora conta, sério, o que o campeonato gaúcho nos reserva? Quem será o campeão?

Cesinha: pois bem, estas derrotas que meu time vem sofrendo são embustes, disfarces para despistar o grande público. O campeonato já está comprado para nós por nosso futuro novo patrocinador. Já tá tudo certo!

Alex: Como é que é?!

Cesinha: Exato. Já tá tudo certo! Uma grande empresa multinacional patrocinará o glorioso. Compraram este campeonato junto à federação e aos times de capital por uma fortuna e alguns favores futuros que, agora, não posso revelar, por favor não insistam (ninguém haviam feito sequer menção de insistir). Ano que vem o patrocinador entra oficialmente no time que é campeão gaúcho e – por favor, é segredo, viu – campeão da Copa do Brasil deste ano também e ganhará muita mídia... como eu disse, já tá tudo certo!


Alex e Alemão estavam perplexos. Beberam muito até o amanhecer. Cesinha sentia-se um deus.


Nas semanas que passaram, nosso profeta-futebolístico teve tratamento de Rei pelos dois amigos (e pelos amigos dos amigos que ficaram sabendo dos fatos). Cesinha não pagava mais cerveja nem entrada em lugar que fosse. Celebridade: era isso o que Cesinha se tornara entre os fanáticos da bola naquela cidade e assim era tratado por todos.


O clube do coração de nosso filósofo do esporte bretão chegou – como não poderia deixar de ser – à final do Campeonato Gaúcho. Todos em polvorosa. Primeiro jogo da final na casa do glorioso (no interior do estado), segundo jogo na capital.

A primeira partida acabou em 1x1. Após o término, numerosa audiência no Snooker do Patinho. Cesinha chegou – com a camisa do clube – e, após ser rapidamente cobrado, respondeu com ares de despreocupado:


- Já tá tudo certo! Querem exposição maior na mídia do que uma vitória épica fora de casa?


Todos se calaram, envergonhados. De fato, Cesinha estava num patamar acima dos demais. Eram todos medíocres nos conhecimentos do futebol. Menos ele, o Escolhido.


Todos beberam à saúde do amigo.

Cesinha, a essas alturas, tinha copa livre na casa.


Domingo, cinco horas da tarde mais três quartos, finalíssima do Gauchão, Snooker do Patinho, todos os amigos, conhecidos e admiradores do Cesinha presentes. Cesinha estava na capital, vendo o jogo no estádio.


O juíz apita o final do jogo. Time da capital 4, time do Cesinha 0.

Apesar de seu time ser o campeão, Alex está revoltado. Quer tirar satisfações.

O celular de Cesinha está desligado, mas pouca diferença faz. Ele nunca mais irá ligá-lo. Cesinha sequer voltou para sua cidade. Está morando com uns primos e – dizem – até já arrumou emprego.


Patinho está revoltado: quer cobrar todas as cervejas que Cesinha tomou quando ainda era ídolo.


Alemão e Alex não vêem a hora de encontrar o Cesinha: querem surrá-lo até a exaustão. Todos os seus amigos lhes viraram as costas, por professarem tamanho despautério, esquecendo, é claro, o fato de também terem dado crédito e divulgado tal tese.


É, pode ser que o castigo para o Uruguai não dure tanto, mas o Cesinha, ah, o Cesinha sim, vai curtir um longo exílio.

E pensará 2 vezes antes de falar qualquer coisa que seja, principalmente sobre futebol.


Cesinha, já tá tudo certo: sua carreira acabou, garoto!

Que paliza que te deram

Aqui no blog, há algum bom tempo, abandonamos os comentários diários ou sobre fatos pontuais do futebol atual. Escrevemos (?) sobre o futebol genericamente, ou sobre "periféricos" futebolísticos, como apropriadamente denominou o Maurício.

Mas hoje quero fazer um breve comentário sobre o jogo Flamengo x América, pelas oitavas-de-final da Libertadores da América 2008. Aliás, após o resultado, pode-se chamar o fato Flamengo x América. Poderia estar escrevendo sobre o 8 x 1 fora-de-série da final do Gauchão, mas isto todos já sabem, é exceção no futebol. Goleadas já são difíceis de serem aplicadas, e muito mais quando extrapolam o sexto gol (não me perguntem o motivo de respeitarem a marca de 6, que o Inter acaba de ultrapassar também). Então esta final de Gauchão é um fato diferente. A derrota do Flamengo de ontem, não. Se não é vulgar, ao menos não é rara. Todo os ano, em algum campeonato pelo mundo acontece algo parecido. E mesmo assim, sucedem-se os ingênuos e invariavelmente perdem.

Eu, sinceramente, não tenho a menor idéia de quando os gestores e jogadores do futebol irão respeitar - não o adversário - mas o futebol. Não é ser pessimista ante a um confronto (o Flamengo havia aplicado um humilhante 4 x 2 no jogo de ida, no México), mas basta olhar alguns confrontos do ano passado, quem sabe até no mês passado, para observar que o imponderável pode acontecer dentro do próprio campo.

Mas o Flamengo, de alguma maneira, mais uma vez cometeu este erro, o que reforçará a estatística, mas tenho certeza, não reforçará os devidos cuidados em situações similares. Ano que vem teremos outra situação assim, quem sabe mês que vem. Porque vislumbram camisas, e não o futebol. Não será o primeiro, nem o último, e possivelmente o próprio Flamengo recorra no erro.

Na entrevista de despedida, um ponderado Joel Santana falava sobre as lições que a Libertadores apresenta. Mas talvez tenham esquecido, que não é apenas na Libertadores, mas no futebol é assim. A palavra mais recorrente que encontramos para descrever isto, talvez por falta de outra mais apropriada é soberba, ou na gíria futebolera, salto-alto. Não acho tão simples assim, apesar disto contribuir bastante. Olhando os lances da partida, os gols do América, quase chega-se a perceber alguma presença mística, mal-humorada e sarcástica. Se um dia me disserem que estes fatos são comandados por um ente futebolero, terei dificuldades em duvidar.

Mas assim é e sempre ocorre e continuará ocorrendo. A tal caixinha de surpresas é impiedosa e gosta de tragédias contra os que esquecem da essência. Certo, esta estava de alguma forma anunciada (pelas festas anteriores), mas 0 x 3 ? A medida exata.

No México estão chamando de "
Novo Maracanazo". Eu chamo de futebol, e que bom que seja assim. Se duvidarem de mim, conversem com o Leprechaun. O Flamengo o perdeu de vista por alguns segundos, como muitos já fizeram, e bastou. Afinal, é futebol.


Alguns clichês do futebol

Que o futebol é recheado de clichês, é um clichê afirmar.
Mas alguns soam mais irritantes, porque escondem a realidade e fica como verdade.
No jornal Zero Hora de ontem, o jogador Nilmar ao comentar sobre a derrota do Inter contra o Paraná pela Copa do Brasil, declarou:
- No futebol brasileiro não dá tempo de ficar triste, é um jogo em cima do outro.


Ora, na Europa os jogos se dividem entre quarta e domingo também. Nos finais de semana os campeonatos nacionais e nas quartas, as copas de cada país e as competições continentais. Não que o calendário no Brasil seja melhor que o da Europa ou perfeito, longe disto, mas o intervalo de dias do jogo do Paraná e do Gauchão é perfeitamente normal, considerando-se qualquer calendário. E não é só jogador que repete isto, na imprensa também, e dando a nítida impressão que não há jogos nas quartas na Europa.

Outro destes clichês europeus é sobre a adaptação ao frio. Ok, jogadores de São Paulo para cima no mapa brasileiro podem estranhar. Mas um jogador do Sul, que chega lá na primavera (por exemplo) dizendo que a dificuldade era o frio, parece que estava sob 40º graus aqui. E eu vi uma entrevista neste sentido, há alguns anos atrás. Mais uma vez cabe esclarecer: todos sabem que na Europa, no inverno, o frio é muito mais intenso que no Sul (se bem que depois de 0º grau, é tudo “frio”, tirando a dificuldade nos países que jogam com campos cobertos de neve). Mas nas entrevistas, passam a impressão que saíram de uma vida inteira jogando com 45º de temperatura, e foram jogar diretamente no pólo norte. Qualquer dia algum jogador brasileiro reclama da dificuldade de adaptação ao idioma em Portugal.

Terceiro clichê e deliberadamente repetido por imprensa e jogadores: o tal do “campo pequeno”. Em qualquer empate ou jogo difícil no interior, sempre aparece um comentário de jogador e da imprensa: “neste campo pequeno é complicado”.
Sim, existem campos pequenos no interior. Mas existem campos de todos tamanhos e por maior que sejam as medidas do gramado, as declarações serão as mesmas. Isto porque a arquibancada sendo acanhada e perto do gramado, o campo “é pequeno”.
Sobre este ponto, vou fazer outro tópico, com ajuda do Google Earth, comprovando que muitos clubes do interior, têm estádios pequenos mas campos da mesma dimensão ou maiores do que os da dupla Gre-Nal. Já fiz a verificação, mas de maneira desorganizada, quanto fizer a relação completa irei postar aqui, vale um tópico.

Quarto clichê, mas não menos importante: um time “menor” que o adversário, após a vitória, sai aos microfones: “isto é para provar para aqueles que nos menosprezaram que...blá blá blá”. Na realidade atual, ninguém dá declaração menosprezando adversários (apesar de eu querer ver mais declarações deste tipo, sinceras) , mesmo que menores historicamente.
Mas atualmente, ainda que respeitem o tal adversário menor, em caso de vitória deste, invariavelmente ele virá ao microfone de alguma rádio ou TV: “esta é a nossa resposta ao..blá blá blá”.
E mesmo que não haja uma linha escrita ou uma declaração que desmerecesse a porcaria do time, os jogadores do time “menor” saem falando isto.
Acho que eles deveriam dizer: “esta é a nossa resposta ao nosso próprio treinador, que no vestiário disse que se não jogássemos a nossa vida hoje, perderíamos de 8 x 0 “. Seria mais honesto e engraçado.

Existem dezenas, talvez centenas, de outros clichês no futebol, mas estes são alguns dos que mais irritam, porque não são simples chavões ou frases feitas, mas escondem a realidade. Por isto, coloco-os como os mais irritantes.

Volantes

Volantes*

1.Que voa ou pode voar; voante.
2.Flutuante, ondulante.
3.Que se pode mudar facilmente; móvel.
4.V. voltívolo (1).
5.Errante, nômade, vagabundo.
6.Passageiro, transitório, efêmero.

Estas são as seis definições do Dicionário Aurélio para o verbete volante, enquanto adjetivo.

Pra falar a verdade, eu nunca entendi muito bem essa coisa de chamarem volante o jogador que ocupa a posição reservada aos atletas mais voluntariosos e menos técnicos do time. Mas quando cheguei ao item de número 5, conclui: é um deboche! Só pode ser um deboche!

- É um erro de tradução, meu caro, e...
Sim, sim! Esqueçamos este detalhe, senão a coisa descamba para a seriedade explícita.

Além do mais, algumas culturas do futebol dão a entender que volante técnico é imprestável. Basta um camisa 5 ou camisa 8 dar um toque mais refinado ou uma subida pela linha de fundo que já aparece a turma da corneta pra largar:

- Ih... volante faceiro... não sei não...

Ou:

- Epa! Ei, treinador! Ô, burro! Saca esse passista e coloca o Sidnei Volvo pra dar mais pegada!

Ou, pior ainda:

- Volante bom tem que dar pau o tempo todo. E se for expulso, cospe na cara do juiz. Que é pra mostrar quem é que manda.

Confesso que já fui assim. Fui e ainda sou um pouco; no entanto sou bem menos radical hoje em dia. Inclusive até admito que um dos dois volantes saiba jogar. Os dois não, porque aí também seria exagero.

Falar sobre volantes me fez recordar uma história, verídica, claro.

Certo, ela pode ser quase verídica, e, se não é de uma veracidade plena, ao menos é baseada em fato sucedido, e... enfim, vamos ao causo:

Certa feita surgiu num time do Rio de Janeiro um volante muito habilidoso, que marcava gols, inclusive. Tinha uma boa noção de cobertura da zaga e dificilmente errava um passe.

Pois aconteceu que este jogador, depois de conseguir o merecido destaque, foi negociado com o futebol ucraniano e passou duas temporadas lá. Se jogou bem ou não pouca diferença faz, afinal, o cara que vai pra lá, vai pra ficar rico e pra desaparecer.

Bom, mas acontece que depois deste tempo o cidadão quis voltar para o Brasil, sob o pretexto de tentar vaga na seleção, pois assim seria observado de perto e etc...
Seu empresário numa – como diria o grande jornalista Marcello Carvalho Barbosa – "negociação digna de um Oscar" tanto fez que conseguiu colocar seu atleta, através de uma transferência milionária, no futebol paulista.

Após certa demora, graças aos trâmites de praxe, o cara estreou já num clássico. Passou o primeiro tempo inteiro perdido correndo atrás da bola, e, quando recebia um passe, logo despachava a pelota para o campo de ataque.

Voltou para o segundo tempo mais perdido ainda. Poucas vezes pegou na bola e, assim, foi substituído.

Em entrevistas pós-jogo o treinador pediu paciência para com o atleta, pois era sua primeira partida, a equipe havia conseguido a vitória... Aquela conversa de técnico de futebol.

Foi, porém, na única resposta dada pelo atleta à única questão que lhe foi feita, que todos sentiram o drama da coisa:

- E aí, o que falta pra você voltar a apresentar o seu melhor futebol?

- Neve.

O empresário do atleta riu.
O presidente do clube chorou.

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* Texto de Maurício Kehrwald

Cicatrizes na alma

"(...) Não me recordo de mais nada que eu tenha desejado por duas décadas (o que mais pode com sensatez ser desejado por tanto tempo?), e tampouco recordo-me de algo que tenha desejado ainda garoto e já homem feito. Portanto, por favor sejam tolerantes com aqueles que descrevem um momento esportivo como o melhor de suas vidas. Não carecemos de imaginação, e tampouco levamos vidas tristes e áridas; apenas a vida real é mais pálida e mais chata, e contém menos potencial para o delírio inesperado."

Esse aí acima é Nick Hornby (vocês ainda me ver citá-lo muitas, muitas vezes) comentando o que ele chama de "o melhor momento da vida (dele)": o gol de Michael Thomas no último minuto de jogo contra o Liverpool, na última rodada do campeonato inglês de 1989 - que, em Anfield, tirou o título das mãos do time da casa e deu para o Arsenal, que amargava uma fila de 18 anos.

Desnecessário dizer que concordo integralmente com esse inglês. Caso fosse listar os melhores momentos da minha vida creio que muitos deles, pra não dizer a maioria, seriam lembranças de euforia desmedida relacionadas ao futebol, mais especificamente ao meu clube. Muitos desses momentos com uma carga de dramaticidade fora do comum (Dunga contra o Palmeiras em 1999), outros guiados por uma sensação de apoteose heróica e gloriosa (Gabiru contra o Barcelona), mas todos eles servindo para fechar as próprias cicatrizes que o futebol abriu.

Porque o torcedor de futebol tem cicatrizes na alma.

Melhor: o torcedor que sofre tem cicatrizes na alma. Ainda mais se for criança.

Foi na minha infância, principalmente entre os 9 e 14 anos, que se abriram as maiores rachaduras no meu peito. Verdadeiros canyons sangrentos. Era a época em que os colorados torciam pra torcida colorada, e não exatamente pro time, já que o Grêmio só ganhava, o Inter só perdia, e a torcida era o que mantinha por um fio a nossa moral e o nosso orgulho, lotando o Beira-Rio logo após 2 vitórias seguidas, naquela esperança cega. A minha relutância em virar a casaca, a minha irredutibilidade no coloradismo era tão absurda quanto os fracassos em campo da era Zachia/Amoretty. Mais absurdo ainda é a maneira com que, hoje, eu olho aqueles anos: uma ternura melancólica, quase que sentindo saudades.

E creio que pra muitos que viveram aquela época o sentimento é o mesmo. Torcedores de outros clubes que passaram grandes períodos de seca e sofrimento devem sentir a mesma coisa... um misto de terror ("que essa fase nunca mais volte") e nostalgia ("ah, mas naquele tempo as coisas eram diferentes").

Porém, pra sentir isso, é preciso ter fechado as cicatrizes. O gol de Thomas fechou as cicatrizes de Hornby, tanto que ele escreveu um livro inteiro sem vergonha alguma de falar dos fracassos homéricos do boring, boring Arsenal entre 1971 e 1989. Da mesma maneira, não sinto vergonha de falar da minha fase de puro sofrimento xiíta e desilusão que durou de 1992 até 2006 (com alguns gauchões ganhos pelo caminho - que eu prezo muito), dos dias ouvindo protestos no portão 8 pelo rádio após as derrotas, das inúmeras trocas de técnico, das desclassificações para times inexistentes, de Mazinho Loyola e Leandro Guerreiro, João Santos e Manoel e Pretto, da MSI e Zveiter, da sensação de que o universo conspirava contra o meu time, e que eu deveria me resignar e aceitar que nunca veria o Inter campeão fora do Rio Grande do Sul.

Os gols de Sóbis, Tinga e Fernandão foram sarando as feridas, e o que transformou todas essas lembranças outrora atormentadoras em memórias carinhosas de um tempo que não volta mais foi, claro, o gol do Gabirú. Naquele domingo, logo depois de voltar da Av. Goethe, creio que no fim da tarde - depois de ter gasto 50 reais em cerveja, ter desmaiado no meio da avenida e ter sido acordado com mais cerveja - eu sentei em frente ao computador e caí num choro emocionado, profundo e fiasquento, de puro regozijo, que durou horas e horas, enquanto ligava para o maior número de pessoas que eu conseguia me lembrar na hora.

Esses gols, esses momentos, devem ativar algo no sistema nervoso das pessoas e, num piscar de olhos, aquela lembrança que te tirava o sono por anos e anos acaba se tornando uma prova viva (nem tão viva, já que só existe na memória) e terna da tua fidelidade, do teu caráter, do teu ideal mais alto e palpável, que é torcer pelo teu time. Acordei na madrugada do dia seguinte todo queimado do sol, com a alma leve, olhos inchados e a sensação de que algo havia mudado. Que eu acabara de passar por um momento que talvez jamais eu passe novamente.

Esse é o fardo comum entre todos os fanáticos por futebol: somos completamente previsiveis até mesmo pra escolher os grandes momentos das nossas vidas. Tenho absoluta certeza que mais alguns milhões de pessoas por aí apontariam aquele segundo da manhã do dia 17 de dezembro de 2006 como o melhor da vida delas. Assim como gremistas e corinthianos (pra citar dois tipos de torcedores que eu não nutro muita simpatia) mais antigos possivelmente apontariam o(s) gol(s) de Renato em 1983 e o de Basilio em 1977.

Mas pouco importa a individualidade de cada um quando o que está em jogo é o fim do teu martírio e o início de uma nova era. Se for para ter momentos como aquele novamente, eu me prontifico a realizar grande parte do maior número de clichês possíveis.

E claro, mostrar pra todos as minhas cicatrizes fechadas, como prova da minha inquebrantável fidelidade.

Nossos pais estavam errados

Não adianta, fomos enganados.
Se você urina de pé e tem entre vinte e poucos e trinta e alguns, já descobriu, mas nunca é demais lembrar: fomos, repito, enganados.
Todos nós, integrantes de uma irmandade de embusteados por quem menos deveria nos enganar: nossos progenitores; nossos pais.

- Maurício Eduardo, não vai jogar bola sem antes fazer os temas! (aqui no Rio Grande nós chamamos a lição de casa de tema)
- Mas, mãe... eu vou ser jogador!
- Não delira, guri! Quer ter um futuro? Estuda! Tem que estudar se quiser ter em emprego bom e blablablá...

Emprego bom?
Estudar?

Anos depois:

- Conseguiu emprego?
- Claro que não, velha filha da puta! Tô quase formado e não arrumo um emprego que me pague mais de 500 pilas!
- Ah, é assim mesmo...
- Assim mesmo é o teu cu. E agora já tô muito velho pra jogar futebol.
- Olha o respeito com a tua mãe...
- Respeito é o caralho. Eu tô fudido.
- (...)
- Vou sair. Sobrou R$6 e eu posso tomar um litro de vodca pra esquecer que eu nasci.

Ou isso ou você explica para os que arruinaram sua vida que o Avestruz, volante pesado, anão e atarracado )além de, dizem as más línguas, bêbado e gaveteiro) ganha por mês o que ele ganham - juntos - em um ano.

Você pode xingá-los e culpá-los.
Ou lamentar por não ter insistido mais.

Infelizmente, pra você não há mais tempo.
Mas sempre há uma parte engraçada: você não terá outra vida para realizar este sonho.

Ah, esta não é a parte engraçada!

A parte engraçada é que o Avestruz, agora 2 quilos mais pesado e um ano mais velho, foi contratado pelo Vasco por R$40.000 por mês e você não ganhará isso nos próximos 3 anos.

É irrevogável: nossos pais estavam errados.

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Texto de Maurício Alejándro Kehrwald

Futebol por todas as estações

Neste final de 2007 fui passar o Natal em Jaguarão, cidade gaúcha que faz divisa com Rio Branco no Uruguay. As cidades são ligadas por uma ponte (Ponte Mauá), e são peculiares e belíssimas.

No lado uruguayo, bem na margem do Rio Jaguarão, encontram-se vários free-shops, para deleite de vários brasileiros que vão para lá abastecerem-se de especiarias e produtos, principalmente eletrônicos. Vi carros com placas de várias cidades gaúchas (algumas bem distantes, como Venâncio Aires e Palmeira das Missões) e o comércio é bastante intenso, principalmente nos finais de semana.

Junto com meu irmão, invadimos o lado uruguayo, uma vez a pé e outra de carro. Quando de carro, fomos até o balneário uruguayo da Lagoa Mirim. Achei até que seria mais acanhado, mas já conta com uma estrutura razoável. Nesta ida até lá, fui procurando algo sobre futebol para depois postar por aqui.

Em termos de camisas de clubes nas ruas, vi várias de Inter e Grêmio, mas possivelmente fossem pessoas de Jaguarão (muitos têm moradia no lado castelhano ou no próprio balneário). Lá também tem o fenômeno dos camelôs, e nestas “tiendas” também tinham várias camisas de times brasileiros (de procedência pirata, óbvio). A maioria era da dupla Gre-Nal, mas também observei algumas de clubes argentinos, Peñarol e Nacional, claro, e de brasileiros vi as de São Paulo, Santos, Palmeiras (sim, a verde-limão) e Flamengo. Creio que sejam os uruguayos que comprem as camisetas da dupla Gre-Nal, pois não tenho motivos para acreditar que alguém vá do outro lado da fronteira para comprar uma camisa pirata...do time de sua própria cidade. Mas não sei ao certo, para falar a verdade.

As impressões sobre a pequena e simpática Rio Branco foram as melhores. Como aqui não é um blog de turismo, vou resumir em algumas frases:
Rio Branco é uma cidade bastante limpa (excetuando-se a zona dos free-shop, que fica mais afastada do centro, mais perto da margem do rio).
Os motoristas respeitam a faixa de segurança, incrível.
E sim, existe futebol na cidade, ainda que não seja profissional.


Vejam o futebol presente no dia-a-dia, neste muro abaixo. Fui obrigado a tirar uma foto. Sensacional, uma pena que está tão descascado, mas este muro fica na "avenida principal" de Rio Branco:


Um adendo na parte gastronômica: bem na entrada do centro de Rio Branco, há o restaurante “La Punta”. Não sei se é o melhor ou o mais barato, pois foi o único que fui, além do “El Turista” (o "el turista" não é ruim, fica junto com os free-shop, mas como o nome sugere, é mais caro). No "La Punta" eles servem o “chivito” (foto abaixo), mas tens que adentrar um pouco mais na cidade de Rio Branco.


Neste amontoado que vocês podem observar na foto do delicioso chivito, escondem-se dois filés e dois nacos de bacon. Belleza muchacho, como já disse Jorge Ramos. 18 reais e teoricamente serve duas pessoas (tudo é duplo), mas aí depende do freguês, é claro. Patrícia de litro a 4 pila, e gelada. Mas não é em todos os lugares que a cerveja é “gelada” para os padrões daqui. Em alguns locais eles não se preocupam muito com a temperatura da cerveja, e existem explicações teóricas sobre a cerveja não ser tão gelada, mas não vêm ao caso.
E o “chivito” pode ser encontrado também em lanches de rua, como na praça central, mas não sei o preço e a qualidade. O do “La Punta” é muito bom. Os de “bicão” não quisemos experimentar porque no chivito vai salada de maionese, mais perigosa que atacante ruim, mas veloz, de time pequeno jogando no contra-ataque, ainda mais no calor que estava.

Na estrada que leva de Rio Branco para o balneário, achamos o estádio da cidade. A foto não está boa, mas o estádio é melhor do que as fotos: possui iluminação, cabines de imprensa e arquibancada.



É um estádio acanhado, mas muito bem cuidado. No momento em que chegamos acontecia um treino. Como o clube é semi-profissional (ou semi-amador, conforme a ótica), cada um trajava material de treino exclusivo (em relação aos demais da própria equipe). Impressionante a variedade. Um dos jogadores trajava uma listrada amarela e preta de mangas longas, a despeito do calor de quase 40º. Tenho certeza que era a camisa do Bagé, já que só olhei de longe e nem estar no país do Penãrol me demoveu da idéia de que ele estava envergando a camisa jalde-negra do GEB.
Só um jalde-negro para estar de manga longa naquele calor, e ele era o único.

O nome deste clube é como vários aqui no Brasil: “Ferroviário”. As cores são o azul e amarelo, a julgar pelas cores do estádio, pois não vi camisetas (abaixo a bilheteria do clube).



O motivo: a sede se localiza quase na linha férrea, que passa atrás do estádio. Assim como aqui, a linda estação ferroviária está abandonada (foto abaixo), e sua arquitetura guarda alguma pujança econômica que ficou no passado. Uma pena.

Mas o Ferroviário segue firme e treinando. Eu não pude descobrir como é o sistema do campeonato deles, mas no Uruguay a “divisão amadora” disputa jogos contra outras equipes do “departamento”, podendo chegar a ser campeão nacional nesta categoria. Tenho que descobrir o nome e sistema de disputa... Imagino que seja uma competição interessante.

Finalizo a postagem dando boas-vindas ao nosso novo colaborador, o Froner. Froner além de escrever sobre futebol, tem um projeto musical (solo) denominado “Svanat”. Como gostei bastante das músicas, especialmente da “D’alba”, utilizei ela para ilustrar algumas imagens de Jaguarão e Rio Branco (ou as fotos ilustram a música). Dêem uma conferida aí em baixo, no “vídeo”, e podem achar mais músicas do projeto do Froner em
Svanat . Tem tudo a ver com o pampa. Parabéns, Froner.
Cabe avisar que das fotos que coloquei neste vídeo, apenas 4 são de minha autoria, retirei as outras do Flickr, e são vários os autores, espero que me desculpem por não nomear um por um.

Amanhã tem postagem do Maurício e estamos inseridos no Prêmio Ibest, se alguém tiver paciência para votar, chegue de carrinho:

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